segunda-feira, 16 de março de 2009

Capítulo XVII - 1ª GESTÃO DO CARECA - 1983/89 - UMA NOVA FASE NA POLÍCIA LIMOEIRENSE

AO ASSUMIR A PREFEITURA, o Careca sentiu-se inteiramente à vontade e cheio de vaidades, quem sabe pensando em substituir a liderança de Manuel Castro, certo de que este teria encerrado a sua vida pública com a última eleição.
Com a pretensão de despontar como uma nova liderança, deu o pontapé inicial para o surgimento de um novo ciclo político, açambarcando para si o papel de mentor principal, além de implantar uma forma de governo totalitário e altamente centralizador.
Em pouco tempo, transformou-se numa figura ambiguamente popular e tornou-se famoso, ao registrar a sua marca como governante, pelos murros que dava na mesa de seu gabinete quando necessitava lembrar que “era ele quem mandava”.
Grosseiro no falar e áspero no modo de tratar as pessoas, costumava colocá-las em um patamar inferior e, na maioria das vezes, com um tom fortíssimo de deboche, abusando de sua autoridade para conferir aos outros títulos como “doutorzinho, fulaninho, advogadozinho de merda”, etc. Por isso e por aquilo, passou a ser odiado por uns e reverenciado por outros, e foi com essas atitudes que não tardou a ser considerado aquele por quem Limoeiro finalmente descobrira o seu grande administrador. Aquele que se revelara em 1976 como um autêntico líder em defesa do povo e com a intenção de derrotar o império de Manuel de Castro, voltou para se transformar em um dos políticos mais insensíveis, conseguindo, ainda assim, ser visto como o maior representante popular do momento. Mal sabia ele que iria passar para a história como aquele que iniciou a confecção de um “bolo”, o qual teve que dividir com quem tanto subestimou durante o seu mandato.
Comandou a prefeitura com absoluta centralização de poder e não admitia, por hipótese alguma, que opinassem sobre o que ele devia ou não devia fazer, dispensando totalmente qualquer tipo de assessoria e, se existisse, era somente para dizer amém aos seus atos.
Se determinass
e ao Setor de Compras a aquisição de algum móvel ou imóvel – um carro, por exemplo – e o responsável por aquele setor, ao verificar na Contabilidade, não encontrasse cobertura orçamentária, comunicava-lhe a impossibilidade de fazer a compra. Nesse caso, ele respondia irritado para que “se virasse”, numa clara demonstração de arrogância e também de ignorância, já que não entendia mesmo "desse negócio de dotações orçamentárias".
Para se ter uma ideia de que ele era o dominador da rotina administrativa, a prefeitura dispunha apenas de um aparelho de telefone, fixado em sua própria mesa, sendo ele, inclusive, quem o atendia. Era uma forma de centralizar todos os assuntos e tomar conhecimento do que a pessoa queria ao ligar para a prefeitura e, dependendo da informação solicitada, respondia com extrema ignorância e estupidez.
Ninguém, ninguém mesmo, tinha o direito de fazer qualquer coisa ou autorizar quaisquer despesas, até as mais insignificantes e fora das funções de um prefeito – um maço de pregos, um carro de mão, um quilo de arame etc. –, que não fosse ele próprio quem as comprasse.
Semianalfabeto, porém muito esperto e arguto, e ainda favorecido pela reformulação na distribuição de recursos para os municípios através do FPM (Fundo de Participação dos Municípios) quando teve a cota aumentada consideravelmente, instalou na prefeitura uma verdadeira construtora, adquirindo caçambas e máquinas de terraplenagem, além de vários veículos.
Inteligentemente, camuflou a administração com uma aparência de modernidade, sobretudo na reforma das praças do centro da cidade e na priorização das estradas vicinais do município. Sabendo que isso lhe renderia muito politicamente, a estratégia foi suficiente para garantir-lhe fama de excelente administrador.
Pode-se considerar como sua grande obra a reconstrução (ou destruição?) do Mercado Público, que havia passado por uma reforma na gestão de Júlio Eduardo, no ano de 1918, e a última em 1948, pelo prefeito Estevão Remígio. Mandou retirar as velhas cruzetas de madeira, substituindo-as por estrutura metálica, modificando totalmente a parte interna, porém conservando as fachadas laterais.

A dita reforma não passou de um gesto insano e insensível para iniciar o aniquilamento de parte da história de Limoeiro do Norte, quando retirou todo o madeiramento de maçaranduba e o telhado composto de telhas portuguesas, feito na gestão de Estevão Remígio (1948–1951), e, em lugar deste, mandou erguer um grosseiro e mal-acabado galpão de telhas de amianto. Com isso, Gladstone Bandeira deu início ao extermínio do Mercado Público, para apagar da memória dos limoeirenses um dos dois primeiros prédios públicos de Limoeiro, construído na segunda metade do séc. XIX, durante a grande seca de 1877–1879, pelo primeiro intendente, o Cap. João Ennes da Silva. Na gestão de Arivan Lucena, o prédio sofreu a sua segunda mutilação, quando se retirou toda a sua calçada de grandes pedras. Mas a sua morte definitiva se deu na administração de José Maria Lucena, quando sua filha, Juliana Lucena, fazendo o papel de prefeita, mandou pôr abaixo o que restava da antiga e centenária construção.

Com ele, também se estabeleceu um império de empreguismo nunca visto em Limoeiro do Norte, e a prática do nepotismo ficou patenteada por meio de cargos assumidos por seus parentes e aderentes. Nomeou para o cargo de Secretária de Administração a filha Lúcia, conhecida pela antipatia e arrogância; e, para o Setor Financeiro, o filho Gladis, uma figura ligeiramente simpática e de baixíssima popularidade.
Também foi na sua administração que surgiram boatos de corrupção, superando todos aqueles de que se tinha notícia até então.
Para completar, a sorte o ajudou quando o Congresso Nacional teve a ideia de espichar os mandatos dos prefeitos dos municípios por mais dois anos, voltando, novamente, as eleições para prefeito e vereadores a serem separadas dos outros cargos.
As distorções dentro da administração levaram a Câmara de Vereadores a implantar uma oposição fiscalizadora dos atos do Executivo, que, embora fosse minoria, conseguiu levantar denúncias, levando ao conhecimento da população alguns atos de desmandos administrativos.
A vereadora Rita Peixoto, na qualidade de Presidenta da Câmara, encabeçou essa oposição, mesmo tendo sido sua forte aliada na campanha e, agora, praticamente sozinha, não tinha forças suficientes para combater o forte poder do Careca.
Para ter uma maioria esmagadora no colegiado da Câmara Municipal, corria a boca pequena que alguns vereadores recebiam propinas por parte do prefeito para permanecerem calados sobre as denúncias ou defendê-las, se fosse o caso, bem como para votarem a favor das matérias enviadas pelo Executivo. Desde então, a Câmara Municipal, praticamente por inteiro, passou a viver às voltas com um esquema de favores e contrafavores, facilitando a ação do Executivo sobre os edis; e o compadrio, o fisiologismo e o assistencialismo tornaram-se práticas corriqueiras no Poder Legislativo Municipal. Por sua vez, grande parte dos vereadores, estando corrompida, esquecia-se do compromisso para com o povo, e o vício da gorjeta tornou-se tão comum que alguns deles chegaram ao descaramento de colocar preço no voto, sujeitando o Executivo a dispor de numerário para aprovar as suas matérias. Um desses vereadores chegou inclusive a declarar, numa entrevista de rádio, que o seu voto no parlamento estava sempre à venda e o fazia como se fosse uma prática legal.

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E foi nesse clima negro que teve início um dos períodos mais conturbados da história política de Limoeiro do Norte. Começava, naquele ano de 1982, aquilo que podemos denominar de "CICLO DOS AMIGOS", pois, muito embora todos eles viessem de uma mesma origem — ou seja, fossem crias de Manuel de Castro Filho —, o encerramento da vida pública do "velho guerreiro" proporcionou uma nova fase na política limoeirense.
Vamos perceber, doravante, que os que compunham o "CICLO DOS AMIGOS" ultrapassaram todos os limites do respeito ao povo e não se abstiveram de costurar acordos espúrios e negociatas na calada da noite, muitas vezes vendendo o eleitorado como se fosse boiada, em troca de vantagens individuais ou de grupo.
Sem o menor escrúpulo, passaram a fazer promessas demagógicas e vamos ver que, a cada eleição, a cada campanha política, a situação tornava-se cada vez mais deprimente.
Nenhum deles se absteve de participar dos sucessivos conchavos e vergonhosas negociatas. É interessante notar que o discurso feito era para mudar o sistema, o que não acontecia, visto que ele era alimentado exatamente pelo jogo que praticavam. Isso sustentava a manutenção do poder — ora com um, ora com outro —, através da manipulação dos mecanismos eleitorais, garantindo assim os seus próprios interesses.
 
Virou rotina entre todos eles brigarem desesperadamente em uma eleição e se unirem desavergonhadamente em outra. Em função disso, a vontade do povo continuou sendo condicionada e manipulada por opiniões e atitudes que apenas a eles interessavam.
Os mecanismos democráticos foram vergonhosamente violados e corrompidos a cada eleição pelos formadores de opinião e condicionadores de candidaturas. Da mesma forma, continuaram usando apenas aquilo que lhes convinha, e os candidatos que se seguiram foram também comprometidos.
A gestão de Gladstone Bandeira foi marcada principalmente pela prática do empreguismo, do nepotismo, do autoritarismo e dos boatos de corrupção na administração municipal, além das suspeitas de pagamento de propina a alguns vereadores. No caso em foco, e se os boatos tiveram realmente algum fundamento, lamentavelmente temos que admitir que aqueles que se venderam e se curvaram ante o dinheiro recebido não fizeram mais do que alimentar uma política de interesses individuais — além de adotarem uma postura inteiramente aética, servil e mercenária, enquadrando-se no sábio pensamento do Barão de Itararé, que diz: “O homem que se vende recebe sempre mais do que vale”.
A frase se encaixa, principalmente, em se tratando de quem detém um mandato através do voto popular. É inaceitável que aquele que se diz representante do povo descambe para o caminho da corrupção a fim de se locupletar às custas da boa-fé de uma gente tão carente de lideranças.
A verdade é que, com propina ou sem propina, alguns vereadores não tiveram a preocupação de transformar a Câmara Municipal numa espécie de secretaria do Executivo, com o agravamento de que as relações políticas colocaram em segundo plano o tão importante papel do Legislativo dentro da democracia.
Evidentemente que, se não fosse por um escasso número de vereadores que não aceitou se corromper, a Câmara teria sido inteiramente manobrada, com a utilidade apenas de ser subserviente ao Poder Executivo. Esses pouquíssimos heróis incorruptíveis, sempre presentes, salvam continuadamente os interesses do povo e o que a ele pertence, muitas vezes enfrentando uma maioria corrupta, desoladora e devastadora de consciências alheias.
A prática vergonhosa da propina nesses casos direciona sempre para outro absurdo: se intensifica a exploração das pessoas, sobretudo nos momentos de eleição. Ao seguir essa prática, os políticos, em vez de se vangloriarem como representantes do povo, deveriam sentir vergonha de si mesmos.


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ELEIÇÃO PARA GOVERNO DO ESTADO - 1986
Com a aproximação das eleições estaduais de 1986, o governador Gonzaga Mota, mesmo rompido com os coronéis, começou a ensaiar o seu apoio ao vice-governador Adauto Bezerra para sucedê-lo no governo do Estado. Entretanto, estranhamente anunciou depois que apoiaria não mais Adauto, e sim Mauro Benevides, do PMDB. Mais estranho ainda foi quando, em poucos dias, Mota deixou de lado o nome de Mauro Benevides e lançou a candidatura de Tasso Jereissati, um jovem empresário, filho do senador Carlos Jereissati e um estreante na política.
À época, um grupo da elite empresarial cearense, incluindo Tasso Jereissati, Beni Veras, Amarílio Macêdo, Byron Queiroz, Assis Machado e Sérgio Machado, ingressara no Centro Industrial do Ceará (CIC) no fim dos anos 70. O CIC passou a discutir política com o objetivo de preparar-se para assumir o poder estadual, até então dominado pelos coronéis.
O convite do governador Gonzaga Mota para que Tasso Jereissati fosse candidato ia de encontro ao consenso entre todos os que compunham o CIC de que não era o momento certo para concorrer a uma eleição, pois, segundo eles, ainda não estavam preparados. Não obstante, era comum o entendimento de que o Ceará precisava de um governo moderno, em que a sociedade, através de suas representações, pudesse participar ativamente, contribuindo para as decisões administrativas. Por esta razão, aceitaram o convite do governador e, através de Amarílio Macedo, organizaram o movimento Pró-Mudanças, que consistia na estruturação de um modelo administrativo para o Estado, caso Tasso ganhasse a eleição.
A campanha já se iniciou com um grande problema. O candidato Tasso Jereissati criticava contundentemente a política arcaica e cruenta dos coronéis, enquanto indiretamente tecia críticas à situação deplorável em que se encontravam os cearenses naquele momento, classificando o Estado como sendo de um povo miserável por culpa dos últimos governos. Ao se expressar dessa maneira, Tasso atingia inclusive o governo de Gonzaga Mota, ainda mais quando, em seus pronunciamentos, demonstrava-se revoltado, dizendo que pretendia acabar com aquela miséria e afirmando categoricamente: “O Estado nunca esteve a serviço do povo e é preciso mudar”.
Mota desgostou-se, principalmente depois das insinuações de que ele estava atrapalhando a campanha do candidato peemedebista, confirmando sua insatisfação numa declaração ao Jornal do Brasil, quando disse:
"Estão dizendo por aí que eu sou um fardo pesado. Então, se pensam assim, por que vou me oferecer? Caso não queiram a minha participação, ficarei afastado da campanha".
(Apud: www.noolhar.com/opovo/politica - Em 03.07.2003)

Por outro lado, a campanha dos Coronéis – novamente estavam todos unidos: Adauto Bezerra, César Cals e Virgílio Távora – era totalmente montada em cima da desorganização administrativa do governo de Gonzaga Mota, com denúncias de nepotismo e de irregularidades nas contratações.
O clima ficou mais tenso quando o candidato a vice-governador na chapa de Adauto Bezerra, Deputado Aquiles Peres Mota, fez acusações ao pai de Tasso, o Senador Carlos Jereissati,{*} de desonestidade no mundo dos negócios.

[*] Carlos Jereissati – eleito Deputado Federal em 1954 e 1958, Senador em 1962. Faleceu em 1963, aos 45 anos de idade de infarto.

O povo entendeu como uma covardia atacar um homem, ainda mais depois de morto, o que levou o PMDB a usar isso como estratégia em seus programas eleitorais. Foi exatamente a partir daí que o grupo dos coronéis começou a cair nas pesquisas, que até então davam vantagem de 37% para Adauto, contra 30,6% para Tasso (Dados da Fundação Cearense de Pesquisa e Cultura – Em 03/07/2003).
Os peemedebistas usaram as declarações de Aquiles Mota para divulgar imagens do Senador Jereissati juntamente com Tasso ainda bastante jovem, acompanhadas da música “Pai Herói”, criando cenas emocionantes e de comoção que muito contribuíram para a reversão dos votos. Em poucos dias, Tasso atingiu 36% contra 26% de Adauto. Com a divulgação desse resultado, as bases dos coronéis começaram a rachar, e antigos partidários — muitos deles há mais de vinte anos ligados ao grupo coronelista — decidiram apoiar Tasso.
Em Limoeiro do Norte, a maioria das lideranças políticas apoiava Adauto Bezerra, tendo em vista que era raro aquele que não se enquadrava na política dos coronéis, sobretudo pela influência de Manuel de Castro.
Rios de dinheiro corriam para as mãos dos líderes políticos locais, e o maior representante de Adauto no município era Wilson Craveiro Holanda. Embora não fosse mais manuelista, obedecia cegamente à política dos coronéis, e sua residência na rua Cel. José Nunes transformou-se em um comitê pró-Adauto.
Enquanto isso, outras lideranças mais independentes, porém em menor número, optaram por apoiar a candidatura de Tasso Jereissati, inclusive o empresário Gerardo Lucena de Oliveira, um tradicional seguidor de Manuel de Castro.
Vale ressaltar que, na região Jaguaribana, principalmente em Limoeiro do Norte, os coronéis foram fragorosamente derrotados, deixando a impressão de que a força de Manuel de Castro já não era tão eficiente como antes.
No final da campanha, Tasso Jereissati elegeu-se com 52,32% dos votos válidos contra 30,01% de Adauto Bezerra (TRE-CE - em 03.07.2003). Além disso, o PMDB elegeu os dois senadores, Mauro Benevides e Cid Carvalho.
Foi a partir de 1986 que se fechou o ciclo da era dos "coronéis no Ceará". Mesmo assim, demonstrando ainda um certo poder, César Cals elegeu o seu filho, César Cals Neto, e Virgílio o seu filho, Carlos Virgílio, ambos para a Câmara dos Deputados.
INÍCIO DA ERA TASSO 
A “era Tasso” começou em um clima de muita expectativa, pois se esperava, na verdade, que aquele modelo arcaico e cruento dos coronéis tivesse chegado realmente ao fim e que o Ceará se projetasse com um governador jovem, dinâmico e, acima de tudo, honesto.
Ao iniciar o seu governo, Tasso Jereissati teve de enfrentar uma tradicional estrutura política montada pelos coronéis, os quais detinham em suas mãos, até aquele instante, no mínimo 115 municípios do total de 151.
Começou a administrar o Estado como se estivesse gerindo uma empresa, disparando contundentes declarações de que “não tinha um tostão para nada” e de que “encontrara um Estado falido” — na verdade, já devendo três meses de pagamento ao funcionalismo, com uma arrecadação totalmente comprometida. Resolveu tomar algumas medidas que sabia serem desagradáveis, mas que viriam a resolver sérios problemas administrativos, inclusive no setor de pessoal, a fim de acabar com o vício de alguns servidores de “receber dinheiro do Estado sem dar expediente”.
Não levou para dentro da gestão nenhum resquício ou marca da administração de Gonzaga Mota, mesmo tendo sido este o inventor e patrocinador de sua candidatura. Pelo contrário, em pouco tempo, Mota teve que engolir um duro rompimento, e seu governo passou a ser tratado como igual ao dos coronéis; portanto, de nada servia como modelo para a nova administração.
Estabeleceu, inicialmente, uma ruptura com as práticas viciosas e politiqueiras implantadas pelos coronéis, criando um modelo administrativo em que os favores e contrafavores praticamente deixaram de existir. Ninguém, por mais importante que fosse, conseguia facilmente falar com o governador da forma como acontecia antigamente, quando deputados e chefetes políticos municipais adentravam ao Palácio da Abolição e passavam horas e horas no gabinete do Governador, tomando cafezinho e jogando conversa fora.
A partir de então, ficou conhecido o famoso “chá de cadeira”, significando que qualquer político que pretendesse ter uma audiência com o governador teria que esperar, no mínimo, umas duas horas, sem contar que, muitas vezes, nem recebido era — dependendo muito do assunto a tratar —, mesmo depois de ter passado tanto tempo esperando.
Mas, se por um lado o Estado voltou a ter credibilidade e notabilidade nacional, por outro, a miséria não mudou em nada. Através da modernidade administrativa, do equilíbrio fiscal e da recuperação da economia e das finanças, o Estado passou por uma profunda mudança na cultura política, representando uma alteração também profunda. No entanto, nem por isso os altos índices de miséria, pobreza, desemprego e concentração de renda deixaram de fazer parte da real situação do povo cearense.
A montagem de um fortíssimo esquema promocional levou a mídia a propagar um governo de características sérias; todavia, ocultava, por trás das bem montadas propagandas, uma cruel realidade: o povo continuava miserável. O uso da propaganda foi tão intenso que os recursos destinados a fins publicitários do governo foram altíssimos, numa demonstração de que havia a intenção de mostrar ao restante do país cenas que não correspondiam inteiramente à verdade.

Capítulo XVI - A ELEIÇÃO DE 1982 - CARECA X WILSON HOLANDA

UM DOS MOMENTOS mais movimentados politicamente em Limoeiro do Norte, foi o período que antecedeu as eleições de 1982.
Os fatos corriqueiros, em se tratando de política, aconteciam sempre em torno de todo o grupo de Manuel de Castro, já que os grupos de Dr. Simões e Franklin Chaves estavam praticamente enterrados, afora dona Judite, que inutilmente teimava em manter a sua liderança.
Sendo Manuel de Castro o governador do Estado, pretendeu, naquele ano, fazer uma campanha nos municípios nos quais ele tinha respaldo eleitoral, de modo que viesse a fortificar o esquema montado por ele e VT na retomada das prefeituras. Nomeou para as Secretarias de Administração e Casa Civil o Dr. José Maria de Oliveira Lucena, rapidamente denominado pela imprensa de supersecretário, quando até então ocupava o cargo de Procurador Jurídico da prefeitura.
Como era de praxe, sempre que se aproximavam as eleições, iniciavam-se as conversas em torno de quem seria o candidato, razão pela qual surgiam os interesses daqueles que detinham o poder de barganhar alguma coisa. Muitos políticos encostaram-se ao chefe cada vez mais servis e, com a aproximação do pleito, acentuou-se essa subserviência; por conseguinte, foi sendo criada também uma área de atrito numa disputa de quem tinha, ou de quem não tinha, mais cartaz e privilégio junto ao líder.
O governador tinha o objetivo de ganhar as eleições não somente em Limoeiro do Norte, mas também em Morada Nova e outros municípios da região. Orientou o Dr. José Maria Lucena a trabalhar nesse sentido, transformando-o, a partir daquele momento, em um astuto e versátil negociador dos malabarismos políticos. Transformou-o ainda no principal articulador para a sucessão de Evaldo Holanda, obedecendo e seguindo a doutrina e os princípios do chefe, que costumava dizer: “A única coisa vergonhosa em uma campanha política é perder a eleição, e nada mais”.
Por outro lado, Antônio Holanda de Oliveira, “o Velho da Serra”, que há algum tempo já vinha arrepiado com Manuel de Castro, decidiu candidatar-se para concorrer naquela eleição. Para desagrado do governador, e levando a sério seu intento, começou a visitar alguns correligionários, externando sua intenção de novamente dirigir o Executivo municipal. Devido a essa atitude, foi aconselhado pelo Dr. José Nilson Osterne com a seguinte frase: “Cuidado, Antônio, pois, começando cedo assim, no final você terá vendido o último forno de cal”.
Mas o destino foi cruel com o Velho da Serra. Sua intenção foi barrada por uma enfermidade que o impediu de prosseguir na campanha, obrigando-o a colocar seu filho, Wilson Craveiro Holanda, no seu lugar. Com Wilson candidato, a oposição a Manuel de Castro tornou-se mais acirrada, pois este teria dito em conversas informais “que Wilson jamais seria prefeito se dependesse dele”.
Na época, ouviu-se um boato de que uma das razões pelas quais Manuel de Castro se impôs contra os nomes de Antônio Holanda e Wilson, caso qualquer um dos dois fosse candidato, foi por sugestão e até imposição do seu supersecretário, Dr. José Maria Lucena, o qual conservava alguns arranhões e atritos pessoais com Wilson Holanda.
Mesmo doente e ainda resistindo com a fibra que sempre fez parte do seu caráter, Antônio Holanda decidiu partir para a briga, para o confronto, embora consciente de que a sua avançada idade e a enfermidade não lhe permitiriam envolver-se em mais uma campanha política.
Gladstone, por sua vez, tinha interesse em encostar-se ao governador, mostrando que, mesmo tendo sido derrotado por ele nas eleições passadas, tinha atrás de si uma legião de eleitores que seguia à risca as suas orientações políticas. Numa verdadeira demonstração de falta de respeito ao povo e de que pouco lhe importava o senso de moral nas habilidades para conseguir o poder, voltou ao seio de Manuel de Castro, prometendo esquecer totalmente tudo o que dissera e fizera quando com ele rompeu em 1976. Aliás, essa passaria a ser a característica mais peculiar do Careca: nunca se abster de participar de conchavos e acordos a fim de conseguir seus objetivos políticos.
Com a ideia implantada na cabeça de que sem a máquina administrativa ninguém consegue chegar à prefeitura, Gladstone conseguiu o apoio tanto do governo do Estado na pessoa do governador Manuel de Castro quanto do governo do município na pessoa de Evaldo Holanda Maia. O nome do candidato a vice-prefeito de Gladstone por sugestão de Raimundo de Castro e Silva e com o respaldo de dona Osmira e facilmente aceito por Manuel de Castro recaiu sobre o jovem odontólogo João Dilmar da Silva, uma figura inteiramente desconhecida dos limoeirenses, sem nenhuma experiência, totalmente avesso e alheio à política além de um fraquíssimo orador de palanque. Sua indicação era somente mais uma demonstração de que colocavam nomes como candidatos conforme suas vontades, pouco importando se representavam os anseios do povo.

Com o lançamento do nome de Careca, Antônio Holanda não se intimidou e lançou a candidatura do seu filho, Wilson Craveiro Holanda. Há de se convir que o rompimento de Antônio Holanda com Manuel de Castro, muito embora tenha sido encarado como um ato de heroísmo e coragem, foi muito mais uma demonstração de desgosto e de insatisfação por este ter se recusado a apoiar a candidatura do seu filho para prefeito, depois de ter-lhe servido fielmente durante tantos anos.
A candidatura de Wilson Holanda, tão logo foi levada ao conhecimento público, caiu nas graças do povo. Méritos para isso não lhe faltavam, visto que era jovem, simpático e dinâmico em tudo o que fazia. Para reforçar, convidou para vice-prefeito o benquisto industrial de filtros José Mendes.
Na esfera estadual, foi buscar o apoio do Coronel Adauto Bezerra, passando a ser um dos que tomavam cafezinho em seu gabinete. Através de dona Judite, recebeu também o suporte do Coronel César Cals e do seu filho César Neto, então Deputado Federal.
O nome de Wilson Holanda foi de tal forma aceito pelos limoeirenses que sua ascensão preocupou demais os partidários do governador, os quais passaram a não acreditar mais em uma vitória fácil.
É bom que se diga que ambos os candidatos integravam o PDS (Partido Democrático Social), bem como apoiavam Gonzaga Mota ao governo do Estado, candidato de Virgílio Távora, Adauto Bezerra e César Cals. A configuração de intriga e desavença que as lideranças estabeleciam no município, por estarem sendo apoiadas por um ou outro, era apenas um reflexo do que acontecia também no Estado, onde os coronéis, mesmo se dizendo “unidos”, brigavam desesperadamente.
Durante a campanha, o crescimento da candidatura de Wilson Holanda tornou-se tão evidente que o governador e seus asseclas, inevitavelmente, tiveram que partir para o uso de várias estratégias; caso contrário, perderiam a eleição. Isso não era nada agradável, tendo em vista que essa seria a vitória mais importante na vida de Manuel de Castro, pois, na qualidade de governador, ele tinha como ponto de honra ganhar, mesmo que tivesse que usar todo tipo de esquema.
À revelia da própria lei, começou por efetuar várias contratações em todo o Estado do Ceará.
“No Arquivo Estadual existe uma edição do Diário Oficial, assinado por Castro, em 1982, nomeando mais de 15 mil servidores, sem concurso público, num único dia - antes das eleições. [...] O Estado do Ceará ainda hoje paga o preço de seu governo - que inchou a máquina pública (principalmente de aliados) sem se preocupar como a conta seria paga”. http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_de_Castro_Filho - Em 31.11.2009)
A respeito de tais nomeações, o jornalista J. Ciro Saraiva (Quixeramobim) dá seu testemunho de que realmente elas foram uma exigência de VT, dizendo o seguinte:
Coube ao Governador Manoel de Castro honrar os compromissos que Virgílio assumira, para que cessassem as resistências à candidatura de Gonzaga Mota, em 1982. Acompanhei-o à casa de VT, onde fomos recebidos reservadamente.
- Virgílio, as nomeações foram feitas. São 16 mil.
Resposta lacônica:
- Muito bem.
O Governador, que não tinha meias palavras, destacou:
- Fiz isso, por causa de você.
Outra resposta lacônica:
- Muito bem.
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Vinte ou trinta dias depois, Virgílio me chama à sua casa:
- Quero dizer ao senhor que jamais concordei com essas nomeações que os jornais estão publicando.
Não pude ficar calado:
- Mas, Coronel, o Governador Manoel de Castro veio aqui lhe dizer que fez as nomeações por causa do senhor!
Cortou-me a palavra:
- Muito pelo contrário, só fizeram me atrapalhar.
Contei ao Dr. Manoel de Castro. Riu gostosamente e depois, comentou:
- O Virgílio é assim mesmo!
http://www.casadoceara.org.br/arquivos/Jornal/JornalMaio09/jornal.pdf - em 06.02.2010. 
Ainda sobre as contratações o repórter da TV Verdes Mares Nelson Faheina, por ocasião de uma entrevista com o governador fez a seguinte pergunta:
– É verdade, governador, que o senhor nomeou 15 mil pessoas?
Ele respondeu:
– É mentira. Nomeei trinta mil. São pessoas humildes, e, como elas, vou ainda nomear muito mais. E não me pergunte mais nada. Não admito ninguém me cutucar com vara curta.  (FAHEINA, Nelson. Fatos, Fotos & Fantasias. Fortaleza: Gráfica Editora LCR, 2011, pág. 154)
Aqui em Limoeiro do Norte, por exemplo, foram efetuadas em torno de duas mil dessas contratações na esperança de que se revertessem em votos favoráveis aos seus candidatos. Os responsáveis pelas indicações das pessoas a serem contratadas eram os chefes políticos seguidores da doutrina manuelista. O único critério a ser cobrado no ato da contratação era o voto, que deveria ser dado aos candidatos indicados pelo Governador. Só para ilustrar o episódio das contratações, alguns dos contratados, ao terem que apresentar os documentos exigidos e não os tendo, o faziam com documentos falsificados, com mais frequência para os certificados de escolaridade. Já o raio-X de pulmão, um dos itens exigidos, foi emprestado em muitos casos por um vizinho ou por outra pessoa conhecida. O governador, ainda sentindo que estava sendo difícil superar a popularidade de Wilson Holanda, carreou para Limoeiro do Norte algumas obras que julgou importantes e eficientes na conquista dos votos. Aliás, foram as únicas obras trazidas por Manuel de Castro para Limoeiro do Norte durante suas mais de três décadas de atuação como Deputado Estadual.
*Foi naquele ano em que se construiu o Terminal Rodoviário, por sinal, um dos mais modernos do interior do Estado.
*Aproveitando a onda das obras, mandou demolir um prédio que tivera sua construção iniciada na gestão de Custódio Saraiva – Hospital/Maternidade – e edificou o Centro Social Urbano. A demolição foi um presente do governador à família Chaves, visto que o prédio inconcluso desde a gestão de Custódio Saraiva (1036/1945) era um monumento à corrupção das administrações limoeirenses.
Instalou a Sede do DETRAN.
*Por último implantou o PROMOVALE indicando uma considerável melhoria para o trabalhador rural da Região Jaguaribana e, sobretudo de Limoeiro do Norte. Não passou de uma manobra política, pois na realidade nunca esteve a serviço dos objetivos para os quais fora criado. O PROMOVALE abrangia os municípios de Alto Santo, Aracati, Iracema, Itaiçaba, Jaguaruana, Jaguaribara, Jaguaretama, Jaguaribe, Limoeiro do Norte, Morada Nova, Palhano, Pereiro, Quixeré, Russas, São João do Jaguaribe, Tabuleiro do Norte.
Nem mesmo com isso se fez sentir uma queda na popularidade de Wilson. Para Manuel de Castro, ser derrotado justamente naquele momento seria uma vergonha por dois motivos: primeiro, porque, imbuído do cargo de governador, tinha o dever de ganhar para comprovar sua força política; segundo, porque o adversário, no caso Wilson Holanda, foi fruto de um rompimento com seu grupo, o que lhe provocou um sentimento de vingança, tornando a derrota algo inaceitável e derrotá-lo seria uma questão moral.
Em meio à campanha, o candidato a vice-governador Coronel Adauto Bezerra compareceu a um comício na Praça da Catedral, em apoio a Wilson Holanda, ocasião em que pronunciou um discurso falando sobre o “Careca”, fazendo zombaria com a forma como o candidato era conhecido. Seu pronunciamento foi ouvido por Manuel de Castro, do 1º andar da casa do seu concunhado, Genésio Bezerra.
A vinda do Coronel Adauto Bezerra a Limoeiro causou pânico no grupo do governador, aumentando o temor de perder aquela eleição. Sem ver alternativa, Castro partiu para o aliciamento direto aos eleitores e, de maneira acintosa e prepotente, bem como numa verdadeira demonstração de descompromisso com a Lei, usou o dinheiro do contribuinte para derrotar o seu adversário.
Era tão clarividente e aberrante a compra de votos, sem o menor respeito às leis eleitorais, que, em um determinado dia próximo ao pleito, formou-se uma enorme fila partindo da casa do próprio governador, na Rua Padre Joaquim de Menezes. No local, foi distribuído dinheiro vivo para o povo, na quantia de Cr$ 5.000,00 (cinco mil cruzeiros) para cada pessoa. Sabe-se ainda da distribuição de televisores, máquinas de costura, pneus de bicicletas e outros objetos em troca de votos.
Como última cartada, o governador conseguiu trocar o juiz eleitoral quando faltavam apenas três dias para a eleição, voltando a Limoeiro o conhecido Dr. Miguel Aragão, apenas para aquele período.
No dia da eleição, foi enviado às ruas um grande contingente policial armado para intimidar eleitores. Policiais, fiscais e o juiz permitiram propaganda irregular, com apoiadores, incluindo mesários, exibindo o adesivo do "jacaré" em referência ao candidato Gladstone.

Naquele fogo cruzado onde se debatiam duas grandes forças políticas, o PMDB, para representar resistência e oposição àquelas candidaturas que não passavam de um resultado do racha no PDS, resolveu lançar uma chapa em que figuraram os nomes do Dr. Moacir e de Cristóvão Pitombeira para prefeito e vice-prefeito, respectivamente. Ao realizarem o último comício, os peemedebistas foram ingênuos quando marcaram o evento para a mesma data dos seus dois concorrentes e montaram o palanque na Praça da Catedral. Além da inferioridade diante do poderio dos outros candidatos, foram ainda massacrados no momento em que realizavam a concentração, quando, tanto a caravana de Wilson Holanda quanto a do Careca, ao fazerem as passeatas, passaram justamente no meio da pequena multidão presente ao evento, abafando de vez o coro já quase inaudível dos oposicionistas.
Já os comícios de encerramento dos dois grandes concorrentes ocorreram simultaneamente na Praça da Rodoviária (Careca) e na Rua Cel. Francisco Remígio (Wilson), ambos com grande público.
Para finalizar, e antevendo ainda a imensa dificuldade em derrotar o adversário, os responsáveis pela campanha montaram um esquema em que, se não fosse possível reverter os votos de Wilson em favor de Gladstone, pelo menos conseguiriam fazer com que o eleitor se abstivesse de votar. Os encarregados desse serviço eram os motoristas, que, por ocasião do transporte de eleitores, indagavam em quem pretendiam votar. Caso a resposta fosse em Wilson, ofereciam-lhes dinheiro e os induziam, ainda, a não votar em nenhum dos dois. Esse último passo foi decisivo para o resultado em favor do Careca, visto que, naquela eleição, houve mais de mil e quinhentas abstenções, enquanto a maioria de Gladstone sobre Wilson foi de pouco mais de mil e trezentos votos — portanto, menor que o número de abstenções. Isso leva à análise de que, sem elas, Wilson teria saído vitorioso.
Sabe-se de uma retirada vultosa em dinheiro do Bradesco altas horas da noite que antecedeu o dia da eleição, com o objetivo de assegurar a compra de votos.
Há quem afirme, categoricamente, que todo o processo político que levou Wilson Holanda à derrota teve como mentor o supersecretário de governo, o Dr. José Maria Lucena. Ele era visto como coordenador e conselheiro do governador Manuel de Castro, que, por sua vez, chancelava todos os atos de seu secretário, objetivando resultados positivos naquela eleição. Todavia, a preocupação de Manuel de Castro com Limoeiro do Norte não funcionou em Morada Nova, sua terra natal, onde alguns de seus irmãos e outros membros da própria família eram seus principais adversários.
“O esquema falhou na própria cidade do governador Manoel Castro, Morada Nova, apesar de toda a assistência dada àquele município chegando até a transferir o Banco do Estado do Ceará para lá. Mas o fato é que a família Castro estava dividida. O irmão do governador subia, por exemplo, aos palanques, para pregar a desonestidade e falsidade do mano”. (JUNIOR, Wilson Roriz. Sim, Senhor Coronel, 1984, p. 58)
   
“Ele usou e abusou da máquina estadual para eleger candidatos de sua preferência, mas chegou a perder a eleição em sua cidade natal (Morada Nova), em 1982, tendo a filha como deputada estadual (Douvina Aleuda Eduardo de Castro) e o irmão, Isaias Castro, então prefeito da cidade”.
(http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_de_Castro_Filho - Em 31.11.2009)
Foi a partir daquele ano que Manuel Castro encerrou sua vida pública e com isso, fazendo despontar outras lideranças se iniciando um novo ciclo na política limoeirense.

Durante a campanha um trágico acontecimento abalou toda a classe política bem como toda a população do município. Faltando apenas duas semanas para a eleição, foi brutalmente assassinado com um tiro no peito o candidato a vereador Jurahy Santiago, vitima de um crime passional, ao envolver-se com uma mulher. O companheiro desta, enciumado cometeu o fatídico homicídio.
Logo ficou provado que o crime não teve nenhuma relação com a campanha política que estava acontecendo naquele momento, todavia, em acontecimentos desta natureza sempre existem os mal-intencionados que planejam tirar proveito da situação. No caso do assassinato de Jurahy, um desses maldosos políticos, do tipo que não lhe importa o motivo nem o caminho para chegar a um resultado positivo, por mais sórdido que seja esse caminho, chegou a sugerir ao candidato Wilson Holanda a contratação de pistoleiros para assassinar um dos adversários, insinuando ele que a morte de Jurahy teria sido por motivos políticos. Como era de se esperar, Wilson não deu nenhum crédito nem ouvidos ao que sugerira o pernóstico candidato a vereador.

Se na Política “ninguém é santo” há aqueles que vão além da coerência e da ética para se elegerem, pouco lhes importando o conceito de homens públicos. Os fatos interessantes também existem nas campanhas dos candidatos a vereador e que muitas vezes se revestem de fantásticos acontecimentos, frutos de montagens cerebrinas e brilhantemente postos em prática de maneira altamente eficiente. Para comprovar, vamos relembrar o fato que levou o candidato a vereador Gentil Saraiva à derrota na sua campanha para a Câmara Municipal em 1982. Como era afilhado de dona Judite, tinha desta uma especial simpatia, muito embora ela nunca demonstrasse qual era o seu candidato preferido, porem dedicava ao afilhado uma deferente atenção. Essa estreita amizade gerou um ciúme doentio no também candidato Professor Antônio Pergentino Nunes, que tratou de montar uma solerte e sórdida estratégia, a fim de abater a concorrência de Gentil Saraiva, a quem considerava um empecilho na sua intenção de eleger-se vereador. Ora, sabendo ele que existia entre Judite Chaves e Raimundo de Castro algumas mágoas, consequência ainda do rápido pouso deste no ninho de Manuel Castro tão logo terminou a eleição de 1966 – como já vimos – e também sabendo que Raimundo de Castro estava apoiando Zé Holanda Baixim para vereador, resolveu criar uma história, digna de um cérebro astuto e ardiloso. Chamou dona Judite em confidências, dizendo-lhe que Raimundo de Castro andava comentando que ele, Pergentino, não seria eleito, pois dona Judite não tinha mais prestígio como líder política nem votos suficientes para eleger sequer um vereador no município e ia mais além, dizendo que o seu candidato, Zé Holanda seria um dos mais votados o que viria comprovar justamente que ele era quem tinha condições para eleger quem quer que fosse e por isso tinha escolhido para apoiar um nome sem nenhuma expressão política. O poder de persuasão de Pergentino mais uma vez não falhou e, dona Judite, com receio de que se confirmassem os supostos comentários de Raimundo de Castro, desprezou totalmente o nome de Gentil Saraiva e passou a trabalhar com afinco o nome do Professor, resultando em sua espetacular eleição e, por conseguinte, na derrota de Gentil Saraiva, que por muito tempo, guardou a marca da traição do seu correligionário.
Tão grande era a obsessão de Pergentino por uma vaga na Câmara Municipal, que chegou a ameaçar pessoas da própria família, ao tomar conhecimento que parentes muito próximos estavam também se candidatando a uma vaga no legislativo, achando que somente ele tinha o direito de disputar o cargo e a divisão dos votos na família poderia prejudicar a sua candidatura.

Um fato também digno de registro diz respeito à campanha de três candidatos a vereador: José Maria de Andrade, José Holanda (Baixinho) e Rita Peixoto.
Os patrocinadores dos três respectivos candidatos travaram uma disputa dentro do próprio grupo para saber quem elegia o seu vereador com a maior quantidade de votos. José Maria de Andrade estava sendo apoiado por José Maria Lucena, José Holanda por Raimundo de Castro e Rita Peixoto por Douvina Castro.
Raimundo de Castro dizia em conversas informais que mostraria àqueles que afirmavam que ele não tinha mais prestígio para eleger sequer um vereador, e que elegeria um nome sem nenhuma expressão política. Por isso, escolhera Zé Holanda para dar seu aval político, a quem, por deboche, tratava como “Zé Priquitim”.
O fato é que os três foram folgadamente eleitos. Quem conseguiu um maior número de votos foi Rita Peixoto, tendo sido a campeã e atingindo a extraordinária cifra de mais de 1.300 sufrágios. A sua campanha se igualou à do prefeito, com direito a trio elétrico exclusivo, e, sem dúvidas, representou uma significativa soma na eleição do Careca, levando-se em conta o grande número de votos obtidos. José Holanda também saiu bem votado e, por fim, Zé Maria de Andrade, cuja eleição, segundo ele próprio, lhe deu um mandato ilegítimo.
Para melhor ilustrar a eleição de Zé Maria, é bom que contemos a história verdadeira de como ele chegou ao parlamento municipal. Tudo começou quando o seu sogro, Antônio Vicente Maia, achou por bem não concorrer naquele pleito, tendo em vista a sua avançada idade e saúde debilitada. Convidou, então, Zé Maria para, em seu lugar, candidatar-se a vereador. A princípio, Zé Maria rejeitou a ideia do sogro, porém cedeu depois, indo até Fortaleza para receber o apoio do Dr. José Maria Lucena. Tanta certeza tinha da seriedade que deve ter um homem público, que Antônio Vicente, ao convencer o genro a ingressar no mundo da política, disse que “a política é para os homens de bem” – pelo menos, deveria ser.
A eleição de Zé Maria custou a distribuição aos eleitores de filtros para água, de mais alguns televisores e de máquinas de costura. Segundo o próprio Zé Maria, somente os filtros foram do seu conhecimento, e ele fez a distribuição da forma mais justa possível, sem olhar e sem questionar o voto de qualquer eleitor.
Diante desse pequeno histórico sobre o vereador Zé Maria, convém-nos fazer uma ressalva interessante com relação à sua atuação como parlamentar. Era de se esperar que, da forma como foi eleito, fosse mais um para não honrar o mandato recebido do povo. Todavia, ao chegar ao parlamento, Zé Maria transformou-se num ferrenho defensor das causas sociais, marcando presença em todos os movimentos populares e empenhando a sua voz e o seu esforço em prol de causas socialmente justas.
Como prova de uma ideologia política realmente identificada com as causas sociais, filiou-se, tempos depois, ao PT (Partido dos Trabalhadores) e, é justo dizer que sua atuação na Câmara sempre foi de respeito aos votos recebidos. Neste caso, e para entender melhor a atitude e a conduta política de Zé Maria em seu contexto real, é necessário conhecer o momento histórico e político em que ele teve que se sujeitar a uma maneira imprópria para conseguir o seu primeiro mandato. Achamos conveniente, portanto, atribuir a esse fato uma das frases mais famosas atribuídas a Maquiavel: "Os fins justificam os meios".
Se, nesta comparação, houve intenção ou não para que, tão logo fosse eleito, demonstrasse seu caráter de homem verdadeiramente público, a verdade é que Zé Maria deu um exemplo de que a máxima de Maquiavel pode ser perfeitamente colocada em prática. Embora saibamos que muitas vezes ela é usada pelos políticos para sugerir que um fim considerado muito importante torne moralmente justificável o uso de qualquer meio.

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Sobre a eleição de 1982, não podemos deixar de registrar um fato lamentável com relação ao então prefeito Evaldo Holanda Maia: ele se dispôs a apoiar o candidato que fora derrotado na eleição passada pelos mesmos que, naquele momento, de tudo faziam para elegê-lo. Depois de exaltarmos as qualidades de Evaldo e o seu caráter de homem público, somos obrigados a lamentar a sua tomada de posição no que diz respeito àquele pleito eleitoral de 1982 e, nos cumpre muito mais dizer que, apesar do seu caráter inquestionável, ele se mostrou, naquele momento, como um homem fraco, quando ajudou a engendrar as manobras para eleger o Careca. É bastante compreensível que ele se sentisse na "obrigação" de proceder dessa forma pelo muito que devia a Manuel de Castro, principalmente por torná-lo prefeito em 1976. Entretanto, muito mais gratidão devia a Antônio Holanda, que foi quem o indicou de forma incondicional como candidato em 1976. Aqui se encaixam muito bem as palavras do próprio Wilson Holanda, quando certa vez, referindo-se ao fato, disse: "Evaldo nos traiu miseravelmente". Portanto, seria mais digno — e até para combinar com tudo que dele já dissemos — que ele não tivesse se mancomunado com aqueles que queriam eleger o Careca a qualquer custo. Mas, ao que pareceu, Evaldo o fez ex toto corde.
Sobre o retorno do Careca ao ninho manuelista, podemos dizer que foi uma atitude de esperteza, já que pretendia ser prefeito de Limoeiro a qualquer custo. Por outro lado, Manuel de Castro ganhou de volta um dos seus mais abnegados serviçais. Com aquela atitude, o Careca mostrou que o grito de liberdade dado em 1976 não passou de uma farsa e que seu lugar era mesmo ao lado de Manuel de Castro, aliás, de onde nunca deveria ter saído. Sua identidade política teria sido mostrada de forma confiável se tivesse sustentado a sua decisão de chegar ao poder executivo através da força popular e não pela manipulação no aliciamento dos eleitores. Aproveitou-se ainda da morte de Zé Hamilton, visto que, se fosse vivo, jamais teria aceitado a sua candidatura naqueles termos.
Já Wilson Holanda, ao ser derrotado da forma como foi por Manuel de Castro, sentiu na pele aquilo que ajudara a fazer com o próprio Gladstone Bandeira em 1976, quando este foi derrotado por Evaldo Holanda Maia. Ao ser massacrado politicamente por aquele a quem rendeu subserviência, Wilson Holanda veio comprovar que disputar contra Manuel de Castro era o mesmo que remar contra a maré, ou seja, arcar com a amargura de ser pisoteado e humilhado perante todos. Mesmo tendo sido derrotado de uma forma humilhante, Wilson bem que mereceu ser vítima de Castro e de seus comparsas, visto que, até então, lambia e limpava os pés do “Velho Guerreiro”, devotando-lhe — a ele e igualmente a todos — uma subserviência total. Também se sabe que, em circunstâncias que lhe fossem favoráveis, com certeza não teria o menor escrúpulo em participar de uma armação, nos mesmos moldes daquela que o derrotou, para tirar um adversário do páreo.
Manuel de Castro tinha uma característica interessante na sua forma de fazer política. Como já dissemos, não se acanhava em juntar-se com os que, em outras ocasiões, lhe dirigiram insultos através de palanques adversários. Entretanto, essa estratégia se transformava numa forma de tornar cada vez mais subserviente aquele que regressava para o seu lado. O que importava, na realidade, eram os rendimentos políticos e a concretização de seus pretextos eleitorais. Estabelecia entre os seus asseclas um jogo de favoritismo em que, usando de seu prestígio com o governo do Estado, presenteava-os com empregos para a família como forma de convertê-los, cada vez mais, em seguidores de sua doutrina política. Conseguiu, com essa hábil maneira de agir, a adesão da maioria das lideranças limoeirenses em troca de empregos e cargos públicos estaduais. Para comprovar, podemos afirmar seguramente que, durante o período de sua atuação política em Limoeiro, não encontraremos facilmente um servidor público estadual que não tenha sido “empregado” por seu intermédio. Grande parte das famílias limoeirenses — dentre elas os Holanda, os Castro, os Costa, os Da Silva, os Osterne, etc. — tem empregos cedidos por Manuel de Castro, e algumas dessas famílias têm, até hoje, praticamente todos os seus membros empregados.
Manoel de Castro usava os palanques políticos com uma perspicácia extraordinariamente peculiar, e seus improvisos no meio dos discursos era o que mais impressionava. Como exemplo, vejamos o que diz o jornalista Ciro Saraiva:
O improviso do dr. Manoel
Em 1982, o Governador Manoel de Castro deu-me uma incumbência:
– Quando eu estiver falando e fizer alguma referência ao Adauto (Bezerra), puxe no meu palitó.
À noite, estávamos em Senador Pompeu, pregando a candidatura de Aécio de Borba. Comício grande, o governador abriu o sarrafo contra Adauto. Fiz o que ele mandara. Ato contínuo emendou no seu discurso:
– E não adianta Ciro Saraiva, puxar meu palitó, não, que ninguém vai me impedir de dizer a verdade!
http://www.casadoceara.org.br/arquivos/Jornal/JornalMaio09/jornal.pdf - em 06.02.2010
Aceitar estar ao lado de Manuel de Castro era o mesmo que assinar um termo de que teria que seguir uma doutrina em que o comandante dificilmente aceitava oposições às suas ideias ou às posições tomadas, criando um fanático proselitismo político em que os seus seguidores passavam a exercer um devotado capachismo, sobretudo em agradecimento aos empregos públicos recebidos. Agindo assim, Manuel de Castro colocou sob o seu jugo praticamente todos aqueles que se destinaram a ser seus partidários, incluindo gente de todas as camadas sociais, que ia desde a classe de médicos, dentistas, advogados e agropecuaristas, até aos mais simples e humildes homens do campo. Por outro lado, e na hora certa, o “velho guerreiro” usava de outra faceta sutilmente habilidosa: tratar a pão e água alguns dos seus prosélitos, sabendo que eles jamais teriam a coragem e a petulância de deixar de segui-lo. Com relação a essa dúbia e estranha atitude, dizia, às vezes, que “não teria nenhuma vantagem em investir naquilo que já era seu”.
O exemplo que podemos citar para confirmar esse gesto é o de Francisco Moreira Filho, de Tabuleiro do Norte. Segundo o seu filho, Jesus Moreira de Andrade, Chico Moreira era um seguidor extremamente fiel à doutrina política de Manuel de Castro, mas sofreu, durante toda a sua vida, o desprezo e a indiferença por parte do chefe, principalmente com relação aos empregos com os quais costumava presentear os seus seguidores. Ainda segundo Jesus Moreira de Andrade, mesmo depois da morte do pai, Manuel de Castro não se sensibilizou:
”...ficamos em quase completo abandono por parte do Deputado Manoel de Castro Filho, a quem meu pai foi “fiel até a morte””(ANDRADE, Jesus Moreira. Moreira e o Tabuleiro de Todos Nós. Fortaleza, 1980. p. 82)
Jesus diz ainda que sua mãe, viúva, tentou por várias vezes ajuda para a família, que passava por imensas dificuldades financeiras. Mesmo dizendo-se abandonado, Jesus Moreira lembra que conseguiram os empregos, sim, porém à custa de muito esforço de sua mãe, que passou a implorar humildemente a Castro:
“Lembramos que naquela época quase todos os dias a nossa mãe se deslocava do bairro Otávio Bonfim, onde morávamos numa casa alugada, até o bairro de Fátima, a pé, onde morava o deputado Manoel de Castro. Apesar de todo esse sacrifício e humildade da nossa mãe viúva, nada foi conseguido, a não ser o emprego de contínuo nas repartições do governo, cargo este que assumimos com a maior naturalidade, forçados pelas dificuldades que estávamos passando.(ANDRADE. Op. cit. p. 82)

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 A CANDIDATURA DE GONZAGA MOTA – O ACORDO DOS CORONEIS

Também acontecia naquela época a primeira eleição direta para governador após o Golpe Militar de março de 1964. A novidade era que, para participar do pleito, os partidos eram obrigados a apresentar candidatos a todos os cargos em disputa. O eleitor não podia votar em postulantes de legendas diferentes; ou seja, era obrigado a votar no mesmo partido para todos os cargos, caso contrário o voto seria anulado.
(Lei 7.015 de 16 de julho de 1982 “Art. 8º - Nas eleições previstas nesta Lei, o eleitor votará apenas em candidatos pertencentes ao mesmo Partido, sob pena de nulidade do voto para todos os cargos). 
Foi o que ficou conhecido como "voto vinculado", cujo objetivo era que, ao se unirem as eleições para todos os cargos em um único pleito, o PDS saísse favorecido e fortalecido, já que se encontrava visivelmente desgastado pelas práticas politiqueiras estabelecidas desde a antiga ARENA. Esse foi o único motivo pelo qual o “voto vinculado” foi legalmente adotado em 1982, muito embora a alegação fosse a de que os partidos sairiam fortalecidos e teriam assegurada a fidelidade partidária. Mas, na prática mesmo, o que se julgava era que a vinculação do voto beneficiaria o PDS, partido do Governo Federal, dominante na maioria dos estados e dos municípios do país. O certo é que a estratégia não funcionou como o desejado e, incrivelmente, o PMDB teve suas bancadas aumentadas de forma considerável em praticamente todos os Estados da federação, e ainda mais com a surpresa causada pela grande quantidade de votos brancos e nulos, numa clara demonstração de insatisfação do eleitor brasileiro.
No Ceará, para que se definisse quem seria o candidato de consenso dos coronéis, necessitou-se de um acordo na presença do então Presidente da República, General João Figueiredo, consolidando o famoso Acordo de Brasília ou, mais vergonhosamente, o Acordo dos Coronéis.
Tudo começou quando Adauto Bezerra dizia em entrevistas que seria candidato, e Virgílio Távora também divulgava pela imprensa, por meio do Governador Manuel de Castro, que Aécio de Borba sairia candidato com o seu apoio. Naquele momento, o racha no PDS cearense era evidente. Sentindo que estava perdendo espaço para os dois desafetos, César Cals usou do seu prestígio junto ao Presidente Figueiredo para que os três fossem convocados a uma reunião no Planalto e, mediante um acordo, estabelecessem as regras para as eleições daquele ano no Ceará.
Em meio à reunião, Virgílio Távora surpreendeu a todos quando arrancou do bolso do paletó o nome de um antigo secretário para candidato. Tratava-se de Luiz Gonzaga da Fonseca Mota, um jovem economista, professor da UFC, técnico do BNB e, até pouco tempo, secretário de Planejamento do governo, a quem VT considerava altamente competente. Além do mais, alegava ser um nome neutro e longe dos interesses grupistas. Aquela atitude de Virgílio resultou numa frase amplamente divulgada de que fora “tirado um totó de um saco de gatos”, numa alusão de que, em meio a todo aquele emaranhado de interesses pessoais, VT conseguiu sobrepor a sua vontade, indicando um nome aparentemente manobrável, e mais uma vez levou vantagem graças às suas inteligentes manobras. Se a expressão "totó" – na frase – fazia referência a um cão pequeno, a palavra também significa um chute fraco e curto (na linguagem do futebol brasileiro, um chute dado com o lado do pé), o que, ironicamente, se enquadrou tempos depois na situação dos coronéis, já que Gonzaga Mota rompeu com todos eles durante o seu governo.
Ainda como parte do “acordo”, Virgílio partiria para o Senado, Adauto entraria na chapa como vice-governador e Cals indicaria o prefeito de Fortaleza — tendo indicado o seu filho, César Cals Neto (1983-1985). Enquanto isso, o Estado seria dividido em três fatias de 33% dos cargos para cada um deles, sobrando, matematicamente, 1% para o novo governador. [1]
Se não tivesse havido o acordo e as intenções dos coronéis de disputar o poder “cada um por si” tivessem se concretizado, o Ceará teria tido uma campanha de um só partido, porém com dois fortíssimos blocos: um apoiado pela máquina administrativa do Estado — portanto, patrocinado pelo dinheiro público através do governador Manuel de Castro — e o outro apoiado pelo poder econômico e empresarial dos Bezerras do Cariri. Mas falou mais alto o interesse pessoal de cada um, razão pela qual acharam melhor lotear o Estado entre eles e seus apaniguados.
Contudo, ao se iniciar a campanha, eram claras as divergências entre os coronéis. Adauto Bezerra, mesmo sendo candidato a vice-governador, demonstrava não ter o menor interesse em que Gonzaga Mota se elegesse — justamente por este ter sido indicado por Virgílio Távora —, antevendo que Mota seria uma peça de fácil manobra política nas mãos de VT. Diante disso, orientou seus partidários a encabeçarem uma campanha em favor do “Voto Camarão”. A ideia sugeria que, em virtude da vinculação do voto (onde o eleitor tinha que votar em candidatos de um mesmo partido), o eleitor não teria o voto anulado se deixasse de marcar algum nome da chapa. Portanto, não haveria problema em desprezar o candidato a governador que encabeçava a lista e assinalar os outros postulantes, ou seja, de senador a vereador.
Esse procedimento poderia desencadear uma enormidade de votos brancos para governador e reverter o resultado em favor de Mauro Benevides, candidato do PMDB.
Era com essa briga interna que Mauro Benevides esperava ser beneficiado, repetindo a dose da eleição de 1974, quando foi eleito senador ainda no MDB. É que naquela eleição o candidato a senador arenista Edílson Távora – indicado por César Cals – mantinha um histórico de fortes atritos na política cearense, além de ser inimigo pessoal de Virgílio, que evidentemente não o apoiou, resultando em uma vitória espetacular de Benevides para o Senado Federal.
Só que, em 1982, mesmo sugerindo o “voto camarão”, no final prevaleceu em Adauto Bezerra o instinto econômico-empresarial. Temendo uma perseguição do Planalto sobre suas empresas, ele resolveu colaborar para que Gonzaga Mota fosse eleito.
Aquela seria a última eleição sob o comando dos coronéis e, como se fosse uma premonição de Virgílio Távora, podemos destacar o seguinte:

A profecia de vt
15 dias antes das eleições de 1982, Virgílio Távora reuniu a Assembléia de Comunicação e o Coordenador de Campanha, Aldenor Nunes Freire. Mostrou números que lhe eram trazidos pelo SEI (Serviço Estadual de Informações) que asseguravam a vitória de Gonzaga Mota (PDS) sobre Mauro Benevides (PMDB). Depois, perguntou:
- Qual vai ser a maioria do Totó (Gonzaga)?
- 200 mil votos, chutei.
- 300 mil votos, sugeriu Aldenor.
Virgílio emitiu sua opinião:
- Ganharemos por mais de 600 mil votos.
Votação apurada para Governador: Gonzaga Mota: 1.140.259
(58,7% do eleitorado); Mauro Benevides, 478.755 (24.5) maioria:
661.794 votos. Ao encerrar a reunião, depois de recolher os calhamaços de  informações, Virgilio fez uma frase profética:
- Esta é a última vitória dos coronéis.
Em 1986, deu Tasso Jereissati pelas mãos de Gonzaga.
J. Ciro Saraiva (Quixeramobim), jornalista
http://www.casadoceara.org.br/arquivos/Jornal/JornalAbril09/jornal.pdf em 18/11/2011

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GONZAGA MOTA - GOVERNADOR

Ao chegar ao cargo maior do executivo estadual em 1983, Gonzaga Mota, o Totó, teve que assumir obedecendo aos critérios políticos estabelecidos por força do Acordo de Brasília. Isso o obrigou a dividir os cargos do Governo em partes iguais e da seguinte forma: Virgílio Távora ficou com a Secretaria de Educação, Administração e Interior; Adauto Bezerra, com as pastas da Saúde, Agricultura e Assuntos Municipais; e César Cals ficou com a Casa Civil e a Procuradoria-Geral do Estado.
Evidentemente que isso dificilmente poderia dar certo, até porque Mota também não era tão tolo a ponto de aceitar o cargo de governador tão somente para assinar papéis. De início, ao nomear os secretários e assessores, colocou em posições estratégicas pessoas confiáveis, muitas delas disfarçadas de coronelistas.
”...o Governador coloca vários “olheiros” de sua inteira confiança em posições chaves da administração. (JUNIOR, Op. cit, p. 71)
Não demorou muito para começarem a rolar cabeças importantes dentro do governo, irritando principalmente os partidários virgilistas, queixando-se de que o governador havia traído o chefe.
Após várias demissões, o que intensificou a crise dentro do PDS — que já vinha sensivelmente abalado, motivado pela própria política que se desenrolava no país —, Gonzaga Mota rompeu de vez com os coronéis. Ele partiu com a intenção de fazer com que sua estrela brilhasse nacionalmente quando aderiu ao movimento pelas eleições presidenciais, unindo-se ao vice-presidente da república Aureliano Chaves e aos senadores Marco Maciel e José Sarney, com os quais fundou a Frente Liberal. Com essa atitude, demonstrava sua independência política, sendo o primeiro governador do país a se definir contra o governo central. Isso fez com que o presidente Figueiredo lhe escrevesse um bilhete de próprio punho, chamando-o de pseudoamigo, em virtude de, anteriormente, Mota ter se manifestado a favor de Mário Andreazza, candidato do PDS à presidência da república.
Começava, dessa forma, o surgimento de uma nova facção política comandada pelo governador do Estado. Afora os que foram convidados, também passaram a fazer parte do novo seguimento, engrossando a fileira gonzaguista, aqueles que sempre estão dentro de todos os governos, não importa quem seja o chefe.
Com a liberdade anunciada e a declaração pública do governador dando conta do rompimento político com os que o apadrinharam, teve início a queda do poder político dos coronéis, chegando ao fim o ciclo mais tirânico da história política cearense. Gonzaga Mota foi o último governante a transferir para o governo todos os compromissos impostos por patrocinadores de campanhas eleitorais.