segunda-feira, 28 de abril de 2025

Capítulo XXIII - A ELEIÇÃO DE 1996

Ainda que alguém me diga
Que viu um mudo falando
Um elefante dançando
No lombo de uma formiga
Não me causará intriga.
Escutarei com respeito
Não mentiu esse sujeito.
Muito mais barbaridade
É haver numa cidade
Prefeitura sem prefeito.

Não vou teimar com quem diz
Que viu ferro dá azeite
Um avestruz dando leite
E pedra criar raiz
Ema apanhar de perdiz
E um rio fora do leito.
Um aleijão sem defeito
E um morto declarar guerra
Porque eu vejo em minha terra
Prefeitura sem prefeito.
Patativa do Assaré
Extraído do poema “Prefeitura sem Prefeito”

NO INÍCIO DE 1996, Limoeiro do Norte passava pelo pior período de sua história administrativa. O prefeito Ademar Celedônio, onde quer que fosse visto, estava sempre embriagado. A prefeitura, completamente acéfala, havia sido entregue nas mãos de pessoas ligadas aos grupos políticos de Paulo Duarte e Dilmar. A irresponsabilidade da gestão municipal alimentava boatos assustadores, enquanto crescia consideravelmente a lista de cheques sem fundos emitidos pelo próprio gestor para custear despesas pessoais, incluindo farras e bebedeiras.
Uma considerável parcela da população limoeirense andava desanimada, esperando um milagre ou um fenômeno qualquer que tirasse o município daquela situação deplorável. Foi captando esse sentimento de apreensão que Ariosto Holanda resolveu promover, numa memorável noite nos salões da AABB, um movimento sugestivamente chamado “Pensando em Limoeiro”.
Sabendo que a situação política era delicada e que seu nome gozava de enorme credibilidade junto ao público, Ariosto convocou a sociedade local para apresentar sua visão sobre a gravidade da administração e o futuro do município. Em seu pronunciamento, ele exibiu uma reportagem das PÁGINAS AMARELAS da Revista Veja ("É Triste Ser Analfabeto", Edição nº 1435, 13 de março de 1996, págs. 7 a 10). A matéria destacava a história de Antônio Ramos da Silva, prefeito de Quixaba — cidade do sertão pernambucano a 430 km de Recife, com população estimada em 4.000 habitantes na época. O gestor, mesmo completamente analfabeto, alcançou enorme popularidade ao revolucionar a educação do município, erradicar o analfabetismo e ganhar fama nos noticiários nacionais.
Pela forma como iniciou o seu discurso, deixou nas entrelinhas que estava disposto a apoiar o Careca caso ele viesse a se candidatar. Justificou esse apoio valendo-se da reportagem da Revista Veja, sugerindo que não haveria problema algum para um município ser administrado por um analfabeto.
A presença de Ariosto naquela noite causou enorme decepção. Quando o povo esperava que ele trouxesse a proposta de um candidato novo, optou por dar continuidade ao atraso em Limoeiro.
Foi a partir daquela noite que o Dr. Ariosto Holanda começou a mostrar duas faces distintas aos limoeirenses: a do político insensível e a do técnico competente. Com seu jeito sério, sempre conseguiu a simpatia do eleitorado, que lhe confiava o voto sem cobranças. Por outro lado, sempre optou pelo atraso político, mesmo sabendo que sua influência junto aos eleitores — principalmente naquele momento — era fundamental para mudar a situação crítica do município. Nunca, na história de Limoeiro, um político teve tanta aceitação e credibilidade popular quanto ele.
O discurso socialista que propusera implantar, quando veio buscar votos pela primeira vez em 1990, foi inteiramente desfeito por suas atitudes. Seu primeiro ato demagógico comprovado foi a filiação ao PSDB, partido de direita, para disputar novamente uma vaga na Câmara Federal em 1994. Naquele ano, após obter apenas uma suplência, foi convidado por Tasso Jereissati para assumir a Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado. O cargo serviu como compensação por não ter se eleito deputado federal, pasta onde permaneceu de 1995 a 2002.
Foi aí que se revelou a sua capacidade técnica. Na qualidade de secretário, implantou uma rede de educação tecnológica no Ceará com 40 Centros Vocacionais Tecnológicos (CVT), dois Núcleos de Informação Tecnológica (NIT) e três Centros de Ensino Tecnológico (Centec) — em Sobral, Juazeiro do Norte e Limoeiro do Norte —, idealizados como um programa de capacitação humana e educação profissional.
Sem deixar de reconhecer o valioso benefício dessa iniciativa — principalmente por defender a educação como base para a inclusão social —, ficamos sem entender a razão pela qual o Dr. Ariosto sempre defendeu um modelo político que não se afinava nem um pouco com o seu discurso, tampouco com suas atitudes em relação aos Centec’s. Estranhamente, ele promovia uma mistura do moderno com o arcaico: de um lado, praticava aquilo que considerava fundamental para o desenvolvimento do cidadão; de outro, fazia política da forma mais anacrônica e fisiológica possível.
Quem conhecia as atitudes de Ariosto Holanda quanto ao processo político em Limoeiro do Norte e o seu pensamento sobre a educação, percebia claramente essa dualidade e espantava-se com suas declarações:
"Se não pensarmos no homem, não alcançaremos o desenvolvimento: não se distribui renda entre analfabetos, só esmolas. E aqui se incluem os analfabetos funcionais, que sabem ler e escrever, mas não sabem para que isso lhes serve".
(www.estadao.com.br/ciência/noticias/2000/dez)
Com essas palavras, Ariosto criou um terrível paradoxo entre o falar e o pensar; ou seja, de um lado defendendo brilhantemente a educação e criticando o analfabetismo como um grande mal social e, de outro, pedindo ao seu povo que elegesse um analfabeto para administrar o município.
Ainda juntos, Dilmar e Paulão continuavam encenando para o povo um relacionamento de cordialidade, mas, intimamente, o que acontecia era uma desconfiança tão recíproca quanto a falsa impressão de uma amizade concreta.
Em meio às discussões que tratariam da escolha do sucessor de Ademar, os dois não se entendiam, e essa falta de harmonia nos entendimentos culminou em algo “inacreditável”: o rompimento entre eles.
O divórcio político entre Paulo Duarte e Dilmar poderia ter causado estranheza se não fosse de praxe os políticos limoeirenses viverem entre “tapas e beijos”, numa constante disputa pelo poder.
O impasse surgiu em virtude de Dilmar não abrir mão de sua candidatura sob qualquer hipótese, mesmo com a discordância irredutível de Paulão. Este, por sua vez, tencionava repetir a dose da eleição passada, quando fez todos engolirem goela abaixo o nome de Ademar.
Estando Paulo Duarte certo de que Dilmar não abriria mão da condição de candidato, começou a tramar o seu jogo político, iniciando uma aproximação com o Careca, com conversações no sentido de apoiá-lo na candidatura para prefeito.
Dentro desse contexto, convém analisar que cada um dos protagonistas daquele momento político se julgava mais astuto que os demais. Como o "bolo" estava cada vez mais fragmentado, sua divisão tornava-se mais complexa, visto que a parcela destinada a cada grupo não possuía peso ou "ingredientes" suficientes para vencer uma eleição de forma isolada. Eles dependiam, assim, de fatores externos — como a viabilização de candidaturas que facilitassem ou possibilitassem a vitória de terceiros. Foi o caso da eleição de Ademar, que só ocorreu graças ao rompimento entre Pedro Julião e Careca no pleito anterior (1992), fator que dividiu os votos e sem o qual sua eleição seria improvável.
De maneira semelhante ao que fez em 1982, quando se uniu a Manuel de Castro, Gladstone Bandeira esqueceu tudo o que havia dito nos palanques e partiu para uma negociata com Paulo Duarte. Após diversas conversas e conchavos nas madrugadas, a população assistiu estupefata, na histórica e memorável noite de 1996, no pátio interno do Hotel Municipal (hoje Secretaria Municipal de Educação Básica), à aliança pública entre Careca e Paulo Duarte, em uma solenidade que reuniu adeptos de ambos os lados. Em meio a clamores e aplausos, os dois deram as mãos como velhos amigos, como que pedindo ao povo que esquecesse as difamações trocadas durante a campanha para deputado.
Naquele momento, ambos se mereciam; compartilhavam o mesmo estratagema político de subestimar e desdenhar da consciência popular. Vale lembrar que as desavenças entre Julião e Careca durante a eleição passada abriram uma fenda na família Bandeira. A situação se agravou quando Careca, insensível ao rompimento de seu próprio clã — mesmo tendo sido o principal causador da crise —, não hesitou em unir-se a Paulo Duarte, movido unicamente pela ambição de voltar a ser eleito prefeito.
Seu irmão, Nauto Bandeira, até então um dos seus sustentáculos políticos, não gostou dessa atitude e, magoado, rompeu com ele. Acusou-o de ter passado por cima inclusive dos laços familiares, desconsiderando a todos e deixando de ser solidário ao próprio Nauto, que sofreu fortes perseguições políticas por parte de Paulo Duarte. Mas Careca, obcecado pelo poder, optou por satisfazer sua ambição pessoal. Se assim agiu, foi porque sabia que, sendo eleito, todos aqueles que se haviam afastado dele — inclusive os próprios familiares — viriam, sem dúvidas, ao seu encontro. A propósito, certa vez Careca foi flagrado conversando escorado no balcão de um amigo, comerciante e permissionário de um dos quartos do mercado público. Ele dizia: “Eu não me preocupo com quem tá brigado comigo agora, mesmo sendo meus parentes, pois, quando eu for o prefeito, todos vêm pro meu lado”.
Para custear a campanha, acredita-se que a dupla tenha chegado a uma conclusão bastante irresponsável: conseguir de Ademar que atrasasse a folha de pagamento dos servidores públicos municipais. A partir de agosto de 1996, a prefeitura deixou de pagar os salários, exceto a alguns cargos de confiança.
Tão grande era a ambição do Careca de chegar novamente à prefeitura, que não se importou em concordar com o atraso da folha de pagamento, mesmo sabendo que, se eleito, os salários atrasados cairiam sob a sua responsabilidade. Movido pela cega ambição de conquistar o poder e demonstrando total indiferença, ele não atentou ao fato de que estava tirando de muitos pais de família a única fonte de sobrevivência e de sustento dos filhos, tudo isso para realizar o seu desejo de voltar ao executivo municipal.
O palanque do Careca, montado com dinheiro público, era o mais “enfeitado” de todos. Lá estava o Dr. Ariosto Holanda defendendo e pedindo voto para um analfabeto. Também Paulo Duarte distorcia o discurso em um engenhoso trocadilho para fazer elogios ao Careca, inteiramente “esquecido” do que falara dele em campanhas passadas quando, em vez de elogios, dirigia-lhe injúrias e difamações. Por último, o Careca, totalmente desmemoriado, perdoava Paulo Duarte pelos adjetivos ditos quando estavam em palanques diferentes e disparava o seu desconexo linguajar contra os “adversários”.
Dilmar também entrou na disputa apostando no “carisma” e na popularidade do seu nome, certo de que o povo o reconheceria como um verdadeiro “líder”. Com a extrema confiança que tinha na aceitação de sua imagem, deu pouca importância ao rompimento com Paulo Duarte. Isso implicou a perda do apoio logístico e financeiro da prefeitura, questão que seria superada através dos malabarismos do Dr. Maílson para conseguir o dinheiro que custearia a campanha.
Muito comedido quando se tratava de falar de alguém, sendo essa uma das suas muitas facetas, Dilmar não difamava os “adversários” para passar aos eleitores a imagem de que era diferente dos outros. Por outro lado, os seus asseclas encarregavam-se de divulgar para a população quem era realmente Paulo Duarte: segundo eles, um mentiroso que nunca cumpria com nada que prometia. Mauro Costa, por exemplo, foi um desses competentes divulgadores, dizendo-se altamente decepcionado com Paulão, a quem Dilmar havia feito das tripas coração para eleger deputado. Teve quem o visse sentado no fio de pedra do calçamento próximo ao BNB, com os olhos marejados e fitos no céu, dizendo: “Tenho fé em Deus que, se minha mão tiver vergonha, nunca mais há de votar em Paulão”.

A terceira candidatura surgiu com Pedro Julião, que estava ressentido com a determinação de Gladstone em não abrir mão de sua postulação e por ter feito um conchavo com Paulo Duarte. Aproveitando-se da insatisfação no seio da família, Julião conseguiu incluir em sua chapa, como candidato a vice, o próprio Nauto Bandeira, o que desencadeou uma disputa acirrada entre os parentes. Sabendo ser quase impossível eleger-se, o objetivo principal de Pedro Julião era aumentar seu patrimônio político para negociá-lo em pleitos vindouros, como habitualmente fazia. Nesse aspecto, os partidários do "Careca" acertaram ao considerá-lo um “candidato laranja” — isto é, aquele que, sem chances de vitória, lança seu nome apenas para ocupar espaço e obter votos suficientes para barganhas futuras.
Sobre esse cenário, Gomide Lima Oeriô, o poeta “Amigo de Limoeiro”, escreveu uma estrofe que marcaria a história do município ao retratar um político que nunca vencia, mas jamais desistia de estar na disputa para manter seu eleitorado:
Um outro só faz perder,
Mas não arreda do eito.
Candidato ele vai ser
A deputado ou prefeito.
Seja por bem ou por mal
Vai mantendo o capital
Pra investir noutro pleito.
Outra candidatura nascida da insatisfação — desta vez por não obter o apoio da prefeitura — foi a do então vice-prefeito, Dr. Reuber. Ele recebeu o respaldo do PT, confirmando sua constante disposição para firmar acordos e alianças a cada eleição.
Em meio aos quatro nomes lançados como candidatos a prefeito, eis que surge o quinto: Lauro Rebouças Filho, o “Laurinho”, que se colocou como uma opção diferente de todas as outras apresentadas naquele momento. Criticando o papel dos demais candidatos, que em vez de se unirem em torno de um projeto novo seguiram cada um seu caminho, ele argumentava que nenhum estava realmente pensando no município e no povo, mas sim em defender interesses pessoais. Alegando essa falta de respeito para com o eleitor, Laurinho lançou sua candidatura propondo dar ao limoeirense o direito de escolher algo novo. Ele pedia a mesma oportunidade que todos os outros já tinham tido, sem quase nada fazer, enquanto continuavam com a briga infernal pelo poder. Todavia, lembremos que Laurinho, embora com um perfil mais sério, não deixava de fazer parte do mesmo sistema político, tendo sido um dos grandes responsáveis pela eleição do Careca em 1982.
Uma sexta candidatura apareceu, mesmo sem nenhuma expressão política ou qualquer chance de vitória: tratava-se do agrônomo Arnaldo Araújo. Como tudo parecia desorganizado, qualquer um poderia se candidatar, ainda que isso não passasse de um deboche perante o povo.
Terminada a eleição, o Careca foi eleito, convencendo-se mais uma vez de que, sem o apoio da máquina administrativa, seria praticamente impossível chegar à prefeitura.
  • José de Oliveira Bandeira (eleito) - 7.621 votos - 29,94%
  • João Dilmar da Silva - 6.431 votos - 25,27%
  • Pedro Julião Bandeira Regis - 4.832 votos - 18,99%
  • Lauro Rebouças Filho - 3.267 votos - 12,84%
  • Reuber Tadeu Vieira e Silva - 3.088 votos - 12,13%
  • José Arnaldo Araújo - 212 votos - 0,86% 
    (https://apps.tre-ce.jus.br/tre/eleicoes/resultados/Resultado_das_Eleicoes_1996.pdf_
A Câmara de Vereadores ficou composta pelos seguintes representantes:
  1. Antônio Cicero Viana de Lima Junior
  2. Antônio Conrado Maia
  3. Benedito Mendes Cabral
  4. Elias Correia Lima
  5. Flavio Araújo de Almeida
  6. Francisco Gilmar de Castro
  7. João Neudes Saraiva Chaves
  8. José Carneiro da Silva
  9. José Cirineu Maia
  10. José Gilton Nunes Alves
  11. José Gilvan de Moura
  12. José Gladis de Lima Bandeira
  13. José Maria de Andrade
  14. José Valdir da Silva
  15. Lucia Baltazar Costa
  16. Raimundo Nonato
  17. Raimundo Nonato da Costa
  18. Raimundo Valdi Chaves
  19. Rute Gomes de Meneses Maia
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Com o quadro desenhado na campanha de 1996, assistiu-se a uma dança grotesca dos políticos limoeirenses em busca de um lugar ao sol. Nem é preciso observar atentamente para descobrir que quase todos representavam um mesmo grupo político, embora estivessem em palanques distintos, intencionalmente montados a fim de mostrar quem tinha mais força naquele momento. Aquele que fosse eleito alcançaria superioridade sobre os outros, garantindo melhores condições para abocanhar a maior fatia do poder.
Foi de estarrecer os eleitores a forma como eles se dividiram. Senão vejamos os nomes dos candidatos: Dilmar, que foi vice-prefeito de Careca e se tornou prefeito em 1988 com o seu apoio; Julião, que foi vice-prefeito de Dilmar, indicado por Careca; Dr. Reuber, que era o vice de Ademar; e o próprio Careca, que recebeu o apoio de Paulo Duarte — que, por sua vez, já havia sido aliado de Dilmar.
Os políticos fizeram isso porque sabiam — e sabem — que o povo não participa dos fatos políticos como deveria, ficando praticamente alheio ao processo. Pouco importa para as massas quem seja o eleito. Políticos assim não se preocupam em ser classificados como “farinha do mesmo saco”; para eles, é preferível que assim sejam chamados a agir com honestidade para com o povo.
Aquele que, em 1982, chegou ao poder através de conchavos e acordos com Manuel de Castro, repetiu a dose em 1996, quando teve que costurar novos arranjos, desta vez com Paulo Duarte. Trata-se da conclusão lógica de que a sua popularidade nunca passou de uma ilusão. Para comprovar essa obviedade, basta notar que, quando tentou por duas vezes se eleger sem utilizar a máquina administrativa — ou seja, o dinheiro do povo —, não obteve êxito, o que evidencia que nunca teve votos suficientes para chegar à prefeitura. Já nas duas ocasiões em que se elegeu prefeito, juntou-se aos próprios “inimigos” e, com eles, engendrou os acordos necessários à revelia da população. Se olharmos por esse ângulo (no meu entender, o mais verdadeiro), constatamos que a ânsia obstinada do Careca em ser prefeito nada teve a ver com os anseios e as necessidades do povo; os acordos, tendo o dinheiro público como patrocinador maior, foram sua única forma de chegar ao poder.
Ora, já que ele se considerava um grande líder — aliás, o maior de todos, como ele mesmo se autodenominava —, por que necessitou usar meios tão indignos a um homem público para se eleger? Concluímos que, se realmente possuísse a liderança primorosamente alardeada, teria sido eleito sem precisar descer a tais níveis, como ocorreu nas duas vezes em que chegou à prefeitura.
A propósito, o Careca celebrizou uma frase que marcou a sua conduta política para justificar as duas eleições que o fizeram prefeito. Dizia aos amigos que “eleição se ganha através de conchavos e dinheiro e nada mais”, confirmando assim que ele foi o mais hábil de todos na arte de costurar acordos para chegar à prefeitura.
Dos candidatos que disputaram o pleito em 1996, Laurinho e Arnaldo eram um pouco diferentes dos demais. Do primeiro, não se pode omitir a origem política: sendo irmão de José Hamilton de Oliveira, não há dúvidas de que foi partidário de Manuel de Castro. Ele ainda foi um dos homens fortes na campanha de 1982, que elegeu o Careca, período em que sua esposa, a professora Rita de Cássia Freitas Peixoto, foi eleita vereadora com expressiva votação.
Já Arnaldo era o único que não tinha origem política no mesmo grupo surgido a partir de 1982 — grupo que implodiu naquele ano de 1996, mas que já estivera unido no mesmo palanque em uma troca mútua de elogios. O mais interessante é que aquela não era a primeira vez que brigavam e, em algumas ocasiões, também em palanques diferentes, em vez de elogios trocaram palavrões.
Extremamente desconfiados entre si, exageradamente nepotistas e assistencialistas, além de afeitos às rotineiras fofocas e intrigas políticas e pessoais, as “célebres lideranças limoeirenses” sempre agiram conforme as conveniências. Em momento algum demonstraram qualquer tipo de escrúpulo em estarem brigados em uma eleição e unidos em outra, pois o que contava eram os interesses individuais de cada um e a possibilidade de preservá-los.
O revezamento constante que promoviam era uma forma de sobrevivência política. Como bem afirmou em conversas informais com o autor o ilustre limoeirense Padre Francisco de Assis Pitombeira, referindo-se às frequentes trocas de posições a cada eleição: “eles se dividem para se unirem”.
Preocupado com esse vai e vem de todos eles — ora brigando, ora se abraçando —, mais uma vez o poeta Gomide Lima Oeriô, o “Amigo de Limoeiro”, escreveu a seguinte estrofe:
E agora em desafio
Vou lhe fazer uma pergunta:
Por que é que o mesmo trio
Ora briga, ora se junta?
É por amor à cidade?
Ou é só por vaidade?
Ou é mesmo fome muita?
O rodízio dos políticos integrantes do grupo que se iniciou em 1982, com a primeira eleição de Gladstone, e suas danças para alcançarem o poder tornaram-se fatos corriqueiros nas campanhas eleitorais. Esse cenário provocou sucessivas e desastrosas administrações montadas em cima de demagogia e de corrupção, através de uma política populista barata e mal engendrada, com interesses voltados para fins meramente pessoais e eleitoreiros.
O mais intrigante — e o que mais demonstrava a ausência de ideologia, a incoerência política e a ambição pessoal de cada um — era a facilidade com que se aviltavam e se digladiavam, aliada à mesma facilidade com que esqueciam as agressões e se juntavam novamente, como se nada tivesse acontecido. Em todas as vezes que estiveram no poder, manipularam as opiniões e violaram o voto da maioria dos cidadãos como se fosse uma ação relativamente simples. Isso garantiu a cada um deles a possibilidade de se apresentar como uma opção que apontava o melhor caminho para o município.
As atitudes encenadas pelos chamados pseudopolíticos, naquele momento, buscavam justificativa na famosa máxima mineira atribuída a Magalhães Pinto: "Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou". Isso significava que, em uma eleição, o que foi dito ontem perde o valor hoje, assim como os acordos do presente nada valem para o amanhã. O mais interessante é que essas ações, se não fossem tão prejudiciais, chegariam a ser folclóricas, como se fizessem parte natural da vida do povo e da política. Na verdade, contudo, isso traduz apenas uma profunda falta de coerência e de respeito para com o eleitor.
Um resultado digno de nota naquela eleição de 1996 foi a votação obtida por Laurinho. Com uma estrutura financeira muito aquém dos concorrentes e sem nenhuma figura de expressão apoiando sua candidatura, ele conquistou 12,84% do total de votos em um universo de seis candidatos — pleito no qual Careca foi eleito com 29,94%.
Podemos considerar, então, que os votos obtidos por Laurinho representaram uma parcela da população altamente consciente da necessidade de mudança. Se esse grupo não se manifestou antes, foi justamente por falta de opção. Para ter essa certeza, basta analisar os candidatos de todas as eleições passadas — mesmo antes de 1982: todos, sem exceção, sempre pertenceram ao mesmo grupo político, alternando-se entre rivalidades em um pleito e alianças no outro. A vitória de Careca deixou uma grande lição para Dilmar: ele não teve votos suficientes para consolidar uma maioria expressiva. Sua representação entre os eleitores não chegou a 30%, demonstrando que seu tão alardeado carisma não era tão forte quanto se imaginava.

sexta-feira, 25 de abril de 2025

Capítulo XXII - A ADMINISTRAÇÃO DE ADEMAR

(...)Cada povo tem o governo que merece?
Ou cada povo tem os ladrões a que enriquece?
Cada povo tem os ricos que o enobrecem?
Ou cada povo tem os pulhas que o empobrecem?
O fato é que cada vez mais se entristece esse povo
num rosário de contas e promessas
num sobe e desce de prantos e preces. (...)
(Affonso Romano de Sant'Anna –
“Sobre a atual vergonha de ser brasileiro”
Texto extraído do jornal "O Globo" -Rio de Janeiro.)

OS ACORDOS ESTABELECIDOS durante a campanha fizeram com que Ademar Celedônio ass umisse a prefeitura cheio de compromissos para com aqueles que o tornaram prefeito, iniciando, assim, o seu governo com enormes dificuldades.
Em pouco tempo de mandato, demonstrou ser realmente um homem indeciso e inteiramente manobrável.
Sentindo o gosto do poder, cercado de aproveitadores e embalado pela bajulação, muito cedo caiu na esparrela engenhosamente armada para ele.
Estando algemado de pés e mãos pelos compromissos assumidos e sujeito às cobranças para cumpri-los, desiludiu-se do cargo em pouco tempo de mandato, deixando que o barco da administração seguisse um rumo desastroso e à deriva.
Fraco nas decisões, começou por deixar que as nomeações para o seu secretariado fossem por indicação do grupo político que o elegeu, e não dele próprio.
Para ilustrar a sua indecisão e fraqueza na tomada de posições, logo no início do mandato se deixou levar por uma ideia de que era preciso enxugar a folha de pagamento dos servidores municipais e, para isso, se fazia necessário demitir muitos desses servidores, principalmente aqueles que, no entender dos “assessores”, estavam irregulares.
A lista dos demitidos foi amplamente divulgada nas emissoras (foto ao lado) a fim de dar um contorno de moralidade à administração. Por propósito ou não, a dita lista atingia principalmente servidores que haviam votado nos candidatos “adversários”. Ao que tudo indica, não passou de uma trama engenhosa de sua assessoria jurídica, que sabia que essa medida acarretaria em uma avalanche de ações judiciais, o que provocaria, tempos depois, uma quantidade imensa de precatórios a pagar, beneficiando alguns advogados mal-intencionados que já se preparavam para defender as causas.
Como uma fuga para os inúmeros problemas que tinha que resolver, voltou ao alcoolismo e, desta vez, de uma forma bem mais grave, pois se tratava do prefeito do município.
Diante disso, e sabendo que o prefeito não resistia ao vício da bebida, os seus algozes, costumeiramente, o presenteavam com um ou mais litros de uísque caro, numa demonstração de que era do interesse deles que o chefe do executivo estivesse sempre sob o efeito da bebida e, por conseguinte, os deixasse à vontade para que eles próprios se apoderassem do dinheiro público, sem nenhuma responsabilidade.
Os volumosos boatos sobre a malversação dos recursos da Prefeitura, bem como sobre a conduta do perdulário chefe do executivo, eram fatos corriqueiros em todo o município. Via-se claramente que o prefeito perdera o senso de responsabilidade, chegando inclusive a passar os talões de cheques da Prefeitura para as mãos de pessoas reconhecidamente aproveitadoras desse tipo de situação. Corria ainda a notícia de que um pequeno grupo era quem determinava os gastos. Enquanto isso, como forma de consolo, era permitido a Ademar usar apenas um dos talões, o qual usava de forma irresponsável, emitindo cheques para cobrir despesas pessoais a torto e a direito, sendo habitual encontrá-lo embriagado e acompanhado de mulheres.
O esquema montado na utilização dos cheques cuidava justamente para que aquele que era usado irresponsavelmente pelo prefeito nunca tivesse provisão de fundos na conta-corrente, o que fez a prefeitura encabeçar uma enorme lista de cheques sem fundos.
Um desses conhecidíssimos aproveitadores do dinheiro alheio esnobava os talões de cheques publicamente, zombando da fraqueza do gestor municipal. Muitas vezes, foi visto sacudindo-os sobre o balcão de um dos bares da cidade, dizendo ser o “responsável” pelo dinheiro da prefeitura. Também por diversas vezes, esse mesmo elemento — aliás, muito conhecido pela falta de escrúpulos em tramas e negociatas, e um debochado aproveitador — foi visto indo ao encontro do prefeito. Valendo-se da situação de que este se encontrava sempre embriagado, ele o induzia a assinar todo o talão de cheques em branco.
Ao que parecia, a situação estava agradando a alguns algozes e, mesmo com uma administração altamente desastrosa, Ademar contava com a defesa inconteste — com unhas e dentes — do deputado Paulo Duarte, o mentor principal de sua candidatura.
Obedecendo ao seu estilo convincente e enganoso, Paulão dizia em entrevistas que o prefeito não estava fazendo tanta coisa errada e atribuía os comentários “maldosos” aos “adversários”, tratando-os como perseguição e até como uma espécie de dor de cotovelo por não terem se conformado com a derrota nas últimas eleições.
Insistia em dizer que a administração, se não estava cem por cento no rumo certo, não deixava a desejar com relação às que se passaram – nesse ponto, não estava totalmente enganando o povo. Mas, quando era procurado reservadamente por algumas pessoas cobrando-lhe posições sobre os desmandos do prefeito, soltava respostas evasivas, tipo: “eu não tenho mais o que fazer...”, enquanto, por trás, colaborava para que o desleixo continuasse, para o seu próprio bem.
Com a chegada das eleições para deputado em 1994, percebia-se claramente a influência de Paulo Duarte dentro da administração municipal, opinando sobre os gastos públicos através de servidores ligados ao seu grupo político.
Corria à boca miúda que o dinheiro da prefeitura estava sendo usado para custear os gastos de sua campanha nas cidades de Tabuleiro do Norte e São João do Jaguaribe, havendo boatos ainda de que a confecção do material (camisas, bottons, bonés, bandeiras e estandartes) estava sendo autorizada por Ademar.
Muito embora se soubesse da grande influência de Paulo Duarte, por outro lado o grupo de Dilmar também estava inserido de tal forma dentro do governo municipal que o próprio Maílson Cruz assumiu, por mais de um ano, o cargo de Secretário de Administração, o que demonstrava que ambos os grupos tinham participação nos acontecimentos. Para eles, pouco importava que a administração se tornasse cada vez mais desmantelada, já que isso os favorecia e nenhum deles seria responsabilizado pelos desmandos.
Em meio ao fracasso administrativo que estava acontecendo em Limoeiro, Carlinhos Celedônio, irmão de Ademar, certa vez quis saber do mano o motivo pelo qual ele se tornou um prefeito inoperante, irresponsável e sem cumprir com os compromissos de campanha para com o povo. Em resposta, recebeu de Ademar a afirmação de que todos os compromissos por ele assumidos estavam sendo cumpridos, principalmente “patrocinar as campanhas de Paulo Duarte para deputado e a do seu sucessor na prefeitura”, alegando que essas foram as principais exigências para efeito de sua candidatura e, como se elegeu, tinha o dever de cumprir com sua palavra e estava cumprindo.
Foi em meio a todo o desastre administrativo que alguns vereadores — o que restava de oposição — resolveram instalar uma CPI para investigar os desmandos da gestão e, por conseguinte, terminar na cassação do mandato do prefeito. Obviamente, essa ideia desagradou sobremaneira aos grupos de Paulão e Dilmar, os quais eram os mais beneficiados pelo caos da administração de Ademar. Entretanto, eles não impediram que, em uma das sessões, fosse levantada a questão e colocado em votação o requerimento para instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito.
Sendo o vereador Mauro Costa presidente do Legislativo — um pau-mandado, obediente a tudo que favorecesse aos interesses dos grupos inseridos na prefeitura —, coube-lhe a incumbência de barrar a pretensão de cassar o mandato do prefeito. Para isso, teria de criar uma situação em que se configurasse um tumulto na sessão e, assim, alegar um motivo que justificasse a suspensão da reunião. De forma proposital — e habilidosa —, aproveitou a ocasião em que discursava o vereador Raimundo Costa, chamando-lhe a atenção para o fato de que seu tempo regimental havia terminado, quando, na verdade, ainda faltavam mais ou menos cinco minutos.
Diante da recusa do vereador em finalizar sua fala — e com razão —, quando ainda lhe restavam alguns minutos, iniciou-se a confusão. O presidente, numa conduta totalmente arbitrária e inesperada, levantou-se e anunciou, arrogantemente e de forma irreversível, a suspensão da sessão, alegando que o vereador estava tumultuando os trabalhos.
Pior ainda: tomou nas mãos o Livro de Atas, colocou-o debaixo do braço e saiu apressadamente do recinto, tomando rumo ignorado. Momentos depois, correu o boato de que ele se encontrava nas dependências do BNB Clube, exibindo irresponsavelmente o Livro de Atas, rindo e debochando dos colegas, vangloriando-se de que havia frustrado a intenção de instalar a CPI para cassação do mandato do prefeito.
Vale ressaltar que a cassação do prefeito não interessava também ao seu vice, que, procurado pelos vereadores interessados na instalação da CPI, citou de forma lacônica a seguinte frase: "Eu não sou vice-prefeito de Ademar", deixando claro que não lhe interessava assumir o cargo caso o prefeito fosse cassado. Entretanto, era ele, sim, o primeiro da linha sucessória e, caso não fosse do seu interesse, nada mais óbvio do que o simples ato de renunciar ao cargo, caso a cassação tivesse se concretizado.

A turbulência política pela qual Limoeiro passava naquele momento contava ainda com a atuação polêmica do radialista Nicanor Linhares. Embora sem nenhum cargo público, ele era um integrante daquele emaranhado de interesses. Ninguém sabia ao certo de quem ele era amigo ou inimigo, e isso dependia muito dos fatos. Era comum ter, vez ou outra, que enfrentar a fúria de algum político ferido por suas críticas através de seu programa.
O caso mais evidente disso foi o episódio de sua prisão em virtude de uma briga—entre as muitas—dele com Paulo Duarte. O deputado, por muitas e muitas vezes, o elogiou publicamente em entrevistas no programa do próprio Nicanor, classificando-o como um grande radialista e atribuindo-lhe inúmeras qualidades. Mas naquele período, havia entre eles uma enorme desavença, o que era habitual não somente com Paulo Duarte, mas com muitos políticos. As insatisfações aconteciam sempre que o radialista resolvia criticá-los em vez de elogiá-los.
Na desavença com Paulo Duarte, o fato interessante foi que este, usando de sua influência no governo do Estado, sobretudo na Secretaria de Segurança Pública, conseguiu que fosse nomeado delegado de Polícia para Limoeiro o conhecidíssimo Dr. Maranguape, tão somente com a incumbência de prender Nicanor, para assim desmoralizá-lo perante seus ouvintes. Isso realmente aconteceu por conta de uma reportagem feita, a qual não pôde ser comprovada através da gravação do programa.
Evidentemente, Nicanor passou menos de vinte e quatro horas atrás das grades. Todavia, o objetivo de Maranguape foi alcançado, e Paulo Duarte conseguiu também o que queria.

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Há quem afirme que “cada povo tem o governo que merece”.(1) No caso de Limoeiro, a máxima vai além do resultado de uma eleição: trata-se de um sintoma estrutural muito mais profundo.
A gestão de Ademar colheu os frutos venenosos que o eleitorado limoeirense vinha cultivando desde 1982. O ponto de virada ocorreu com o erro histórico de eleger Careca para prefeito. A ele pode-se atribuir, sem hesitação, a ascensão das lideranças demagógicas que o sucederam, além da consolidação da velha premissa econômica de "fazer o bolo crescer para depois repartir".
Seria simplista culpar a população pelo colapso da administração de Ademar. Fazer isso significaria transferir a responsabilidade do governante eleito para quem o elegeu. Na realidade, o pleito que consagrou Ademar apenas agravou uma tendência anterior, funcionando como o estopim de uma conjuntura política desgastada desde a década de 1980.
A retórica de campanha expôs o oportunismo das elites locais. A Oração de São Francisco de Assis, amplamente distorcida nos palanques, provou a demagogia dos candidatos da época. Da mesma forma, o célebre slogan “arroche o nó” funcionou às avessas: o aperto não veio como promessa de firmeza administrativa, mas sim como um fardo financeiro e social para a população, que pagou um preço alto pela escolha que fez nas urnas.
O cenário mais alarmante foi a maneira como Paulo Duarte e Dilmar se valeram da conduta irresponsável de Ademar para assumir o controle da prefeitura. Diante desse histórico, Limoeiro do Norte caminha na contramão do slogan de "município do futuro" propagado por governantes e lideranças políticas. Na realidade, o que se observa a cada pleito é o desgaste progressivo da esperança e do engajamento do eleitorado.
Essa realidade poderia ser transformada caso a população — historicamente mais focada em exigir direitos do que em cumprir deveres — compreendesse a reciprocidade entre essas duas esferas. Ainda assim, Mesmo assim, não dá para culpar apenas o povo por votar mal. O ideal seria ter consciência política: votar sem aceitar favores ou promessas falsas, e cobrar com firmeza os resultados dos políticos eleitos.
Contudo, mobilizações populares capazes de barrar intenções ilícitas ou destituir governantes são raras. Pelo contrário, as pessoas se acomodam com a situação e permanecem subjugadas. O fenômeno remete à tese de Étienne de La Boétie em Discurso da Servidão Voluntária:
“Coisa realmente surpreendente [...] é ver milhões e milhões de homens miseravelmente subjugados e, de cabeça baixa, submissos a um jugo deplorável: não que a ele sejam obrigados por força maior, mas porque são fascinados e, por assim dizer, enfeitiçados...”
A inércia coletiva diante do poder político local também evoca a célebre e dura declaração do ex-presidente João Figueiredo sobre a subserviência popular: “Todo povo é uma besta que se deixa levar pelo cabresto”.

[1] Frase atribuída ao alemão Joseph de Maistre

quinta-feira, 24 de abril de 2025

Capítulo XXI - A ELEIÇÃO DE 1992

"A diferença entre uma democracia e uma ditadura
consiste em que numa democracia se pode votar
antes de obedecer as ordens”.
Charles Bukowski – escritor alemão

AO CHEGARMOS EM 1992, com mais uma eleição, outra vez vamos nos deparar com os conhecidíssimos personagens da política preparando novamente as suas candidaturas.
Vamos retomar um pouco do que já falamos para lembrar que, quando Gladstone Bandeira entregou a prefeitura para Dilmar, tinha a convicção de que ficaria, de certa forma, com o controle político-administrativo do município, envaidecido pela enorme aceitação popular que sua administração recebera.
Durante o seu mandato, e como a querer dizer para todos: “eu só tenho de besta a careca”, confeccionou um “bolo” digno de qualquer confeiteiro, com a certeza de que iria desfrutá-lo ou degustá-lo sozinho, sem ter que dividi-lo com ninguém. Convicto de que não existia pessoa mais esperta do que ele, imaginou que os que viessem depois dele somente participariam da cobertura da sua “obra culinária” e se conformariam com o cheiro e nada mais.
Como já foi explicada a razão de o Careca ter se empenhado tanto para eleger Dilmar como seu sucessor, ele nunca imaginou que estivesse, naquele momento, alimentando uma cobra para, depois, ser picado por ela. Não desconfiou de que Dilmar, ao aceitar todas as condições que lhe foram impostas quando ainda candidato, estivesse apenas assegurando o apoio da máquina da prefeitura na eleição que o fez prefeito.
O que o Careca não esperava era que, ao ser eleito, Dilmar mostrasse sua esperteza, tomasse o bolo nas mãos — sem se importar com o desvelo com o qual foi confeccionado nem com o que foi combinado entre eles — e o dividisse ao meio para abocanhar a parte mais saborosa.
A atitude de Dilmar, ao esperar pelo momento certo para dividir o bolo, mostrou o quanto foi frio e paciente quando suportou todas as imposições de Gladstone, tanto durante a administração da qual era vice-prefeito quanto no decorrer da campanha, revelando-se extremamente sagaz e inteligente na espera para dar o bote e revidar com um troco à altura daquele que o tratara com incapacidade durante todo o tempo.
Para desagrado do Careca, no início de 1992, o cenário mostrava-se fantasioso e até certo ponto engraçado, servindo de palco para a macabra e engenhosa dança em busca do poder. O painel começou a se desenhar de maneira a tornar definidas algumas posições.
O Careca, pretendendo voltar à prefeitura, tinha pelo caminho dois problemas a serem resolvidos: o primeiro era a insatisfação de Pedro Julião, que, pretendendo também se candidatar, esperava contar com o apoio do primo e ex-prefeito; o segundo eram suas contas, que tiveram parecer desfavorável do Tribunal de Contas dos Municípios, acusando-o de improbidade administrativa. Caso o parecer do TCM fosse aceito pela maioria dos vereadores, o Careca não poderia sair como candidato.
Enquanto isso, o prefeito João Dilmar colocava o nome do seu secretário de obras, Paulo Barros, para sucedê-lo. Entretanto, outros componentes do grupo, achando-se com condições de concorrer, também colocavam seus nomes como candidatos, criando uma espécie de disputa interna. Dentre os que se colocavam com a intenção de candidatar-se estava o Dr. Reuber Tadeu Vieira e Silva.
No dia exato da convenção em que seria homologado o nome de Paulo Barros, chegou Paulo Duarte, visivelmente embriagado, acompanhado de Ademar Celedônio, dizendo que este seria o candidato do grupo. Estranhamente, todos aceitaram sem contestações a imposição de Paulão, sem ao menos questionar o que levou o deputado a agir de forma inesperada, surpreendente e, acima de tudo, arrogante, fazendo prevalecer a sua vontade e suprimindo qualquer tipo de discussão. Como ninguém se levantou contra aquela atitude, nem mesmo o próprio prefeito, Paulão simplesmente fez com que todos engolissem, de goela abaixo, a candidatura de Ademar, afastando a possibilidade de Dilmar poder indicar o nome de Paulo Barros, bem como a intenção do Dr. Reuber em sair candidato com apoio do grupo.
Ficou, então, consolidado o nome de Ademar Celedônio para candidato a prefeito, tão somente por imposição de Paulo Duarte, que, em outra guinada maquiavélica, conseguiu abrandar o desejo do Doutor Reuber, convencendo-o a ser candidato a vice e acalmando, assim, a principal resistência.
Uma vez escolhido o candidato — com a estranha anuência de Dilmar —, Paulo Duarte temia ainda a candidatura de Gladstone, considerando-a imbatível. Pensando numa forma de enfraquecê-la e atrapalhar uma possível aliança entre ele e Julião, imaginou sutilmente uma maneira de contribuir para o rompimento entre os dois.
Sabendo que Pedro Julião não aceitava nenhum tipo de acordo que não fosse de apoio à sua candidatura e que Gladstone também não arredava pé da ideia de se candidatar, Paulão resolveu montar um esquema para que houvesse o racha entre os dois. Foi nesse ínterim que se aproveitou do relatório do TCM e, usando de uma estratégia meramente politiqueira, conseguiu que a bancada de Dilmar na Câmara de Vereadores se juntasse à dele para votar contra o parecer do órgão. Ao discordarem de que o Careca praticara improbidade administrativa durante seu mandato, possibilitariam a sua candidatura a prefeito; com isso, dar-se-ia a cisão entre os dois, o que facilitaria, consequentemente, a eleição de Ademar pela divisão dos votos.
Como já foi dito anteriormente que o parlamento limoeirense teve uma atuação inteiramente fisiológica durante a gestão de Dilmar, este não encontrou dificuldades em direcionar os vereadores de sua bancada para absolverem o Careca das acusações do TCM.
Uma vez inocentado, Careca não hesitou em selar a sua candidatura e convidou para companheiro de chapa o vereador Sebastião Maia de Andrade — outro analfabeto —, formando, por assim dizer, uma dupla de cascas-grossas. Estava, então, consolidado o racha entre Careca e Pedro Julião. Este, depois de ver frustrada a pretensão de sair candidato com o apoio do ex-prefeito, mas confiante de que seria bem votado (principalmente vinculando o seu nome aos mais de 11 mil votos recebidos em 1990 na campanha para deputado), achou-se também com direito a um pedaço do bolo e lançou sua candidatura, levando como vice o médico Lindenor Andrade Maia.

O PT desta vez aliou-se à Julião, novamente fazendo coligação, com a alegação que precisava eleger pelo menos um vereador.

Com a campanha nas ruas, os três candidatos, Ademar, Careca e Julião, disputavam os votos contra a desconfiança do eleitor, cismado com as negociações feitas e também por não aparecer nenhum fato novo. A grande vantagem de Ademar era a sua forma de fazer política puramente clientelista.(*) Com três mandatos de vereador (período de 1982 a 1992), ele transformou a sua residência em Fortaleza em um ponto de apoio para muitas pessoas que iam à capital resolver problemas, mais notadamente os de saúde, como consultas, exames e outros procedimentos. Tudo isso era previamente agendado por pessoas que trabalhavam para ele, com a finalidade de atender a todos, independentemente de lado político.

(*) O clientelismo político é uma prática baseada na troca de favores, especialmente serviços públicos, por apoio eleitoral e votos, criando uma relação de dependência entre o político que o pratica e o eleitor. Funciona como um "toma lá, dá cá" e se revela como uma das maneiras mais abjetas de se fazer política, pois, em suma, é uma forma de manipulação onde o direito se transforma em favor pessoal e, sempre, custeado com o dinheiro público.

Os palanques se transformaram em verdadeiras arenas na troca de farpas e acusações. Os candidatos e seus partidários se engalfinhavam com disparos mútuos de agressões verbais, acusando-se entre si, em vez de apresentarem propostas de trabalho e seriedade.
O que mais deixava o povo boquiaberto era a clareza com que defendiam aquilo que somente lhes interessava, sem pensar em nenhum momento no povo e no município, numa demonstração de que cada um queria ter superioridade sobre os outros. Como se sabe, há poucos anos estavam todos no mesmo palanque, trocando deslavados elogios entre eles, em vez de agressões.
Nos vértices desse triângulo, os três candidatos procuravam tirar proveito, cada um deles fazendo-se de vítima perante os outros, principalmente Julião, que se sentia duplamente traído: uma vez por Dilmar e outra pelo Careca.
Já a turma de Dilmar, afora a enganosa mensagem de modernidade, proclamava ter sido necessário cortar os laços políticos com aqueles que se diziam vítimas, pois, naquele instante, Limoeiro precisava continuar no caminho do desenvolvimento.
Toda a classe política estava dividida entre os três candidatos, visto que as candidaturas eram resultado da implosão do grupão inicialmente liderado pelo Careca.
Vereadores e candidatos a vereador também se exaltavam em seus discursos. Alguns deles, comprometidos tanto de um lado quanto do outro, tentavam camuflar uma imagem de seriedade.
Alguns pronunciamentos eram estarrecedores. O vereador Elias Correia, por exemplo, gritava no microfone do palanque do Careca, com voz irritante e linguagem desengonçada, que havia sido traído por Dilmar e, por isso, não estava do seu lado naquela eleição. Alegava ter-lhe sido fiel durante todo o mandato, a ponto de votar em toda e qualquer matéria que o prefeito mandasse para a Câmara, dispensando totalmente a discussão, dizendo o seguinte: “se fosse matéria do prefeito Dilmar, eu não queria nem saber, era só assinar embaixo”. Com esses dizeres, o vereador Elias declarava publicamente que, para ele, o que importava era a amizade com o prefeito, em vez de cumprir suas verdadeiras obrigações parlamentares, preservando unicamente sua condição de aliado do chefe do Executivo.
O mais complacente de todos naquela campanha foi o prefeito Dilmar. Seguindo o seu estilo de não agredir ninguém, deixava essa tarefa para os seus seguidores, que a executavam perfeitamente sob a sua orientação.
A grande metralhadora verbal era o deputado Paulo Duarte**. Usando** o linguajar digno de um policial, não poupava nenhum dos outros dois palanques.
Ironicamente, e como uma verdadeira afronta à fé cristã, sempre no final de cada comício de Ademar, era tocada no som, para acompanhamento dos presentes, a Oração de São Francisco, momento em que o animador incentivava a plateia a se dar as mãos e, unida numa mesma fé, pedir aos céus que Ademar Celedônio fosse eleito para a redenção de Limoeiro do Norte.
Houve ainda em torno da candidatura de Ademar uma forte propaganda na divulgação de um slogan até certo ponto provocador, intitulado de “arroche o nó” massificado através da voz do radialista Djalma Freire. O slogan sugeria um aperto para os outros candidatos insinuando que o grupo que apoiava Ademar era o único com condições de apertar cada vez mais a situação dos adversários.
Terminada a eleição, Ademar (8.767 votos - 37%) foi eleito, frustrando Julião (7.476 votos - 32%) e Careca (6.861 votos - 29%), porém certos de que se tivessem caminhado juntos seriam imbatíveis, mesmo sem apoio da prefeitura.
Também se elegeram os seguintes vereadores:
  1. Antônio Mauro da Costa
  2. Antônio Conrado Maia
  3. Carlos Marcos de Sousa Nunes
  4. Elias Correia Lima
  5. Francisco Maurício Rodrigues
  6. José Arimatéia de Brito
  7. José Cirineu Maia
  8. José Gilvan de Moura
  9. José Marcos Castro Coelho
  10. José Ribeiro da Costa
  11. José Valdir da Silva
  12. Lúcia Baltazar Costa
  13. Maria Izalta Carlos Moura
  14. Maria Salomé Nunes de Andrade
  15. Raimundo Nauto de Oliveira
  16. Raimundo Nonato da Costa
  17. Raimundo Valdi Chaves
  18. Francisco Valdo Freitas de Lemos
  19. Vicente de Paula Nogueira
As hostilidades na família “Bandeira”, que ensejaram as candidaturas de Julão e Gladstone, possibilitaram a vitória de Ademar, como planejara Paulo Duarte.

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A premissa de que o poder emana do povo e é exercido em seu nome serve como base para a definição de democracia, mas a prática local contesta essa teoria. Em Limoeiro, embora a escolha dos representantes ocorra de forma democrática pelo voto, a aplicação do poder em nome da população é comprometida por um evidente jogo de interesses.
O forte apoio financeiro de patrocinadores à campanha de Ademar evidenciou os interesses em sua eleição. Há relatos de que pelo menos dois sacos de dinheiro em espécie, de tamanho considerável, teriam sido entregues na residência da mãe do candidato, localizada na Rua Professor Ricarte, para custear despesas eleitorais. Há suspeitas de que os recursos tenham sido desviados da própria prefeitura, o que transferiu o ônus financeiro da campanha para o contribuinte.
Além das questões financeiras, a campanha gerou controvérsia pelo uso da Oração de São Francisco em comícios. A estratégia foi criticada por instrumentalizar um dos textos mais tradicionais da cristandade diante de um eleitorado considerado desinformado.
A análise dos bastidores da campanha eleitoral de 1992 em Limoeiro do Norte revela a engrenagem estratégica de Paulo Duarte. A imposição do nome de Ademar Celedônio como candidato governista levanta uma questão central: o que motivou essa escolha?
Nos bastidores, o diagnóstico era claro. Celedônio possuía uma personalidade volúvel e um histórico de alcoolismo, mas compensava essas fragilidades com um forte apelo popular, consolidado por meio de uma prática política puramente clientelista. Na visão de Paulão, o aliado reunia as condições ideais: tinha votos, mas seria um administrador facilmente manobrável e influenciável.
A estratégia do articulador era ambiciosa. Paulão pretendia centralizar as decisões e implantar no município uma política ortodoxa e radical. Paradoxalmente, conseguia projetar para o eleitorado a imagem de um líder moderno, honesto e carismático.
A fatura pelo apoio político foi cobrada antes mesmo do pleito. Durante as negociações para consolidar a candidatura, Paulão impôs condições rígidas que deveriam ser cumpridas ao longo do mandato. O objetivo principal era usar a máquina administrativa municipal como trampolim político, garantindo apoio total para sua eleição a deputado estadual em 1994 e o controle da sucessão na prefeitura em 1996.
No campo oposto, o desfecho da eleição acabou selado pela desunião.  Pode-se afirmar, seguramente que, se Careca e Julião tivessem marchado juntos, seriam imbatíveis. No entanto, o isolamento e os interesses individuais de cada um fragmentaram a oposição, pavimentando o caminho para a vitória de Ademar.
O cenário de alianças fluidas e disputas acirradas foi sintetizado com precisão pela verve satírica de um poeta limoeirense de nome estranho. Gomide Lima Oeriô — pseudônimo sob o qual se apresentava o "Amigo de Limoeiro" — ironizou a dança das cadeiras da política local com estes versos:
"Nessa roleta de nome
Não dá mais para jogar.
Corre a bola, a bola some.
De Careca pra Dilmar,
E pra maior confusão
Veio um tal de Julião
E deu o gol pra Ademar."