sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Capítulo XX - 1990 – DISPUTA PARA A ASSEMBLEIA LEGISLATIVA E CÂMARA FEDERAL

PODEMOS CONSIDERAR que, pelo menos até as eleições de 1990, existia apenas um grupo político em Limoeiro do Norte, fecundado na mente do seu mentor principal, Gladstone Bandeira, a partir de 1982. Nem mesmo nas oito décadas de domínio dos Chaves, até 1954, foram tão explícitos os malabarismos pela ganância do poder. Até aquele instante, nenhum sistema político havia escrito com tanta competência uma história de desmandos administrativos.
Com o advento das eleições de 1990 (governador, deputados estadual e federal e senador), configurou-se o racha do grupo, que se dividiu em duas facções de peso. Nos extremos, Dilmar e Careca: protagonistas de uma cena política assistida pelos limoeirenses, em que ambos aproveitavam o momento para medir forças junto ao eleitorado.
Para que se desencadeasse realmente uma disputa política, foi preciso aparecerem candidatos à altura de uma briga que já se tornara um divisor de águas entre o eleitorado.
Foi assim que surgiu, no cenário político limoeirense, o delegado da Polícia Federal Paulo Carlos da Silva Duarte como postulante a uma vaga na Assembleia Legislativa do Estado do Ceará. Filiado ao PDC (Partido Democrata Cristão) e apoiado pela coligação PDT/PDC/PSDB, recebeu o apoio do prefeito João Dilmar, que se colocou à disposição de sua campanha. Aliás, essa passaria a ser a marca mais forte de Paulo Duarte: aproveitar-se da prefeitura para a angariação de votos.
Paulão, como era conhecido na juventude pelas ruas da cidade, passou a ser apresentado nos palanques como uma salutar novidade para Limoeiro. Propagava-se a sua condição de delegado da Polícia Federal e que ele voltava à sua terra imbuído do propósito de tornar-se seu legítimo representante. Numa visão estreita e bairrista dos patrocinadores de sua candidatura, havia uma conclamação aos eleitores para votarem em Paulão, defendendo que o eleitor tinha a obrigação de elegê-lo pelo fato de ser limoeirense. Criou-se, inclusive, a ideia de que quem não votasse nele seria considerado um "antilimoeirense".
Para confrontar as forças ditas “inovadoras” do prefeito e do seu candidato, o Careca, numa tentativa de sobrevivência política, ele resolveu lançar também um candidato e apelou para o seu primo, Pedro Julião, na disputa por uma vaga na Assembleia Legislativa. Como estratégia, levou para o palanque, em forma de propaganda eleitoral, os ressentimentos de ter sido desprezado pela administração, bem como o arrependimento de ter ajudado a eleger prefeito um homem que "mijou pra trás"[1], esperando com isso o reconhecimento dos eleitores.
Pedro Julião, por sua vez, sentindo-se discriminado pelo prefeito, acirrava as hostilidades entre este e o Careca. A sua candidatura serviria como um termômetro na medição do prestígio e da popularidade dos figurões de ambos os lados.
Nesses termos, aquelas duas candidaturas deram à eleição de 1990 as características de uma disputa que se igualou a uma campanha para prefeito, visto que se confrontavam nos palanques as duas maiores figuras da política local. Tratava-se de uma verdadeira demonstração de ambições pessoais que subestimava a capacidade do eleitorado e fazia da seriedade de uma eleição uma brincadeirinha, onde cada um queria tirar vantagens e mostrar quem era o mais forte.
O mais interessante era saber que, há menos de dois anos, estavam todos eles no mesmo palanque em recíprocos elogios, para, naquele momento, se mostrarem participantes de um jogo de enganação, voltando ao cenário de uma campanha para se digladiarem num total desrespeito ao eleitor.
O que se assistiu, na verdade, foi um espetáculo digno de cinema: de um lado, o prefeito Dilmar querendo passar para a população a ideia de que Paulo Duarte representava, naquele momento, a modernidade e o desenvolvimento — ou seja, era o nascer e a confirmação de uma nova fase para Limoeiro. Do outro, o Careca, proclamando-se traído e tentando, com isso, receber apoio do eleitorado para revidar a traição sofrida pelo grupo de Dilmar, a quem agora dizia que "tinha cara de boneca", e apresentando como solução o nome do seu primo Pedro Julião, atribuindo a ele, também, um passo largo para a modernidade e o desenvolvimento do município. Certo de que Julião seria bem votado, o Careca levou em conta o grande número de seguidores que lhe devotava fidelidade.
Após intensos conflitos, Paulo Duarte venceu, e Pedro Julião ficou na suplência. Esse primeiro embate fortaleceu a liderança de Dilmar e confirmou seu "carisma" popular, levando-o a acreditar que superara a popularidade de todos os rivais, inclusive a do anacrônico Careca.
A aliança entre Dilmar e Paulo Duarte parecia perfeita, até que ambos, mais na frente, se mostraram iguais na falta de propostas inovadoras, fazendo regredir o processo político local.
Ao agirem de maneira a não valorizar os votos recebidos, e apelando para a enganação e a conversa fiada, a dupla (Paulão & Dilmar) certamente sabia – assim como todos os maus políticos sabem – que, em vez de avaliar propostas de candidatos em campanhas, bem como analisar atitudes dos candidatos e até dos políticos em geral, o povo, na sua indiferença e alienação, prefere muitas vezes partir para opiniões particulares e, em casos mais extremos, até para as aparências físicas.
Paulo Duarte, depois de eleito, abandonou o seu partido inicial e filiou-se ao PSDB, já pretendendo sempre usar os favores dos governos estadual e municipal nas eleições que adviriam.
Como sua primeira demonstração de que iria realmente se transformar no político mais truculento da história de Limoeiro do Norte, voltou à praça pública e, quando se esperava um discurso de agradecimento aos que o elegeram, simplesmente fez um pronunciamento inflamado e dentro de um linguajar literalmente policialesco, atentando contra aqueles que não votaram nele, sobretudo os políticos que estiveram do lado contrário à sua candidatura. Com a aparência de quem havia ingerido algumas doses de uísque e fazendo um relato da dura campanha, escarneceu em suas palavras, principalmente da ex-candidata a prefeita Rita Peixoto, por ter apresentado aos eleitores, para ser votado em Limoeiro, um candidato de fora (Rita Peixoto, naquele ano, apoiou a candidatura de Antônio Tavares, natural do município de Barro), o que considerava inadmissível, especialmente porque existiam dois postulantes limoeirenses.
No capítulo cômico do seu discurso, chegou a se condoer da situação do seu pai, comparando-o a um “sebito”, fazendo uma analogia entre o pássaro e o físico magro do genitor, que estava naquele estado depois de tanto haver trabalhado em favor de sua eleição.
Ao assumir, transformou-se num oportunista de carteirinha; ou seja, dispôs-se à cata entre os órgãos do governo para ver se haveria algum benefício para Limoeiro e, ao descobrir a sua existência, assumia imediatamente a paternidade do benefício, dizendo à população ser um esforço unicamente seu.
Era tão evidente essa sua faceta demagógica e enganadora que os seus feitos no município nunca passaram de redes de energia elétrica para pequenas comunidades e microabastecimentos de água através de projetos do governo, sem falar no asfalto das estradas estaduais, tudo como sendo obra sua.
Em algumas rodas de conversa, quando se faziam referências aos benefícios que Paulo Duarte trouxera para Limoeiro do Norte, alguns mais exaltados chegavam a desafiar o deputado para mostrar uma única obra que tivesse sido comprovadamente construída com seu esforço.
Desde então, Paulão passou a demonstrar a verdadeira característica de sua personalidade política: quando falava, era um Paulo Duarte democrático, conciliador, negociador, enfim, imbuído de todas as qualidades de um líder; porém, longe do público, não passava de um ditador em suas posições políticas.
Aquela eleição trouxe outra novidade, inicialmente encarada como uma surpresa agradável e benéfica para Limoeiro do Norte. É que, postulando uma vaga para a Câmara Federal, apareceu o engenheiro Francisco Ariosto Holanda. Apresentando-se com o perfil de um candidato sério e sem o desenho do riso fácil, ele impressionou rapidamente os limoeirenses. Muito embora fosse desconhecido de grande parte da população — mesmo tendo sido Secretário da Indústria e Comércio do Estado do Ceará (1987-1989) —, foi identificado muito mais por pertencer a uma das mais tradicionais famílias limoeirenses, sendo filho de Chiquinho Holanda, portanto, sobrinho de Antônio Holanda, o “Velho da Serra”.
Iniciou sua carreira política com uma filiação de esquerda, ingressando no PSB (Partido Socialista Brasileiro). Para combinar com essa atitude, naquela eleição fez parte da coligação entre PT, PCB, PSB e PC do B.
Em seus pronunciamentos, esboçava uma ideologia contrária ao conservadorismo existente no sistema político brasileiro, posicionando-se tenazmente como um defensor incondicional de medidas inovadoras na solução dos problemas sociais. Assegurava firmemente que grande parte do problema crônico da miséria brasileira seria solucionada através do que ele chamou de “tecnologia de fundo de quintal”. Presumia que cada um, dependendo da vontade e do apoio do poder público, poderia criar o seu próprio negócio sem que, necessariamente, tivesse que virar um empresário.
Com a compreensão de uma considerável parcela dos limoeirenses, bem como com a ajuda das lideranças políticas locais, Ariosto foi eleito para o seu primeiro mandato (1991-1994). Sua primeira atuação na Câmara Federal foi obscura e sem qualquer ato que merecesse destaque, nem mesmo alguma atitude na defesa de suas ideias socialistas, tão divulgadas no decorrer da campanha.
Mais adiante, veremos que Ariosto Holanda não se preocupou em honrar os sufrágios recebidos dos limoeirenses no que diz respeito à sua atuação como político, o que causou decepção naqueles que acreditaram em sua performance de homem determinado a lutar pelas classes menos favorecidas.

Francisco Ariosto Holanda - Nasceu em Limoeiro do Norte no dia 11 de outubro de 1938 e faleceu em Fortaleza no dia 21 de março de 2026. Formado em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Ceará.

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Aqui nos cabe dizer, desde já, como surpreende a facilidade com que homens autoproclamados públicos manipulam a consciência das pessoas humildes. Na busca pelo poder, eles se imbuem de falsos propósitos, propagados como soluções para os graves e diversos problemas da população.
Para ocultar suas falsidades, agem com extrema cautela nas mensagens que emitem, focando apenas no objetivo que tanto almejam. Estarrece a frieza com que lapidam palavras que nada mais são do que uma profunda e bem maquinada demagogia eleitoreira. Uma vez conquistado o voto, recolhem-se a seus gabinetes e excluem de seus discursos justamente aqueles que lhes concederam esse status de nobreza.
Os acordos costurados e os conchavos feitos à revelia do povo criam, entre eles, uma dinâmica de divisão do patrimônio público em benefício próprio. Nesses arranjos, chegam ao descaramento de fixar parâmetros para a distribuição de cargos, onde cada interessado com poder de barganha abocanha sua fatia do bolo.
Invariavelmente, a desonestidade de enganar consciências abre portas para um ato ainda mais grotesco e repugnante: o desvio de dinheiro público. Quem descamba por esse caminho nos deixa perplexos pela capacidade de drenar os recursos do povo para contas particulares, sem o menor pudor de esconder o roubo de suas vítimas. Como se sentem esses homens em sua intimidade? Será que não sentem remorso por violar a fé alheia? O pior é constatar o óbvio: neles, o toque da consciência simplesmente não existe.

[1] Faltou com a palavra dada.

Capítulo XIX - DILMAR – O “FILHO INGRATO” DO CARECA – UMA ADMINISTRAÇÃO DE AMIGOS

DILMAR INICIOU SEU MANDATO com ares de um governante simpático e carismático, exibindo a performance ideal para administrar Limoeiro do Norte naquele momento. Chegou à chefia do Executivo Municipal com o auxílio considerável de Careca e ganhou, através da popularidade deste, o reconhecimento do povo; caso contrário, dificilmente teria sido eleito.
Pretendendo dar ao seu governo uma conotação de modernidade, criou um slogan sugestivo para sua administração, intitulado "Um Novo Momento", indicando que iria conduzir o município a uma fase de pleno desenvolvimento. Com isso, tentava repassar para a população a ideia de que se enterrava, de uma vez por todas, um passado de administrações arcaicas — inclusive a do seu antecessor, que em nada serviria como exemplo e modelo administrativo.
Imediatamente, fez-se rodear de “amigos” por todos os lados: primeiro, por aqueles que o admiravam como uma “nova estrela” na política limoeirense; e, depois, por aqueles que transitam por todas as administrações, não importando quem tenha sido eleito.
Mesmo antes de assumir, necessitando ter do seu lado a maioria dos vereadores e visando abrigar no legislativo municipal alguns de seus seguidores, aproveitou-se de uma brecha na Constituição Federal. Ele incentivou que os parlamentares aprovassem uma emenda, elevando o número de assentos na Câmara de quinze para dezenove. Isso lhe garantiria, no começo de sua gestão, o apoio da maioria do parlamento — naquela época, já reconhecidamente fisiológico. A intenção maior, entretanto, era acomodar na Casa Legislativa alguns de seus companheiros, dentre eles o amicíssimo Mauro Costa.
Ao tomar posse do maior cargo do executivo municipal, montou uma equipe de assessores inteiramente nova e composta, em sua maioria, por pessoas que nunca tinham sequer participado de qualquer processo político, a não ser daquele que o elegeu. Em virtude disso, criou uma administração aparentemente aberta a todas as opiniões; todavia, não passou de uma espécie de colegiado entre parceiros, em que cada um lançava mão do seu quinhão na fatia do bolo.
Em poucos dias de governo, Dilmar ousou expulsar, literalmente, da prefeitura os parentes do Careca e, a partir de então, ficou configurada a briga entre os dois.
Ao cometer aquele ato de ousadia, em vez de mostrar que se tratava de uma atitude moralizadora, Dilmar não fez mais do que evidenciar uma perseguição àquele que o elegeu, errando ao fazer o mesmo quando colocou nos cargos importantes da prefeitura exatamente seus amigos e parentes, dando continuidade ao empreguismo e nepotismo reinantes no executivo municipal.
Por sua vez, demonstrando revolta e dizendo-se apunhalado pelas costas, Gladstone não poupava críticas ao prefeito, movido tão somente por ressentimentos. A partir de então, passou a chamá-lo de “cara de boneca”; todavia, mal sabia que estava recebendo o troco por parte daquele a quem sempre considerou um incapacitado para exercer o cargo de prefeito.
Em pouco tempo, também ingressou no barco da revolta o vice-prefeito Pedro Julião. Sentindo-se igualmente discriminado e jogado de escanteio, solidarizou-se com o primo, passando também a fazer oposição a Dilmar, criticando-o e tachando-o de traidor.
Para justificar sua identificação com os jovens e com o esporte, Dilmar idealizou a construção de um ginásio esportivo nos mesmos moldes de modernidade que vinha pretendendo dar ao seu governo. Justificando que o município era exemplo de esportividade até mesmo para o Estado do Ceará pela realização dos Jogos Olímpicos Comunitários, resolveu valorizar esses jogos, hipotecando-lhes total apoio e prometendo construir, inclusive, uma praça esportiva à altura daquela competição.

Competição esportiva que acontece anualmente desde 1984 entre as comunidades do município onde disputam diversas modalidades. 

Para impressionar a juventude desportista, mandou confeccionar uma maquete e expô-la em praça pública, indicando que seria uma obra ousada. Uma vez concluída, Limoeiro teria o mais moderno ginásio de esportes do Nordeste.
A construção se iniciou em um clima de expectativa e com a promessa de ser inaugurada em breve. No entanto, o que se viu foi uma obra inacabada e sobrecarregada de boatos sobre o desvio de pelo menos três verbas destinadas à sua construção. Existe, inclusive, uma versão de que o então governador do Estado, Ciro Gomes, surpreso por aquela praça esportiva ainda não ter sido concluída — mesmo depois de haver repassado recursos para tal —, resolveu inaugurá-la assim mesmo, o que realmente aconteceu.
Ao assumir o governo municipal, Dilmar encontrou uma prefeitura com máquinas, equipamentos e outros veículos que serviram durante toda a administração, mas não se preocupou em conservá-los. Pelo contrário, ao entregá-los ao seu sucessor, passou uma frota praticamente sucateada, finanças no vermelho e um volume de boatos jamais visto sobre o uso indevido do dinheiro público, a exemplo do ginásio coberto, que tornou visível aos olhos de todos tamanha imprudência administrativa.
Durante sua gestão, teve que enfrentar uma greve dos servidores públicos, a primeira na história do município. Contrariando a gestão “democrática” que apregoava, o seu governo se negou a receber os líderes grevistas para negociar as reivindicações, chegando inclusive a agredir um deles e solicitando a presença policial para afastá-los da frente do prédio da prefeitura.
De outra feita, num surto de total desequilíbrio para um chefe do Executivo municipal, ao receber críticas do polêmico Nicanor Linhares, ele foi visto descendo as escadarias do prédio da prefeitura com o cinturão na mão, dizendo que “ia dar uma surra em Nicanor”. O fato não aconteceu em virtude da intervenção de algumas pessoas, que o alertaram para a grande repercussão negativa que isso traria ao governo municipal e a ele pessoalmente.
O que havia sido divulgado durante a campanha pelos adversários — de que Dilmar não residia em Limoeiro — se confirmou quando o povo ficou sabendo que seu endereço era mesmo em Fortaleza. Ele vinha para o município apenas nos finais de semana; já nos outros dias, comparecia somente em casos em que fosse necessária a presença do prefeito.
Dentre os assessores mais próximos, estava o secretário de Administração, cargo que recaiu sobre a pessoa de Maílson Cruz, figura conhecida por poucos, mas que em pouco tempo começou a ter suas qualidades profissionais, bem como sua aguçada inteligência, exaltadas.
A partir dali, Maílson tornou-se uma pessoa forte nas decisões do município, e as diretrizes administrativas obrigatoriamente tinham de passar por seu crivo.
Foi logo transformado no super-homem da administração, passando a ser considerado o responsável por todas as realizações políticas e administrativas, desempenhando muito bem esse papel, sempre com o respaldo e a anuência do prefeito.
Apesar de ser visto por alguns como uma figura escamosa dentro da administração, soube usar sua inteligência para agradar aos bajuladores do prefeito com pequenos favores, e ao próprio chefe com a confiança no desempenho de seu trabalho. Evitou, com isso, alguns atritos e ciúmes, além do evidente serviço de puxa-saquismo dentro do próprio grupo.
Sua poderosa atuação naquela administração nos faz lembrar Maquiavel:
“Aquele que tem o Estado de outrem em suas mãos não deve pensar nunca em si, mas sim e sempre no príncipe (...)” (MAQUIAVEL, 1967, p. 38).

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Capítulo XVIII - ELEIÇÃO DE 1988

O VICE-PREFEITO JOÃO DILMAR chegou ao cargo público pelo caminho que muitos gostariam de chegar, ou seja, recebeu de presente a cadeira de vice-prefeito sem mover uma palha e ainda sem nenhuma representatividade legitimamente popular, com o mérito apenas de pertencer a uma família que devotou total fidelidade a Manuel de Castro, razão pela qual tornou-se afilhado político de dona Osmira (esposa de Manuel de Castro), que o indicou para vice-prefeito no pleito de 1982.
Na qualidade de vice-prefeito, permaneceu durante todos os seis anos de gestão totalmente obediente ao Careca, para não perder o apoio da máquina administrativa nas eleições que adviriam e nas quais pretendia ser candidato.
Mostrando-se simpático aos olhos do povo, sentiu que tinha condições de conquistar parte do eleitorado esboçando apenas um sorriso fácil, certo de que o povão se inclina a valorizar muito mais a aparência do que o conteúdo. Percebeu também que o eleitor adora tapinhas nas costas e gosta de ser notado, razão pela qual nunca deixou de cumprimentar quem quer que fosse, até mesmo um adversário, absorvendo assim uma boa dose de popularidade.
Ao aproximar-se a eleição de 1988, o Careca estava no seu auge, com uma aceitação nunca alcançada por um político limoeirense, sendo considerado pela massa o prefeito mais competente e o administrador público mais eficiente dentre todos os que passaram pela prefeitura. Além disso, mostrava-se completamente imbatível naquela eleição. Obviamente, se fosse por ele, jamais a prefeitura seria entregue a outra pessoa, porém, sabendo ser impossível até mesmo a possibilidade de poder passá-la a um parente próximo, pensou em transferi-la para um elemento que mostrasse ser de sua inteira confiança, na pretensão de continuar, de certo modo, com o seu controle.
O nome de Dr. João Dilmar da Silva, no seu entender, encaixava-se dentro do perfil do que ele imaginava para seu sucessor, levando em consideração que Dilmar passou o tempo todo sem contestar qualquer dos seus atos e obedecendo cegamente às suas orientações.
Tanta certeza tinha o Careca de que Dilmar não passava de um fracote, que muitas vezes, quando a ele se referia, o chamava de “garotão” ou “meninão”, insinuando que o mesmo não tinha capacidade para administrar o município. Portanto, apostar no seu fracasso como administrador poderia lhe render muito politicamente no futuro.
Diante disso, e acreditando que Dilmar seria inteiramente manobrável — também para cumprir um suposto acordo para a eleição que o fez prefeito, pretendendo ainda continuar usufruindo e controlando a prefeitura —, o Careca estabeleceu algumas exigências. Uma delas era permitir que seus filhos continuassem exercendo os importantes cargos na administração.
Certamente seguindo o adágio popular de que “apanham-se moscas com mel e não com vinagre” e no seu estilo de com tudo concordar, Dilmar aceitou essa exigência, além das outras, convencendo o Careca de que, em sendo eleito, atenderia às cláusulas do acordo.
O Careca exigiu ainda que o candidato a vice-prefeito fosse por indicação sua e colocou o seu primo Pedro Julião Bandeira, outra figura, no seu entender, domesticável e de fácil comando.
Tão grande era a popularidade do Careca naquele momento, que muitos imaginavam não haver quem tivesse a coragem de concorrer com aquele que fosse apoiado por ele, mas o que se viu foi o surgimento de nada menos do que mais quatro concorrentes.
Para manter a representação municipal, a oposição, em nome dos partidos PDT/PT/PSB, lançou o nome de José Orismilde Moura (PDT), fazendo chapa com Carlos Adalberto Celedônio (PT). É bom lembrar que, mesmo com a pouquíssima vantagem em relação às outras candidaturas, a coligação oposicionista conseguiu realizar um comício na Praça da Catedral, onde o número de pessoas presentes foi surpreendente, levando-se em conta o tamanho dos partidos que compunham aquela aliança e as forças políticas adversárias.

Voltou ao cenário político, tentando testar a aceitação do seu nome ao vinculá-lo à eleição passada, Wilson Craveiro Holanda, tendo como vice o professor Arnóbio Santiago, neto do ex-prefeito Sabino Roberto.
Também se lançou candidato Sebastião Maia de Andrade, juntamente com Wilson Estácio Filho.

Por fim, apareceu o nome da vereadora Rita de Cássia Freitas Peixoto juntamente com o do Dr. Reuber Tadeu Vieira e Silva, apresentando-se como a chapa que reunia as melhores condições para combater o poderio e a popularidade do Careca.
Quando a campanha chegou às ruas, notou-se de forma evidente a superioridade do grupo da prefeitura sobre todos os outros.
A campanha iniciou-se visivelmente desigual: de um lado, algumas representações tentando dar ao eleitor uma opção diferente; do outro, um grupo fortemente equipado com um palanque sustentado pelo dinheiro do próprio povo.
Foi a partir daquela eleição que tiveram início as contratações de conjuntos musicais e artistas diversos para atrair gente para os comícios – os denominados showmícios –, fazendo-nos crer que os candidatos já não acreditavam tanto em suas próprias mensagens.
Muito embora existissem graves suspeitas sobre os desmandos administrativos, o Careca, com seu linguajar distorcido de analfabeto, gritava nos microfones do seu palanque como sendo o melhor de todos, mostrando uma superioridade esmagadora e imbatível. Arrogantemente, se autodenominava o político de maior peso eleitoral, arrotando prepotência e dizendo que “ninguém era mais do que ele e nem nunca seria”.
Já o seu candidato, João Dilmar da Silva, um verdadeiro fracasso em termos de oratória, através de um discurso mal-engendrado, fastidioso e inopioso, elogiava e colocava o nome do Careca acima de tudo e de todos, numa demonstração de total reverência, exaltando suas qualidades de grande líder e administrador.
Mesmo com a certeza visível diante de uma vitória histórica em termos de maioria de votos, o palanque da prefeitura não poupava deboches, chacotas e escárnios sobre a vereadora Rita Peixoto. Ela teve o seu nome difamado impiedosamente, espalhando-se dúvidas, inclusive, sobre sua feminilidade e fidelidade ao seu marido. A situação piorou quando, em um de seus pronunciamentos, assimilou o número “11” do cavalo no jogo do bicho ao “11” do seu adversário. Por isso, foi revidada com uma resposta de duplo sentido, quando passaram a tratá-la como uma “égua” que iria ficar sempre debaixo do cavalo. Além disso, teve que enfrentar a sociedade machista pela sua condição de mulher.
Uma das bandeiras da campanha de Rita era tentar convencer a população de que o candidato do Careca sequer tinha residência fixa em Limoeiro do Norte, revelando para o povo que o endereço dele era em Fortaleza e era de lá que pretendia administrar o município.
Imaginando ainda que estivesse contando com o apoio do governador Tasso Jereissati, Rita Peixoto promoveu um comício que foi marcado para ter início às oito horas da manhã de uma quarta-feira, na praça da Catedral. Para o desagrado dos que faziam a sua campanha e para a satisfação dos adversários, Tasso Jereissati chegou quando já passava do meio-dia, onde uma multidão sob um sol abrasador o aguardava. Ao chegar, ele foi vaiado pelos seguidores de Dilmar. No palanque, Tasso se pronunciou friamente, talvez porque já soubesse, através de pesquisas, que Rita estava derrotada. Mesmo assim, tentou emocionar os presentes, querendo passar para a multidão que estava ali com o mais alto espírito democrático e, referindo-se aos adversários, citou a frase célebre atribuída a Voltaire: "Não concordo com uma só palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o direito de dizê-la”.
Mesmo com a vinda de Tasso, nada impediu que Rita fosse fragorosamente derrotada. Os resultados da eleição foram:
  • João Dilmar da Silva – 10.186 votos (53%)
  • Rita de Cássia F. Peixoto – 4.588 votos (24%)
  • Wilson Craveiro Holanda – 1.189 votos (8%)
  • Sebastião Maia de Andrade – 907 votos (7%)
  • José Orismilde Moura – 646 votos (5%) (http://www.tre-ce.gov.br/tre/eleicoes – em 22.10.2002).
Aquela maioria esmagadora confirmou a força do Careca e provou que, sem ela, Dilmar jamais teria conseguido ser tão bem votado.
Mas todo aquele espetáculo, sobretudo no palanque oficial, vivenciado e aplaudido por uma massa completamente desinformada, não passou de um espetacular cenário de fingimento, comprovado pelo rompimento entre Careca e Dilmar logo após a eleição.
Foi com aquela eleição que a situação política de Limoeiro do Norte tendeu a se agravar cada vez mais. Doravante, veremos que as ambições pessoais, as brigas e as futricas se intensificaram entre os que se diziam representantes do povo.
Outro fato digno de registro naquela eleição foi a candidatura a vereador de Joaquim Firmino Neto, mais conhecido por Joaquim Louro. Diante das figuras inexpressivas que se apresentavam nos palanques, Joaquim Louro destacava-se pela forma como se dirigia ao povo com um discurso grotesco e extremamente ridículo para um candidato, que em pouca coisa se diferenciava do Careca e até mesmo do candidato Dilmar.
Todavia, como uma resposta para a esculhambação que ora se apresentava, pela falta de propostas dos candidatos a vereador e pelo descrédito dos eleitores no poder legislativo municipal, Joaquim Louro passou a ser o candidato mais ovacionado de todos, colocando a sua candidatura em um surpreendente crescimento. Essa expressão “inconsciente” do povo causou uma enorme ciumeira nos outros candidatos, sobretudo quando sentiram que as manifestações eram verdadeiras e que Joaquim Louro poderia ser o vereador mais votado do município.
Passaram, então, a perseguir os votos que poderiam ser dele. No final das contas, Joaquim Louro, que já tinha a sua eleição como favas contadas, alcançou apenas uma distante suplência com os 245 votos conseguidos.
A Câmara ficou assim constituída:
  1. Ademar Celedônio Guimarães
  2. Antônio Conrado Maia
  3. Antônio Moura da Costa
  4. Antônio Pergentino Nunes
  5. Carlos Marcos de Souza Nunes
  6. Elias Correia Lima
  7. Francisco Assis de Freitas
  8. Francisco Maurício Rodrigues
  9. Francisco Rodrigues Neto
  10. Gaudêncio Roque do Carmo
  11. José Maria de Andrade
  12. José Valce de Castro Moura
  13. Marcos Coelho
  14. Maury Oliveira Freitas
  15. Raimundo Nauto de Oliveira
  16. Raimundo Nonato da Costa
  17. Raimundo Nonato de Moura
  18. Raimundo Valdi Chaves
  19. Rufino Rubio Vieira e Silva
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A derrota de Rita Peixoto demonstrou toda a força do Careca naquele momento e, indiscutivelmente, teria elegido qualquer nome que fosse por ele apoiado. Também deixou bastante claro como se processavam as campanhas políticas em Limoeiro, percebendo-se que as personagens daquele jogo integravam o mesmo grupo. Em 1982, Rita Peixoto foi uma fortíssima aliada do Careca e acredita-se que, sem o seu apoio, a eleição teria sido ainda mais difícil.
Naquela campanha (1982), Rita e Laurinho estavam de tal maneira engajados na eleição do Careca que montaram até um trio elétrico – novidade na época – e Rita, então candidata a vereadora, percorria festivamente as ruas da cidade. Nesse caso, também fizeram parte da política limoeirense nos mesmos moldes de todos os outros, sem moral, portanto, para romperem de forma confiável perante o povo.
Aliás, a família Freitas Peixoto, através de Laurinho, irmão de José Hamilton, foi sempre aliada de Manuel de Castro, portanto também beneficiada com os cargos públicos que Castro costumava distribuir entre seus seguidores.

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A trajetória política do PT em Limoeiro do Norte começou em 1985. No início, o partido surgiu como uma alternativa para acolher a insatisfação popular contra o sistema. Porém, com o tempo, o rumo mudou. Mesmo crescendo junto com a força do partido no país, a sigla local passou a atuar apenas como legenda de apoio — adotando uma postura pragmática. Embora tivesse potencial para crescer sozinho desde a fundação, o diretório municipal preferiu se unir aos grupos políticos tradicionais, criando alianças consideradas desnecessárias.
O histórico do partido revela uma trajetória marcada pela ausência de um projeto de expansão. Em âmbito local, as principais lideranças — restritas à família Pinheiro — não priorizaram a construção de uma oposição robusta capaz de enfrentar a estrutura dominante no município. Com isso, distanciaram-se das diretrizes nacionais e optaram por conchavos com adversários que deveriam combater politicamente.
Essa postura pragmática e o distanciamento dos objetivos estatutários da sigla remontam às origens do partido no município. Um exemplo emblemático ocorreu justamente na campanha municipal de 1988, que teve como protagonistas os candidatos a prefeito e vice-prefeito, respectivamente, José Orismilde (PDT) e Carlinhos Celedônio (PT).
Soube-se, entretanto, que logo após o pleito ficou constatado que a militância petista — e notadamente a sua Executiva — preteriu o candidato da própria coligação. Na ocasião, o grupo teria direcionado seus votos ao candidato adversário, o que representou uma quebra de compromisso com os eleitores e com os militantes que se engajaram na campanha contra a situação vigente.
Essa atitude sinalizou o pragmatismo político que o PT adotaria dali em diante. Ao longo de sua trajetória local, a legenda passou a evitar o lançamento de candidaturas próprias majoritárias, preferindo articular coligações estratégicas. Para a Executiva do partido, a prioridade concentrava-se em assegurar uma cadeira na Câmara Municipal e negociar cargos na administração pública.
Foi nesse cenário que, em 1988, o vereador José Marcos Castro Coelho conquistou seu mandato. Antes de se eleger, Coelho apresentava-se como um autêntico político de esquerda. Contudo, exerceu um mandato comedido e rapidamente integrou-se ao sistema político tradicional, abandonando o seu projeto ideológico inicial.

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Naquele mesmo ano de 1988, os microfones da Rádio Educadora Jaguaribana ganharam a voz de uma das figuras mais polêmicas da história do rádio local: Nicanor Linhares Batista. Vindo dos seringais da Amazônia, o controvertido radialista não demorou a se transformar em um mito em todo o Vale do Jaguaribe, tornando-se peça central e influente na política limoeirense.
Com o aval do proprietário da emissora, Nicanor adotou um tom combativo. Suas críticas miravam a classe política de forma indiscriminada. Bastante estratégico, ele utilizava o poder da mídia para inflamar desavenças entre os líderes locais, conseguindo, logo em seguida, colocar-se no papel de mediador dos conflitos que ele mesmo criava.
Mais temido do que admirado por sua metralhadora verbal, Nicanor calava adversários pelo receio de sua "língua afiada". Políticos de Limoeiro do Norte — e até deputados e lideranças estaduais — faziam questão de manter proximidade, com tapinhas nas costas e uma relação de braços dados com o comunicador, alimentando um nítido jogo de cumplicidade.
O sucesso estrondoso nos microfones impulsionou rapidamente o patrimônio do radialista. Alavancado por índices recordes de audiência, ele transformou a comunicação em um negócio altamente lucrativo. Estimativas da época apontam que, no horário de pico do meio-dia, Nicanor falava para um público de mais de 300 mil ouvintes em toda a região.
O fenômeno Nicanor Linhares abre espaço para uma reflexão sobre o papel social e o poder do rádio na construção da opinião pública. Em Limoeiro do Norte, as duas principais emissoras locais carregam em suas trajetórias um histórico marcado por grandes serviços prestados à comunidade, oscilando entre o assistencialismo, a utilidade pública e a crônica política.

A Rádio Vale de Jaguaribe foi instalada em 21/01/1956 e a Rádio Educadora Jaguaribana em 18/03/1962.

Com o passar do tempo, as emissoras de rádio perderam o caráter estritamente social e assumiram um foco eminentemente comercial. Inicialmente, os antigos proprietários — descompromissados com o jornalismo e com a gestão eficiente — repassaram o controle das empresas a investidores de fora de Limoeiro do Norte, cujos interesses limitavam-se à alta lucratividade.
Nesse cenário de transição, Nicanor Linhares desempenhou papel central na mudança do perfil da radiofonia jaguaribana. A introdução de programas políticos com forte apelo comercial gerou um impacto financeiro que transformou as expectativas do setor. Atraídos pela rápida ascensão econômica de Linhares, outros profissionais do rádio passaram a replicar o modelo, o que consolidou o debate político na grade de programação local. Em contrapartida, as atrações populares e musicais perderam espaço, preteridas por gerarem retornos financeiros mais baixos e lentos para proprietários e radialistas.