domingo, 15 de março de 2009

Capítulo X - O GOLPE MILITAR DE 1964 E A MUDANÇA POLÍTICA

COMO SE SABE, a partir de março de 1964, o país passou por uma mudança radical em decorrência do Golpe Militar de 31 de março. Esse acontecimento transformou totalmente a vida política brasileira, reformulando todo o sistema.
Desde os grandes centros até os lugares mais recônditos do país, parte significativa da população engajou-se em uma ampla campanha anticomunista, que era apresentada ao público como uma defesa da liberdade. O ponto alto dessa mobilização, que contou com o importante apoio da Igreja Católica, ocorreu exatamente no dia 19 de março, ironicamente, o dia consagrado a São José, padroeiro da família. Milhares de brasileiros saíram às ruas portando cartazes e gritando palavras de ordem, alertando sobre o suposto perigo do comunismo e sua ameaça ao mundo livre. Era a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que se transformou em uma das maiores manifestações reacionárias da história do país.
No dia 31 de março de 1964, os militares tomaram o poder, mergulhando a sociedade brasileira em profundas mudanças políticas e sociais. Seu primeiro presidente, o cearense Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, alterou profundamente a legislação trabalhista e a economia, cassou mandatos, suspendeu direitos políticos e, posteriormente, extinguiu todos os partidos existentes, estabelecendo o bipartidarismo com a ARENA e o MDB.

Com o Golpe Militar de 1964 foram extintos todos os partidos políticos do Brasil e em 1966, estrearam os novos partidos, criados à sombra do arbítrio; eram a Aliança Renovadora Nacional/ARENA, que abrigava os ditos revolucionários e simpatizantes e o Movimento Democrático Brasileiro/MDB, que abrigava os ditos oposicionistas.

O Golpe Militar estabeleceu como meta transformar o Brasil em uma potência mundial de médio porte; contudo, ocorreu uma estranha contradição. Com a intenção de neutralizar as forças de massa — principalmente nos grandes centros, onde havia uma oposição muito forte ao novo regime —, os militares decidiram aliar-se ao que restava do coronelismo. Com isso, sobretudo nos estados nordestinos, as velhas oligarquias voltaram bastante fortalecidas, atualizando o poder dos coronéis. Essa prática criava um paradoxo ao unir propostas de uma economia moderna com as manobras politiqueiras do passado, misturando o moderno e o arcaico. Inspirados por esse pensamento antiquado, incentivaram alianças e conchavos para que os ditos “ideais revolucionários” fossem preservados. Simultaneamente, sobretudo de 1969 a 1979, o país conheceu um desenvolvimento econômico jamais visto, o que ocorreu paralelamente à maior perseguição política da história nacional. Escapavam da fúria impiedosa dos militares apenas aqueles que, por conveniência, passavam para o lado deles, apoiando integralmente suas ideias.

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No Ceará, Virgílio Távora havia apoiado o governo de João Goulart, endossado a campanha plebiscitária pelo retorno do presidencialismo, simpatizado com as medidas de Jango e atuado como seu Ministro de Estado. No entanto, deu uma guinada estratégica ao hipotecar seu apoio ao Golpe Militar, convertendo-se em um defensor dos ideais da "revolução". Essa atitude confirmou sua pragmática forma de fazer política, caracterizada pela flexibilidade para obter vantagens momentâneas. A manobra garantiu-lhe o reconhecimento dos militares, resultando em sua nomeação como Governador do Ceará em 1978.
Após esse salto, Távora, que já exercia grande influência na política cearense, buscou o respaldo de chefes políticos do interior. Na região jaguaribana, mais precisamente em Limoeiro do Norte, teve como fiel discípulo o deputado Manuel de Castro Filho. Aliás, desde que ingressou na vida pública, Castro posicionou-se com extrema lealdade às orientações do líder político.

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Em Limoeiro do Norte, a população dos mais diversos recantos do município foi convocada, principalmente pela Diocese, a participar da Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Em 19 de março, os participantes seguiram em passeata até o centro da cidade, cada um conduzindo uma palha verde de carnaubeira como símbolo de liberdade. O hino, composto exatamente para a ocasião, era cantado como palavra de ordem e tinha um refrão que destacava o perigo do comunismo:
(...)
Liberdade com Deus, Liberdade,
Sem a foice que ceifa inclemente,
Liberdade com Deus, Liberdade,
Sem o martelo que esmaga o inocente.
(...)
Manuel de Castro não era o único em Limoeiro do Norte a estar do lado do Golpe Militar, pois havia outras lideranças, tais como os deputados Franklin Chaves e Dr. José Simões. Para não perderem suas posições na política limoeirense, os três iniciaram uma dança engenhosa a fim de assegurar os seus espaços. Nenhum desses fortes “defensores” do povo teve a coragem de ingressar no partido de oposição (MDB); optaram todos pela ARENA, entrando no mesmo saco para, dessa forma, se identificarem como farinha do mesmo saco.
Difícil não era a articulação dessas lideranças, pois todas sempre olharam, primeiramente, para os seus interesses individuais. O verdadeiro desafio seria a divisão do bolo, de modo a satisfazer a cada um na hora de abocanhar a fatia correspondente. Agora, já não era mais uma briga de partidos, mas sim uma luta infernal pela manutenção das benesses advindas dos chefes maiores. Nesse palco, Manuel de Castro estava em posição melhor e mais confortável, pois o seu comandante, Virgílio Távora, estava bem acomodado, enquanto os outros ainda teriam que buscar um apoio maior.
Após o Golpe Militar e determinados a assegurar cada qual a sua própria fatia de poder, os três deputados se reuniram e indicaram nomes totalmente fiéis aos seus comandos para, sobretudo, vigiar os passos uns dos outros. Manuel de Castro fez-se representar por seu escudeiro José Hamilton de Oliveira, Franklin Chaves por seu infalível defensor, o professor Antônio Pergentino Nunes, e o Dr. Simões pelo seu sequaz, Alcides Chaves. Cada um estava imbuído da tarefa de defender o espaço político do seu chefe, bem como de preservar seus respectivos redutos eleitorais. As divergências entre o trio eram enormes, mas, como todos dividiam o mesmo "picadeiro", optaram por formar sublegendas, tripartindo a ARENA em facções como se fossem legendas independentes entre si.
Com a aproximação da campanha eleitoral de 1966 — a primeira para prefeito após o Golpe Militar —, a briga de bastidores ganhou força de verdade. Tratava-se de uma disputa muito mais impiedosa do ponto de vista dos interesses pessoais do que qualquer outra já ocorrida. Afinal, era uma guerra fria, travada longe do conhecimento da população, em meio às tramas mais obscuras da política local.

3 comentários:

Unknown disse...

Discordo em chamar o movimento de 1964 de revolução, foi um golpe mesmo. Revolução é quando há uma completa e profunda transformação da sociedade, e o que realmente aconteceu foi uma tomada de poder mudando apenas, de maneira truculenta, os rumos da nação.

Unknown disse...

Discordo em chamar o movimento de 1964 de revolução, foi um golpe mesmo. Revolução é quando há uma completa e profunda transformação da sociedade, e o que realmente aconteceu foi uma tomada de poder mudando apenas, de maneira truculenta, os rumos da nação.

Anônimo disse...

Ano que eu nasci