PODEMOS CONSIDERAR que, pelo menos até as eleições de 1990, existia apenas um grupo político em Limoeiro do Norte, fecundado na mente do seu mentor principal, Gladstone Bandeira, a partir de 1982. Nem mesmo nas oito décadas de domínio dos Chaves, até 1954, foram tão explícitos os malabarismos pela ganância do poder. Até aquele instante, nenhum sistema político havia escrito com tanta competência uma história de desmandos administrativos.
Com o advento das eleições de 1990 (governador, deputados estadual e federal e senador), configurou-se o racha do grupo, que se dividiu em duas facções de peso. Nos extremos, Dilmar e Careca: protagonistas de uma cena política assistida pelos limoeirenses, em que ambos aproveitavam o momento para medir forças junto ao eleitorado.
Para que se desencadeasse realmente uma disputa política, foi preciso aparecerem candidatos à altura de uma briga que já se tornara um divisor de águas entre o eleitorado.
Foi assim que surgiu, no cenário político limoeirense, o delegado da Polícia Federal Paulo Carlos da Silva Duarte como postulante a uma vaga na Assembleia Legislativa do Estado do Ceará. Filiado ao PDC (Partido Democrata Cristão) e apoiado pela coligação PDT/PDC/PSDB, recebeu o apoio do prefeito João Dilmar, que se colocou à disposição de sua campanha. Aliás, essa passaria a ser a marca mais forte de Paulo Duarte: aproveitar-se da prefeitura para a angariação de votos.
Paulão, como era conhecido na juventude pelas ruas da cidade, passou a ser apresentado nos palanques como uma salutar novidade para Limoeiro. Propagava-se a sua condição de delegado da Polícia Federal e que ele voltava à sua terra imbuído do propósito de tornar-se seu legítimo representante. Numa visão estreita e bairrista dos patrocinadores de sua candidatura, havia uma conclamação aos eleitores para votarem em Paulão, defendendo que o eleitor tinha a obrigação de elegê-lo pelo fato de ser limoeirense. Criou-se, inclusive, a ideia de que quem não votasse nele seria considerado um "antilimoeirense".
Para confrontar as forças ditas “inovadoras” do prefeito e do seu candidato, o Careca, numa tentativa de sobrevivência política, ele resolveu lançar também um candidato e apelou para o seu primo, Pedro Julião, na disputa por uma vaga na Assembleia Legislativa. Como estratégia, levou para o palanque, em forma de propaganda eleitoral, os ressentimentos de ter sido desprezado pela administração, bem como o arrependimento de ter ajudado a eleger prefeito um homem que "mijou pra trás"[1], esperando com isso o reconhecimento dos eleitores.
Pedro Julião, por sua vez, sentindo-se discriminado pelo prefeito, acirrava as hostilidades entre este e o Careca. A sua candidatura serviria como um termômetro na medição do prestígio e da popularidade dos figurões de ambos os lados.
Nesses termos, aquelas duas candidaturas deram à eleição de 1990 as características de uma disputa que se igualou a uma campanha para prefeito, visto que se confrontavam nos palanques as duas maiores figuras da política local. Tratava-se de uma verdadeira demonstração de ambições pessoais que subestimava a capacidade do eleitorado e fazia da seriedade de uma eleição uma brincadeirinha, onde cada um queria tirar vantagens e mostrar quem era o mais forte.
O mais interessante era saber que, há menos de dois anos, estavam todos eles no mesmo palanque em recíprocos elogios, para, naquele momento, se mostrarem participantes de um jogo de enganação, voltando ao cenário de uma campanha para se digladiarem num total desrespeito ao eleitor.
O que se assistiu, na verdade, foi um espetáculo digno de cinema: de um lado, o prefeito Dilmar querendo passar para a população a ideia de que Paulo Duarte representava, naquele momento, a modernidade e o desenvolvimento — ou seja, era o nascer e a confirmação de uma nova fase para Limoeiro. Do outro, o Careca, proclamando-se traído e tentando, com isso, receber apoio do eleitorado para revidar a traição sofrida pelo grupo de Dilmar, a quem agora dizia que "tinha cara de boneca", e apresentando como solução o nome do seu primo Pedro Julião, atribuindo a ele, também, um passo largo para a modernidade e o desenvolvimento do município. Certo de que Julião seria bem votado, o Careca levou em conta o grande número de seguidores que lhe devotava fidelidade.
Após intensos conflitos, Paulo Duarte venceu, e Pedro Julião ficou na suplência. Esse primeiro embate fortaleceu a liderança de Dilmar e confirmou seu "carisma" popular, levando-o a acreditar que superara a popularidade de todos os rivais, inclusive a do anacrônico Careca.
A aliança entre Dilmar e Paulo Duarte parecia perfeita, até que ambos, mais na frente, se mostraram iguais na falta de propostas inovadoras, fazendo regredir o processo político local.
Ao agirem de maneira a não valorizar os votos recebidos, e apelando para a enganação e a conversa fiada, a dupla (Paulão & Dilmar) certamente sabia – assim como todos os maus políticos sabem – que, em vez de avaliar propostas de candidatos em campanhas, bem como analisar atitudes dos candidatos e até dos políticos em geral, o povo, na sua indiferença e alienação, prefere muitas vezes partir para opiniões particulares e, em casos mais extremos, até para as aparências físicas.
Paulo Duarte, depois de eleito, abandonou o seu partido inicial e filiou-se ao PSDB, já pretendendo sempre usar os favores dos governos estadual e municipal nas eleições que adviriam.
Como sua primeira demonstração de que iria realmente se transformar no político mais truculento da história de Limoeiro do Norte, voltou à praça pública e, quando se esperava um discurso de agradecimento aos que o elegeram, simplesmente fez um pronunciamento inflamado e dentro de um linguajar literalmente policialesco, atentando contra aqueles que não votaram nele, sobretudo os políticos que estiveram do lado contrário à sua candidatura. Com a aparência de quem havia ingerido algumas doses de uísque e fazendo um relato da dura campanha, escarneceu em suas palavras, principalmente da ex-candidata a prefeita Rita Peixoto, por ter apresentado aos eleitores, para ser votado em Limoeiro, um candidato de fora (Rita Peixoto, naquele ano, apoiou a candidatura de Antônio Tavares, natural do município de Barro), o que considerava inadmissível, especialmente porque existiam dois postulantes limoeirenses.
No capítulo cômico do seu discurso, chegou a se condoer da situação do seu pai, comparando-o a um “sebito”, fazendo uma analogia entre o pássaro e o físico magro do genitor, que estava naquele estado depois de tanto haver trabalhado em favor de sua eleição.
Ao assumir, transformou-se num oportunista de carteirinha; ou seja, dispôs-se à cata entre os órgãos do governo para ver se haveria algum benefício para Limoeiro e, ao descobrir a sua existência, assumia imediatamente a paternidade do benefício, dizendo à população ser um esforço unicamente seu.
Era tão evidente essa sua faceta demagógica e enganadora que os seus feitos no município nunca passaram de redes de energia elétrica para pequenas comunidades e microabastecimentos de água através de projetos do governo, sem falar no asfalto das estradas estaduais, tudo como sendo obra sua.
Em algumas rodas de conversa, quando se faziam referências aos benefícios que Paulo Duarte trouxera para Limoeiro do Norte, alguns mais exaltados chegavam a desafiar o deputado para mostrar uma única obra que tivesse sido comprovadamente construída com seu esforço.
Desde então, Paulão passou a demonstrar a verdadeira característica de sua personalidade política: quando falava, era um Paulo Duarte democrático, conciliador, negociador, enfim, imbuído de todas as qualidades de um líder; porém, longe do público, não passava de um ditador em suas posições políticas.
Aquela eleição trouxe outra novidade, inicialmente encarada como uma surpresa agradável e benéfica para Limoeiro do Norte. É que, postulando uma vaga para a Câmara Federal, apareceu o engenheiro Francisco Ariosto Holanda. Apresentando-se com o perfil de um candidato sério e sem o desenho do riso fácil, ele impressionou rapidamente os limoeirenses. Muito embora fosse desconhecido de grande parte da população — mesmo tendo sido Secretário da Indústria e Comércio do Estado do Ceará (1987-1989) —, foi identificado muito mais por pertencer a uma das mais tradicionais famílias limoeirenses, sendo filho de Chiquinho Holanda, portanto, sobrinho de Antônio Holanda, o “Velho da Serra”.
Iniciou sua carreira política com uma filiação de esquerda, ingressando no PSB (Partido Socialista Brasileiro). Para combinar com essa atitude, naquela eleição fez parte da coligação entre PT, PCB, PSB e PC do B.
Em seus pronunciamentos, esboçava uma ideologia contrária ao conservadorismo existente no sistema político brasileiro, posicionando-se tenazmente como um defensor incondicional de medidas inovadoras na solução dos problemas sociais. Assegurava firmemente que grande parte do problema crônico da miséria brasileira seria solucionada através do que ele chamou de “tecnologia de fundo de quintal”. Presumia que cada um, dependendo da vontade e do apoio do poder público, poderia criar o seu próprio negócio sem que, necessariamente, tivesse que virar um empresário.
Com a compreensão de uma considerável parcela dos limoeirenses, bem como com a ajuda das lideranças políticas locais, Ariosto foi eleito para o seu primeiro mandato (1991-1994). Sua primeira atuação na Câmara Federal foi obscura e sem qualquer ato que merecesse destaque, nem mesmo alguma atitude na defesa de suas ideias socialistas, tão divulgadas no decorrer da campanha.
Mais adiante, veremos que Ariosto Holanda não se preocupou em honrar os sufrágios recebidos dos limoeirenses no que diz respeito à sua atuação como político, o que causou decepção naqueles que acreditaram em sua performance de homem determinado a lutar pelas classes menos favorecidas.
Francisco Ariosto Holanda - Nasceu em Limoeiro do Norte no dia 11 de outubro de 1938 e faleceu em Fortaleza no dia 21 de março de 2026. Formado em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Ceará.
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Aqui nos cabe dizer, desde já, como surpreende a facilidade com que homens autoproclamados públicos manipulam a consciência das pessoas humildes. Na busca pelo poder, eles se imbuem de falsos propósitos, propagados como soluções para os graves e diversos problemas da população.
Para ocultar suas falsidades, agem com extrema cautela nas mensagens que emitem, focando apenas no objetivo que tanto almejam. Estarrece a frieza com que lapidam palavras que nada mais são do que uma profunda e bem maquinada demagogia eleitoreira. Uma vez conquistado o voto, recolhem-se a seus gabinetes e excluem de seus discursos justamente aqueles que lhes concederam esse status de nobreza.
Os acordos costurados e os conchavos feitos à revelia do povo criam, entre eles, uma dinâmica de divisão do patrimônio público em benefício próprio. Nesses arranjos, chegam ao descaramento de fixar parâmetros para a distribuição de cargos, onde cada interessado com poder de barganha abocanha sua fatia do bolo.
Invariavelmente, a desonestidade de enganar consciências abre portas para um ato ainda mais grotesco e repugnante: o desvio de dinheiro público. Quem descamba por esse caminho nos deixa perplexos pela capacidade de drenar os recursos do povo para contas particulares, sem o menor pudor de esconder o roubo de suas vítimas. Como se sentem esses homens em sua intimidade? Será que não sentem remorso por violar a fé alheia? O pior é constatar o óbvio: neles, o toque da consciência simplesmente não existe.









