sábado, 27 de junho de 2026

AO LEITOR

 A HISTÓRIA POLÍTICA DE LIMOEIRO DO NORTE é recheada de acontecimentos que revelam a forma como o processo se desenvolveu ao longo de mais de um século. Desde o domínio da família Chaves, iniciado em meados do século XIX, os acordos e conchavos fizeram e ainda fazem parte das negociações para a manutenção do poder.

Se a oligarquia Chaves durou quase um século e já se passaram várias décadas após a sua queda, é possível perceber que a estrutura de poder se manteve. O comando foi apenas transferido, dando continuidade a interesses individuais e de grupos.
A ascensão de Manuel de Castro no processo político local, a partir da queda dos Chaves em 1954, também caracteriza uma oligarquia (governo de poucos), perpetuando um modelo que perdura até os dias atuais. Curiosamente, nenhum dos atuais políticos limoeirenses — com raras exceções — pode se dar ao luxo de dizer que não tem origem no proselitismo político de Manuel de Castro. Mesmo tendo encerrado sua vida pública em 1982, na qualidade de governador do Estado — atividade que exerceu por quase quatro décadas —, ele deixou um legado que deverá permanecer no cenário local por algum tempo.
Os novos nomes que passaram a dominar o poder a partir de 1982 iniciaram o que podemos chamar de um novo ciclo político. Foi a partir de então que a política, se já era voltada para interesses sombrios, tornou-se ainda pior, pois as brigas, as fofocas, as futricas e, sobretudo, os interesses pessoais ficaram mais evidentes. “Brigar” hoje e “unir-se” amanhã tornou-se apenas uma questão de conveniência, dependendo da ocasião.
As últimas décadas foram marcadas por um jogo de cumplicidade entre os políticos limoeirenses. Embora, em determinados momentos, eles tenham se proclamado “amigos” apenas para enganar o povo, a amizade nunca existiu de fato. O que houve foi um estado de conexão profundamente personalizado e, apesar de tudo isso, coexistia entre eles uma visível desconfiança.
A união propalada durante as campanhas eleitorais nunca representou os anseios do povo, que foi propositalmente colocado no jogo cruel e injusto da política por eles praticada. Aqui, cabe muito bem uma citação de Étienne de La Boétie, em seu Discurso da Servidão Voluntária:
“Entre os maus, quando se juntam, há uma conspiração, não uma sociedade; eles não se entre-apóiam, mas se entre-temem. São cúmplices”.
Os atos político-administrativos ocorridos a partir de 1982 até os dias de hoje têm sido os mais absurdos de toda a história de Limoeiro do Norte. Os mais escabrosos boatos de corrupção, os mais desavergonhados conchavos políticos e os maiores descalabros administrativos tornaram-se tão habituais que viraram rotina, de tal forma que a população passou a considerá-los como ações normais.
Tanto cultuam os atos ilícitos que conseguem fazer com que boa parte da população passe a desacreditar da existência de pessoas sérias capazes de administrar o que é do povo com honestidade. O que mais se ouve nas rodas de conversa, com bastante frequência, é que “todo político é ladrão, todos são iguais, basta que cheguem ao poder e farão a mesma coisa”.
O ponto a que chegou a consciência popular, como resultado da política implantada nos últimos quarenta anos, tornou-se bastante favorável aos maus políticos. Para eles, o que interessa é que o povo continue cada vez mais alienado e sem condições de fazer uma análise crítica da situação, optando sempre pelo pior — o que é bem melhor para eles.
Todos eles, da mesma cepa, praticam e disseminam até hoje a semente nociva da politicagem e, com isso, conseguem sobreviver politicamente a ponto de superar até mesmo as suas próprias contrariedades.
O agravante é que parte da população, aquela que percebe como o jogo político é praticado, sente-se impotente diante do quadro atual. Sem nada poder fazer para conter a facilidade com que agem os pseudopolíticos, essa parcela assiste à falta de escrúpulos com que eles mostram a cara ao povo, sempre com a empáfia de grandes líderes.
Os conchavos e os acordos firmados a cada eleição são tão deslavados que sequer se preocupam em ser escondidos da vista da população. Isso não se restringe apenas ao uso indevido do dinheiro público, mas a um absurdo ainda maior: a falta de coerência, de sinceridade e de respeito para com o limoeirense.
A propósito: haverá ato de corrupção maior do que corromper consciências?
MF

XVIII - O SEGUNDO MANDATO DE DILMAR

APÓS TER RECEBIDO uma expressiva votação e criado uma espécie de alívio em grande parte do eleitorado que queria ver Arivan fora da prefeitura, Dilmar assumiu no dia 1º de janeiro de 2005, prometendo um governo popular.
Porém, antes de comparecer à Câmara Municipal para tomar posse no governo, um problema teve que ser resolvido: o surgimento de um impasse para a eleição da presidência da Casa. O "grupão" havia acertado que Marduque Duarte seria eleito para presidir o Legislativo, mas Lúcia Baltazar, incentivada por adversários — sobretudo os vereadores eleitos pela ala de Arivan Lucena —, manifestou, de última hora, sua intenção de também concorrer. O fato gerou um momento de grande turbulência, sendo preciso mobilizar tanto o prefeito eleito quanto os deputados Paulo Duarte e Ariosto Holanda, que precisaram intervir diretamente nas negociações para convencer a vereadora a desistir da candidatura. A verdade é que a disposição de Lúcia dividia de tal forma os votos que corria o risco de Marduque ser derrotado, o que atrapalharia o acordo estabelecido ainda em campanha.
Finalmente, tudo foi resolvido, e Marduque foi eleito presidente do Legislativo municipal.
Com semblante sorridente e pretencioso, voltava à prefeitura montado nos defeitos da administração passada, insinuando que Limoeiro havia, naquele momento, saído de uma situação de caos.
A escolha do secretariado não apresentou nenhuma novidade. A lista foi divulgada por ele próprio, um dia antes da posse, pela Rádio Vale do Jaguaribe, e dentre os nomeados estava o radialista Rosálio Daniel para a Secretaria de Cultura.
O discurso de posse na Câmara de Vereadores foi recheado de contornos inovadores, gabando-se como o melhor para Limoeiro. Sem se preocupar com a demagogia da qual sempre se utilizou para enganar os limoeirenses, quando se referiu a Ariosto Holanda e Paulo Duarte, chamou-os de “meus deputados”, exaltando as qualidades de ambos.
Convocou a população para participar do seu governo, dizendo que, a partir daquele momento, o prefeito não tinha adversários e estavam todos — poder público e população — imbuídos do propósito de desenvolver o município.
Dilmar iniciou seu governo praticando o nepotismo, quando colocou a esposa, Dra. Célia, na Ação Social, e o irmão, Deuzimar, na Secretaria de Agricultura.
Para abrigar dois suplentes na Câmara de Vereadores, convidou para o secretariado os vereadores eleitos: José Lins Guerra (Eliézer) para Obras e Gladis Bandeira para a Chefia de Gabinete.
Desta vez, o Dr. Maílson Cruz ficou fora do secretariado; entretanto, o seu braço direito, Mâncio, foi colocado na Secretaria de Administração e Finanças, confirmando os boatos de que Maílson seria o responsável pelas finanças do município.
Se Maílson não quis assumir nenhuma secretaria, deduz-se que a sua atuação na administração era muito mais eficiente ficando do lado de fora. Falavam ainda de que fora ele quem determinara a indicação de todos os secretários.
O slogan criado para identificar a administração, com a frase “É Tempo de Paz e Desenvolvimento” e o desenho artístico de uma pomba, sugeria pretensiosamente que Limoeiro encontrara novamente o caminho da paz e da tranquilidade.
Com o apoio da Rádio Vale do Jaguaribe, começou uma onda de propagandas do novo governo, noticiando uma administração inovadora, moderna, honesta e democrática.
O império do empreguismo, tão criticado durante a campanha, tornou-se, logo de início, uma prática à vista de todos. O prefeito esquecia-se de que, por algumas vezes, chegou a dizer que “o dinheiro da prefeitura não dava para nada porque Arivan pulverizava-o entre os seus protegidos”. Mas, mal sentou no trono, apenas tirou os “dela” e colocou os “dele”, gerando a primeira insatisfação em seu próprio eleitorado.
A partir de então, configurou-se um empreguismo exagerado e um nepotismo deslavado, quando abrigou na prefeitura parentes e aderentes, além do favorecimento aos aliados de plantão.
Não tardou para aparecerem os primeiros boatos de desvio de dinheiro público, e algumas obras e ações já se iniciavam recheadas de gravíssimas suspeitas.
Inventou um concurso público, numa tentativa de camuflar a onda de empreguismo, mas sofreu fortes denúncias logo na divulgação do edital por parte de alguns vereadores de oposição. Estes levantaram dúvidas sobre a lisura do processo de licitação por conta da empresa vencedora, correndo à boca pequena que a citada empresa pertencia ao próprio Maílson Cruz e que a licitação não passou de uma farsa.
Não obstante as denúncias, o concurso foi realizado e estas aumentaram consideravelmente após a sua aplicação. Desta vez, a população recorreu ao Ministério Público, denunciando falcatruas e favorecimentos. “Estranhamente”, o Ministério Público ignorou todas as denúncias sem se dar ao trabalho sequer de apurá-las e homologou-o como legal.

Começou também a enfrentar uma forte oposição por parte dos vereadores Nonato Pinheiro e Heraldo Holanda, quando denunciaram de forma contundente a estrada que liga o Arraial à estrada que de Quixeré, mostrando em vídeo que foi colocado na internet: o desvio de pelo menos R$ 115.000,00 reais. (https://www.youtube.com/watch?v=a8dMk3iU_o0) Por outro lado o Dr. Leovigildo denunciava a corrupção existente na administração, em uma reforma da Escola Carmelita Setúbal na Cidade Alta, também numa gravação de vídeo e da mesma forma colocado na internet.

Quanto mais o tempo passava, mas o prefeito se mostrava inoperante, confirmando a versão que era o Dr. Maílson quem realmente comandava a administração.
A tão alardeada modernidade administrativa não passou de mais um ato de enganação e o que se viu durante seu governo, foi a repetição dos mesmos desmandos que tanto colocavam o município em situação de atraso em relação aos outros municípios da região. As ruas continuavam esburacadas, muito embora em outras se construía calçamentos; o lixo acumulado nos logradouros públicos, as praças mal cuidadas, o prefeito distante do povo e dentro da administração os velhos e conhecidos “ratos de prefeitura”

28.1 RELACIONAMENTO COM PAULO DUARTE E A ELEIÇÃO DE 2006

Como era costume, desde que ingressaram na política, sempre brigarem e se unirem por conveniência, desta vez não foi diferente. Muito cedo, notava-se que aqueles que novamente se abraçaram como “grandes amigos” no último palanque, já estavam prestes a declarar mais uma briga, embora não tornassem públicas essas desavenças.
Antes, porém, da deflagração da grande intriga, e por serem mestres na arte de enganar o povo, sempre que tinham oportunidade, trocavam elogios. Pouco lhes importava se a população percebesse a farsa que costumavam estabelecer no jogo político e a falsa “amizade” existente entre eles.
A prova disso vem de uma declaração de Paulo Duarte durante a comemoração do primeiro ano de administração. Na ocasião, ele elogiava toda a equipe, inclusive o Dr. Maílson, reconhecendo-o como o homem forte ao lado de Dilmar:
“Digo isso aqui sem nenhuma necessidade de esforço. De todos os prefeitos que eu tenho acompanhado agora neste primeiro ano de mandato, pode ter certeza, o prefeito que tem uma obra mais marcante, fazendo mais obras aqui, em toda a região jaguaribana, é o prefeito Dilmar. Isso aqui é pra fazer justiça... (...) Se você chegar em Limoeiro hoje, Limoeiro está um canteiro de obras. Calçamentos, estradas asfaltadas, colégios, quadra de esportes... (...) Isso é a marca da equipe do Dilmar que tem, sempre, o projetista, aquele cara que está sempre à disposição, que é o Dr. Maílson, e merece uma referência especial pela disposição de colaborar, apoiar, fazer os projetos, ir a Brasília buscar os recursos, e essa é a marca da administração do prefeito Dilmar”. http://www.youtube.com/watch?v=fx-sBS08Q2E – em 05.04.2009
As palavras de Paulo Duarte não entusiasmavam ninguém, posto que era muito comum entre eles declarações desse tipo, tão somente para tentar repassar à população a imagem de que estavam solidamente unidos. A verdade é que, até aquele momento, eles realmente ainda não haviam brigado, e isso só viria à tona na eleição para deputado.  
Quando se iniciou a campanha de 2006, já se percebiam os caminhos diversos que ambos seguiriam. Dilmar, aliado de Ciro Gomes, não tinha como deixar de apoiar a candidatura de Cid Gomes ao governo do Estado, enquanto Paulo Duarte, aliado de Tasso Jereissati, declarou seu apoio à reeleição do governador Lúcio Alcântara. Mas, até aí, não havia motivos suficientes para se aviltarem. O que estava em jogo eram as candidaturas para deputados.
Enquanto isso, Arivan Lucena, ao contrário do que pensavam seus “adversários”, mantinha vivo o seu grupo. Embora declarando seu apoio à candidatura de Cid Gomes, escolhera para deputado estadual Manoel de Castro Neto (Manezinho).
Para a Câmara Federal, tanto Paulo Duarte quanto Dilmar novamente “trabalhariam” ao lado de Ariosto Holanda. Entretanto, para a Assembleia Legislativa, existia uma dúvida com relação ao grupo de Dilmar, sobre se realmente apoiaria o nome de Paulo Duarte. Em momento algum da campanha, Dilmar e seu grupo declararam esse apoio. Por outro lado, Paulo Duarte, em momento algum, pediu votos para Ariosto Holanda; pelo contrário, juntamente com Kennedy Linhares, deixava perceber que ambos estavam trabalhando o nome de Gonzaga Mota.
Durante a campanha, nenhum deles tinha coragem de declarar-se rompido ou magoado com o outro. O tempo todo mantiveram-se calados, pois temiam uma reação contrária do povo e preferiram esconder que o "grupão" havia sofrido mais uma implosão; tanto que, durante todo o período eleitoral, não se agrediram publicamente.
Passada a eleição, logo no dia seguinte, Paulo Duarte concedeu entrevista à Rádio Vale do Jaguaribe. Na ocasião, afirmou que foi traído por Dilmar e seu grupo, responsabilizando-os por sua derrota, mesmo tendo conseguido 13.045 votos somente em Limoeiro do Norte.
A partir dali, com a briga deflagrada, Paulo Duarte tornou-se um crítico contundente da administração, usando abertamente a Rádio Vale do Jaguaribe para declarar publicamente o rompimento. Também instruiu seu irmão, Marduque, a fazer oposição cerrada na Tribuna da Câmara de Vereadores. Este, sempre em seus peculiares surtos de desequilíbrio e irresponsabilidade, transformou-se em uma verdadeira metralhadora, repetindo os mesmos pronunciamentos que fazia na época de Arivan Lucena. Aliás, Marduque tinha competência de sobra para bombardear o prefeito, pois sua maior marca — e o que melhor soube fazer — era apontar defeitos alheios.
Enquanto isso, Ariosto Holanda, em seu estilo sutil de sempre calar-se, teve uma votação expressiva de 14.728 votos. Sem nada a reclamar, não deu uma declaração sequer para agradecer pelos votos recebidos, muito menos para opinar sobre as declarações de Paulo Duarte.
Os limoeirenses, mais divididos do que nunca entre os grupos de Paulo Duarte e Dilmar, ficaram aguardando a próxima campanha, onde, mais uma vez, estariam os dois lados em palanques diferentes e, novamente, brigando desesperadamente pelo poder.

XVII - A ESPETACULARIZADA ELEIÇÃO DE 2004

A CAMPANHA POLÍTICA de 2004 se aproximava com a certeza de que seria uma verdadeira guerra entre o grupo da prefeita e os seus adversários. O clima no município era tenso e delicado. O eleitor encontrava-se extremamente decepcionado, com a autoestima em baixa e a esperança mutilada, procurando, em meio aos acontecimentos, uma saída positiva.
Arivan se tornara o centro do ódio para a maioria dos limoeirenses. A sua conduta como prefeita era questionada devido a uma série de fatores que contribuíram para a sua rejeição por parte da maioria da população. Como pontos principais, pesavam contra ela a acusação de ser mandante do crime contra o radialista Nicanor Linhares e o fato de manter-se no mandato por meio de uma liminar, desde que foi cassada em abril de 2004 pela Câmara de Vereadores, além de sua postura considerada arrogante. Apesar de tudo, teimava em candidatar-se, o que para muitos era um ato de ousadia e muita coragem e, no discurso dos adversários, uma afronta aos limoeirenses.
Mesmo com dados tão deprimentes, Arivan ainda causava pânico aos inimigos, que chegaram a se amedrontar com o fantasma de mais uma derrota depois da confirmação de sua candidatura. A surpresa foi a escolha do candidato a vice-prefeito, que recaiu sobre a pessoa de Pedro Julião, muito embora já estivessem aliados havia algum tempo.
Do outro lado estava Dilmar que, mesmo derrotado por duas vezes, anunciava a sua inarredável disposição de mais uma vez candidatar-se. Ele não aceitava, por hipótese alguma, qualquer negociação que pretendesse tirar-lhe a cabeça de chapa, pois sabia, junto com seu grupo, que aquela seria a sua última cartada e, portanto, teria que ganhar a qualquer custo. Mais uma vez, apostava na aceitação que teve nas eleições passadas (1996 e 2000), sempre com um percentual girando entre 25% e 30% do eleitorado.
Estranha foi a atitude de Paulo Duarte, já que sua candidatura era esperada por todos em virtude da briga que comprou quando denunciou José Maria Lucena e Arivan, da tribuna da Assembleia Legislativa, como mandantes do crime de Nicanor Linhares. Acreditava-se que sua disposição em denunciar o casal teria sido para beneficiar-se politicamente, repetindo a dose da eleição de 2002, quando obteve uma estrondosa votação (47%), justamente por causa da intriga existente. Todavia, decidiu apoiar a candidatura de Dilmar, mesmo com a grande possibilidade de sair vitorioso naquela eleição, pois, naquele momento, era ele quem absorvia toda a rejeição da prefeita. O que não se esperava era que ele cedesse o lugar de candidato para outra pessoa, muito menos para Dilmar.
Era estarrecedor o fato de Dilmar e Paulão estarem juntos, se, até pouquíssimo tempo atrás, não se olhavam na cara e nem existia o mínimo de confiança entre eles para estabelecerem uma união. A palavra “amigos” era totalmente descartada do dicionário de ambos. Entretanto, estabeleciam um jogo de cumplicidade na luta pelo poder, totalmente esquecidos de que, na campanha passada, trocaram calorosas farpas em palanques contrários.
Paulo Duarte nunca explicou direito ao povo o motivo que o levou a jogar fora a grande oportunidade de tornar-se prefeito, ainda mais quando se sabia que esse era o seu maior desejo. Como diz o adágio popular, “o cavalo passou selado”, mas ele desperdiçou a chance de montar, preferindo “entregar o ouro aos bandidos”.
Pode-se supor, entretanto, que um dos fortes motivos — inclusive muito comentado pelo povo — foi o fato de que, quando procurou formar o grupo de apoio, já não tinha mais ninguém. Isso porque o Dr. Maílson já tinha atraído todos para apoiar Dilmar, e só entraria com os gastos da campanha se este fosse o candidato. Outra versão é a de que temia por sua vida devido a algumas ameaças que vinha recebendo por conta da denúncia feita aos arqui-inimigos José Maria e Arivan; e muito mais, porque a denúncia levou ao desbaratamento de uma quadrilha de assaltantes e pistoleiros na região jaguaribana.
O acordo de seguir junto com Dilmar foi selado publicamente por meio de entrevista conjunta na Rádio
Vale do Jaguaribe, tendo como única imposição que sua irmã, Elizete, fosse a candidata a vice-prefeita.
A entrevista serviu para que, mais uma vez, Dilmar e Paulo Duarte trocassem elogios. Isso era de praxe entre eles, que o faziam com a mesma facilidade com que brigavam em determinados momentos.
No mesmo barco de Paulo Duarte, entraram "Careca", Ademar Celedônio e Ariosto Holanda a favor da candidatura de Dilmar, deflagrando a união de todos aqueles que, em um passado recente, estiveram se digladiando e se agredindo entre si.
Finalmente, surgiu uma terceira candidatura. Tratava-se do vice-prefeito Laurinho, em uma coligação entre PSB, PT e PMDB, formando chapa com o Dr. Lindenor. Este, insatisfeito por não ter algumas de suas exigências aceitas, resolveu romper com o “grupão”. A coligação teria ainda a adesão do PV, entretanto, Luiz Mendes decidiu candidatar-se sozinho, mesmo sabendo que jamais teria condições sequer de concorrer.
Quando a campanha chegou às ruas, iniciaram-se as brigas de palanque, e o eleitor assistiu ao maior espetáculo de baixarias já visto em uma campanha política no município.
Os comícios se transformaram em verdadeiras arenas, e os palavrões eram ditos sem o menor respeito ao povo. O palanque de Dilmar dirigia impiedosamente a Arivan e ao Dr. José Maria as mais absurdas frases, principalmente com relação ao crime de Nicanor Linhares, que foi intencionalmente transformado na bandeira principal da campanha.
O ponto alto deu-se durante a realização de um comício na Praça do Seminário, onde o linguajar usado pelos oradores foi deprimente. Em vez de levar propostas de trabalho e mudanças para o tão mutilado processo político, simplesmente promoveram uma audiência pública de condenação à prefeita e ao seu esposo, chamando-os de criminosos, farsantes, mentirosos, entre outros adjetivos. Chegaram ao ponto de dizer “que o casal entrava na igreja para engolir hóstia e saía cuspindo sangue”.
Além de usarem na mensagem principal da campanha um crime que abalou toda a região pelo ato de selvageria com que foi praticado, o espetáculo ficava ainda pior quando "o Careca" se dirigia a Dilmar apenas com elogios, esquecendo que o chamara de “meninão” e “cara de boneca” no passado. Da mesma forma, Ademar Celedônio, mesmo tendo sido o maior desastre administrativo de Limoeiro, não só elogiava, como também era eloquentemente elogiado pelos companheiros de palanque. Paulo Duarte dirigia-se a Dilmar chamando-o de “amigo” e distribuindo sua metralhadora verbal para falar do crime de Nicanor, acusando insistentemente o casal Lucena. Seu irmão, Marduque, usava o mesmo crime para criar cenas de deboche no palanque, insinuando, inclusive, que teria mais votos naquela eleição do que a candidata Arivan. O quadro se completava quando Ariosto Holanda comparecia aos comícios e levava ao povo um pronunciamento inteiramente demagógico. Ele sempre externava aos limoeirenses um perfil de seriedade; no entanto, não se abstinha de fazer parte da grande farra que o grupão promovia para conquistar novamente o poder.
Toda aquela cena dantescamente fantástica era assistida por uma plateia interessada apenas em ver

Arivan derrotada. O público não atinava para as consequências que adviriam daquela eleição, em total obediência à frase de efeito criada para disseminar, cada vez mais, a rejeição à prefeita. Ouvia-se nos quatro cantos do município: “Não importa quem ganhe, o importante é derrubar a mulher”.
Para demonstrar que, se fosse eleito, Limoeiro do Norte teria uma administração diferente — até mesmo de sua primeira gestão —, Dilmar tentava conquistar o eleitorado com a realização de seminários, dos quais sairia uma cartilha com as propostas de governo. Mesmo vendo o desinteresse do povo nesses eventos, resolveu publicar o livreto estabelecendo metas para a administração. No entanto, não teve o cuidado de evitar a inserção de promessas absurdas, como “a conclusão do ginásio coberto”, esquecendo-se de que ele próprio não o havia concluído por negligência quando foi prefeito. Por outro lado, dizia abertamente à população que faria um bom governo e tranquilizava o povo — agora mais amadurecido —, sugerindo que esquecessem a fraca gestão de 1989-1992.
Mais uma vez, uma onda de panfletagens de origem desconhecida foi usada para denunciar os adversários, e novamente Dilmar foi o mais atingido.
Enquanto Arivan e Dilmar ostentavam uma campanha com esbanjamento de dinheiro e contratação de atrações caríssimas, Laurinho prosseguia humildemente com reuniões nas comunidades. Ele tentava levar sua mensagem como a única que propunha seriedade e respeito aos limoeirenses.
Finalmente, depois de tantas baixarias, chegou o dia da eleição. O resultado foi bastante favorável a Dilmar, senão vejamos:
  • Dilmar - 57,7% dos votos.
  • Arivan obteve 27,7%,
  • Laurinho ficou com 7,5%
  • Luiz Mendes alcançou 1,2%.
⛯⛯⛯

Podemos considerar que a eleição de 2004 em Limoeiro do Norte foi um caso sui gêneris e deu-se por fatos inteiramente fora do contexto normal de uma campanha política.
Tudo o que ocorreu comprovou aquilo que já relatamos em termos de personalidade dos participantes do processo político de Limoeiro das últimas décadas, ou seja, nunca se recusaram em utilizar quaisquer motivos, por mais absurdos que se apresentassem, desde que acarretassem rendimentos eleitorais, mesmo em detrimento de toda uma população.
Naquela campanha se ouviu mais do que nas outras, pronunciamentos agressivos e deprimentes em cima dos palanques. A indústria da mentira foi trabalhada com tanta eficiência durante a campanha e de tal forma que surtiu o efeito desejado para aquele que conseguiu melhor repassar para o povo sua enganosa mensagem.
Aliás, é muito comum aos políticos usarem do artifício da mentira espelhando-se em uma frase tida como eficiente e princípio de um dos líderes da Alemanha Nazista Joseph Goebbels: (Responsável pela propaganda de massa feita pelo nazismo na II Guerra Mundial. Exercia ainda um severo controle sobre as instituições educacionais e sobre os meios de comunicação).“Uma mentira dita cem vezes torna-se verdade”. O uso desta frase não passa de mais uma artimanha dos políticos para tirar proveito próprio sem a preocupação de que está levando toda uma população para o abismo da miséria e da alienação política.
O mais incrível e até inaceitável na campanha de 2004, foi o uso imoral e sórdido do assassinato de Nicanor Linhares utilizado pelo “Grupão” para denegrir as imagens de Arivan e do seu esposo, fazendo as mais ineptas acusações, sabendo de antemão que os pronunciamentos neste sentido eram do agrado da maioria do eleitorado e que produziam efeitos positivos.
Outro fato que não pode escapar de uma análise mais acurada, foi o ajuntamento de todos eles como se fossem verdadeiros amigos. Via-se no mesmo palanque Careca, Ademar, Paulo Duarte, Dilmar e Ariosto Holanda. Esse último confirmava sua indisposição de estar ao lado do povo, esquecido de que tempos atrás teria sido contrário a candidatura de Dilmar com base em um comentado “dossiê” que tinha em mãos sobre o período em que o mesmo administrou Limoeiro (1989-1992) e agora, pedia obstinadamente aos limoeirenses que o elegessem.
Ante a exibição historicamente cinematográfica promovida pelo “grupão”, pelo menos alguns eleitores mais sensatos sabiam que por trás daquele cenário existia entre eles uma desconfiança generalizada, mas que preferiam encenar amizades recíprocas para ludibriar a consciência do povo. A declaração de apoio feita pelos componentes do “grupão” à candidatura de Dilmar na eleição de 2004 foi a forma que eles encontraram para assegurar a participação no bolo, ainda que pequena. A cena, de certa forma pitoresca lembrava o escritor francês Etienne de La Boétie:
“(...) não pode haver amizade onde se encontram a crueldade, a injustiça. Entre os maus quando se juntam, há uma conspiração, não uma sociedade. Eles não se entreapóiam mas se entretemem. Não são amigos, mas cúmplices”. (Discurso da Servidão Voluntária, http://www.consciencia.org/moderna/boetie.shtml)
Se naquela época – Séc. XVI – La Boétie já descrevia a sujeição do povo aos seus líderes, imagine hoje quando a mente humana se aprimorou no jogo político.
Para os políticos limoeirenses, alienar tornou-se um verbo de conjugação saborosa e doce e em virtude disso, passaram a oferecer ao povo em vez de liberdade, uma sensação de desprezo e impotência a cada administração.
Se durante todo mandato, Arivan tivesse usado de um mínimo de inteligência no trato com seus “inimigos” políticos não teria viabilizado o retorno deles ao poder. Não soube, ou não quis conduzir a administração, cujo objetivo principal era o de promover a ruptura com o modelo anterior e fizesse nascer um novo período na história político-administrativa de Limoeiro do Norte.
Faltou-lhe a experiência e muito mais a matreirice necessária para expurgar definitivamente do município os viciosos costumes politiqueiros, implantados por todos aqueles que foram derrotados naquela eleição que a tornou prefeita.
Não soube ainda emprestar seu “carisma” – embora raquítico – para que pudesse fazer um governo catalisador e aglutinador de forças políticas, e para isso, seria necessário apenas que tivesse agido sem arrogância.
Os complicados fatores e circunstâncias que deveriam ser combinados para o êxito de sua administração não foram usados. Pelo contrário, desprezou todos aqueles que a ajudaram a chegar ao cargo de prefeita.
Em vez de estabelecer métodos administrativos inovadores, optou pelo empreguismo, pelas futricas pessoais e pelo acirramento das discordâncias, de certa forma praticando os mesmos atos desabonadores dos adversários, o que foi inteligentemente aproveitado por eles para jogá-la contra a população. Para a tristeza dos limoeirenses, o desinteresse de Arivan em optar pela humildade e de se fazer verdadeiramente representante do povo, viabilizou o retorno de um grupo político inadequado para conduzir os destinos de Limoeiro.