sábado, 27 de junho de 2026

AO LEITOR

A HISTÓRIA POLÍTICA DE LIMOEIRO DO NORTE é recheada de acontecimentos que revelam a forma como o processo se desenvolveu ao longo de mais de um século. Desde o domínio da família Chaves, iniciado em meados do século XIX, os acordos e conchavos fizeram e ainda fazem parte das negociações para a manutenção do poder.
Se a oligarquia Chaves durou quase um século e já se passaram várias décadas após a sua queda, é possível perceber que a estrutura de poder se manteve. O comando foi apenas transferido, dando continuidade a interesses individuais e de grupos.
A ascensão de Manuel de Castro no processo político local, a partir da queda dos Chaves em 1954, também caracteriza uma oligarquia (governo de poucos), perpetuando um modelo que perdura até os dias atuais. Curiosamente, nenhum dos atuais políticos limoeirenses — com raras exceções — pode se dar ao luxo de dizer que não tem origem no proselitismo político de Manuel de Castro. Mesmo tendo encerrado sua vida pública em 1982, na qualidade de governador do Estado — atividade que exerceu por quase quatro décadas —, ele deixou um legado que deverá permanecer no cenário local por algum tempo.
Os novos nomes que passaram a dominar o poder a partir de 1982 iniciaram o que podemos chamar de um novo ciclo político. Foi a partir de então que a política, se já era voltada para interesses sombrios, tornou-se ainda pior, pois as brigas, as fofocas, as futricas e, sobretudo, os interesses pessoais ficaram mais evidentes. “Brigar” hoje e “unir-se” amanhã tornou-se apenas uma questão de conveniência, dependendo da ocasião.
As últimas décadas foram marcadas por um jogo de cumplicidade entre os políticos limoeirenses. Embora, em determinados momentos, eles tenham se proclamado “amigos” apenas para enganar o povo, a amizade nunca existiu de fato. O que houve foi um estado de conexão profundamente personalizado e, apesar de tudo isso, coexistia entre eles uma visível desconfiança.
A união propalada durante as campanhas eleitorais nunca representou os anseios do povo, que foi propositalmente colocado no jogo cruel e injusto da política por eles praticada. Aqui, cabe muito bem uma citação de Étienne de La Boétie, em seu Discurso da Servidão Voluntária:
“Entre os maus, quando se juntam, há uma conspiração, não uma sociedade; eles não se entre-apóiam, mas se entre-temem. São cúmplices”.
Os atos político-administrativos ocorridos a partir de 1982 até os dias de hoje têm sido os mais absurdos de toda a história de Limoeiro do Norte. Os mais escabrosos boatos de corrupção, os mais desavergonhados conchavos políticos e os maiores descalabros administrativos tornaram-se tão habituais que viraram rotina, de tal forma que a população passou a considerá-los como ações normais.
Tanto cultuam os atos ilícitos que conseguem fazer com que boa parte da população passe a desacreditar da existência de pessoas sérias capazes de administrar o que é do povo com honestidade. O que mais se ouve nas rodas de conversa, com bastante frequência, é que “todo político é ladrão, todos são iguais, basta que cheguem ao poder e farão a mesma coisa”.
O ponto a que chegou a consciência popular, como resultado da política implantada nos últimos quarenta anos, tornou-se bastante favorável aos maus políticos. Para eles, o que interessa é que o povo continue cada vez mais alienado e sem condições de fazer uma análise crítica da situação, optando sempre pelo pior — o que é bem melhor para eles.
Todos eles, da mesma cepa, praticam e disseminam até hoje a semente nociva da politicagem e, com isso, conseguem sobreviver politicamente a ponto de superar até mesmo as suas próprias contrariedades.
O agravante é que parte da população, aquela que percebe como o jogo político é praticado, sente-se impotente diante do quadro atual. Sem nada poder fazer para conter a facilidade com que agem os pseudopolíticos, essa parcela assiste à falta de escrúpulos com que eles mostram a cara ao povo, sempre com a empáfia de grandes líderes.
Os conchavos e os acordos firmados a cada eleição são tão deslavados que sequer se preocupam em ser escondidos da vista da população. Isso não se restringe apenas ao uso indevido do dinheiro público, mas a um absurdo ainda maior: a falta de coerência, de sinceridade e de respeito para com o limoeirense.
A propósito: haverá ato de corrupção maior do que corromper consciências?
MF

XVIII - O SEGUNDO MANDATO DE DILMAR

APÓS TER RECEBIDO uma expressiva votação e criado uma espécie de alívio em grande parte do eleitorado que queria ver Arivan fora da prefeitura, Dilmar assumiu no dia 1º de janeiro de 2005, prometendo um governo popular.
Porém, antes de comparecer à Câmara Municipal para tomar posse no governo, um problema teve que ser resolvido: o surgimento de um impasse para a eleição da presidência da Casa. O "grupão" havia acertado que Marduque Duarte seria eleito para presidir o Legislativo, mas Lúcia Baltazar, incentivada por adversários — sobretudo os vereadores eleitos pela ala de Arivan Lucena —, manifestou, de última hora, sua intenção de também concorrer. O fato gerou um momento de grande turbulência, sendo preciso mobilizar tanto o prefeito eleito quanto os deputados Paulo Duarte e Ariosto Holanda, que precisaram intervir diretamente nas negociações para convencer a vereadora a desistir da candidatura. A verdade é que a disposição de Lúcia dividia de tal forma os votos que corria o risco de Marduque ser derrotado, o que atrapalharia o acordo estabelecido ainda em campanha.
Finalmente, tudo foi resolvido, e Marduque foi eleito presidente do Legislativo municipal.
Com semblante sorridente e pretencioso, voltava à prefeitura montado nos defeitos da administração passada, insinuando que Limoeiro havia, naquele momento, saído de uma situação de caos.
A escolha do secretariado não apresentou nenhuma novidade. A lista foi divulgada por ele próprio, um dia antes da posse, pela Rádio Vale do Jaguaribe, e dentre os nomeados estava o radialista Rosálio Daniel para a Secretaria de Cultura.
O discurso de posse na Câmara de Vereadores foi recheado de contornos inovadores, gabando-se como o melhor para Limoeiro. Sem se preocupar com a demagogia da qual sempre se utilizou para enganar os limoeirenses, quando se referiu a Ariosto Holanda e Paulo Duarte, chamou-os de “meus deputados”, exaltando as qualidades de ambos.
Convocou a população para participar do seu governo, dizendo que, a partir daquele momento, o prefeito não tinha adversários e estavam todos — poder público e população — imbuídos do propósito de desenvolver o município.
Dilmar iniciou seu governo praticando o nepotismo ao nomear sua esposa, Dra. Célia, para a Ação Social, e seu irmão, Deuzimar, para a Secretaria de Agricultura.
Para abrigar dois suplentes na Câmara de Vereadores — Chico Baltazar e Elias Correia —, ele convidou os vereadores eleitos José Lins Guerra (Eliézer) para a pasta de Obras e Gladis Bandeira para a Chefia de Gabinete.
Desta vez, o Dr. Maílson Cruz ficou fora do secretariado. Entretanto, seu braço direito, Mâncio, foi nomeado para a Secretaria de Administração e Finanças, o que confirmou os boatos de que Maílson seria o real responsável pelas finanças do município.
Se Maílson não quis assumir nenhuma secretaria, deduz-se que a sua atuação na administração era muito mais eficiente ficando do lado de fora. Falavam ainda de que fora ele quem determinara a indicação de todos os secretários.
O slogan criado para identificar a administração, com a frase “É Tempo de Paz e Desenvolvimento” e o desenho artístico de uma pomba, sugeria pretensiosamente que Limoeiro encontrara novamente o caminho da paz e da tranquilidade.
Com o apoio da Rádio Vale do Jaguaribe, começou uma onda de propagandas do novo governo, noticiando uma administração inovadora, moderna, honesta e democrática.
O império do empreguismo, tão criticado durante a campanha, tornou-se, logo de início, uma prática à vista de todos. O prefeito esquecia-se de que, por algumas vezes, chegou a dizer que “o dinheiro da prefeitura não dava para nada porque Arivan pulverizava-o entre os seus protegidos”. Mas, mal sentou no trono, apenas tirou os “dela” e colocou os “dele”, gerando a primeira insatisfação em seu próprio eleitorado.
A partir de então, configurou-se um empreguismo exagerado e um nepotismo deslavado, quando abrigou na prefeitura parentes e aderentes, além do favorecimento aos aliados de plantão.
Não tardou para aparecerem os primeiros boatos de desvio de dinheiro público, e algumas obras e ações já se iniciavam recheadas de gravíssimas suspeitas.
Inventou um concurso público, numa tentativa de camuflar a onda de empreguismo, mas sofreu fortes denúncias logo na divulgação do edital por parte de alguns vereadores de oposição. Estes levantaram dúvidas sobre a lisura do processo de licitação por conta da empresa vencedora, correndo à boca pequena que a citada empresa pertencia ao próprio Maílson Cruz e que a licitação não passou de uma farsa.
Não obstante as denúncias, o concurso foi realizado e estas aumentaram consideravelmente após a sua aplicação. Desta vez, a população recorreu ao Ministério Público, denunciando falcatruas e favorecimentos. “Estranhamente”, o Ministério Público ignorou todas as denúncias sem se dar ao trabalho sequer de apurá-las e homologou-o como legal.

Começou também a enfrentar uma forte oposição por parte dos vereadores Nonato Pinheiro e Heraldo Holanda, quando denunciaram de forma contundente a estrada que liga o Arraial à estrada que de Quixeré, mostrando em vídeo que foi colocado na internet: o desvio de pelo menos R$ 115.000,00 reais. (https://www.youtube.com/watch?v=a8dMk3iU_o0) Por outro lado o Dr. Leovigildo denunciava a corrupção existente na administração, em uma reforma da Escola Carmelita Setúbal na Cidade Alta, também numa gravação de vídeo e da mesma forma colocado na internet.

Quanto mais o tempo passava, mas o prefeito se mostrava inoperante, confirmando a versão que era o Dr. Maílson quem realmente comandava a administração.
A tão alardeada modernidade administrativa não passou de mais um ato de enganação e o que se viu durante seu governo, foi a repetição dos mesmos desmandos que tanto colocavam o município em situação de atraso em relação aos outros municípios da região. As ruas continuavam esburacadas, muito embora em outras se construía calçamentos; o lixo acumulado nos logradouros públicos, as praças mal cuidadas, o prefeito distante do povo e dentro da administração os velhos e conhecidos “ratos de prefeitura”

28.1 RELACIONAMENTO COM PAULO DUARTE E A ELEIÇÃO DE 2006

Como era costume, desde que ingressaram na política, sempre brigarem e se unirem por conveniência, desta vez não foi diferente. Muito cedo, notava-se que aqueles que novamente se abraçaram como “grandes amigos” no último palanque, já estavam prestes a declarar mais uma briga, embora não tornassem públicas essas desavenças.
Antes, porém, da deflagração da grande intriga, e por serem mestres na arte de enganar o povo, sempre que tinham oportunidade, trocavam elogios. Pouco lhes importava se a população percebesse a farsa que costumavam estabelecer no jogo político e a falsa “amizade” existente entre eles.
A prova disso vem de uma declaração de Paulo Duarte durante a comemoração do primeiro ano de administração. Na ocasião, ele elogiou toda a equipe, inclusive o Dr. Maílson, reconhecendo-o como o homem forte ao lado de Dilmar:
“Digo isso aqui sem nenhuma necessidade de esforço. De todos os prefeitos que eu tenho acompanhado agora neste primeiro ano de mandato, pode ter certeza, o prefeito que tem uma obra mais marcante, fazendo mais obras aqui, em toda a região jaguaribana, é o prefeito Dilmar. Isso aqui é pra fazer justiça... (...) Se você chegar em Limoeiro hoje, Limoeiro está um canteiro de obras. Calçamentos, estradas asfaltadas, colégios, quadra de esportes... (...) Isso é a marca da equipe do Dilmar que tem, sempre, o projetista, aquele cara que está sempre à disposição, que é o Dr. Maílson, e merece uma referência especial pela disposição de colaborar, apoiar, fazer os projetos, ir a Brasília buscar os recursos, e essa é a marca da administração do prefeito Dilmar”. http://www.youtube.com/watch?v=fx-sBS08Q2E – em 05.04.2009
As palavras de Paulo Duarte não entusiasmavam ninguém, posto que era muito comum entre eles declarações desse tipo, tão somente para tentar repassar à população a imagem de que estavam solidamente unidos. A verdade é que, até aquele momento, eles realmente ainda não haviam brigado, e isso só viria à tona na eleição para deputado.  
Quando se iniciou a campanha de 2006, já se percebiam os caminhos diversos que ambos seguiriam. Dilmar, aliado de Ciro Gomes, não tinha como deixar de apoiar a candidatura de Cid Gomes ao governo do Estado, enquanto Paulo Duarte, aliado de Tasso Jereissati, declarou seu apoio à reeleição do governador Lúcio Alcântara. Mas, até aí, não havia motivos suficientes para se aviltarem. O que estava em jogo eram as candidaturas para deputados.
Enquanto isso, Arivan Lucena, ao contrário do que pensavam seus “adversários”, mantinha vivo o seu grupo. Embora declarando seu apoio à candidatura de Cid Gomes, escolhera para deputado estadual Manoel de Castro Neto (Manezinho).
Para a Câmara Federal, tanto Paulo Duarte quanto Dilmar novamente “trabalhariam” ao lado de Ariosto Holanda. Entretanto, para a Assembleia Legislativa, existia uma dúvida com relação ao grupo de Dilmar, sobre se realmente apoiaria o nome de Paulo Duarte. Em momento algum da campanha, Dilmar e seu grupo declararam esse apoio. Por outro lado, Paulo Duarte, em momento algum, pediu votos para Ariosto Holanda; pelo contrário, juntamente com Kennedy Linhares, deixava perceber que ambos estavam trabalhando o nome de Gonzaga Mota.
Durante a campanha, nenhum deles tinha coragem de declarar-se rompido ou magoado com o outro. O tempo todo mantiveram-se calados, pois temiam uma reação contrária do povo e preferiram esconder que o "grupão" havia sofrido mais uma implosão; tanto que, durante todo o período eleitoral, não se agrediram publicamente.
Passada a eleição, logo no dia seguinte, Paulo Duarte concedeu entrevista à Rádio Vale do Jaguaribe. Na ocasião, afirmou que foi traído por Dilmar e seu grupo, responsabilizando-os por sua derrota, mesmo tendo conseguido 13.045 votos somente em Limoeiro do Norte.
A partir dali, com a briga deflagrada, Paulo Duarte tornou-se um crítico contundente da administração, usando abertamente a Rádio Vale do Jaguaribe para declarar publicamente o rompimento. Também instruiu seu irmão, Marduque, a fazer oposição cerrada na Tribuna da Câmara de Vereadores. Este, sempre em seus peculiares surtos de desequilíbrio e irresponsabilidade, transformou-se em uma verdadeira metralhadora, repetindo os mesmos pronunciamentos que fazia na época de Arivan Lucena. Aliás, Marduque tinha competência de sobra para bombardear o prefeito, pois sua maior marca — e o que melhor soube fazer — era apontar defeitos alheios.
Enquanto isso, Ariosto Holanda, em seu estilo sutil de sempre calar-se, teve uma votação expressiva de 14.728 votos. Sem nada a reclamar, não deu uma declaração sequer para agradecer pelos votos recebidos, muito menos para opinar sobre as declarações de Paulo Duarte.
Os limoeirenses, mais divididos do que nunca entre os grupos de Paulo Duarte e Dilmar, ficaram aguardando a próxima campanha, onde, mais uma vez, estariam os dois lados em palanques diferentes e, novamente, brigando desesperadamente pelo poder.

XVII - A ESPETACULARIZADA ELEIÇÃO DE 2004

A CAMPANHA POLÍTICA de 2004 se aproximava com a certeza de que seria uma verdadeira guerra entre o grupo da prefeita e os seus adversários. O clima no município era tenso e delicado. O eleitor encontrava-se extremamente decepcionado, com a autoestima em baixa e a esperança mutilada, procurando, em meio aos acontecimentos, uma saída positiva.
Arivan se tornara o centro do ódio para a maioria dos limoeirenses. A sua conduta como prefeita era questionada devido a uma série de fatores que contribuíram para a sua rejeição por parte da maioria da população. Como pontos principais, pesavam contra ela a acusação de ser mandante do crime contra o radialista Nicanor Linhares e o fato de manter-se no mandato por meio de uma liminar, desde que foi cassada em abril de 2004 pela Câmara de Vereadores, além de sua postura considerada arrogante. Apesar de tudo, teimava em candidatar-se, o que para muitos era um ato de ousadia e muita coragem e, no discurso dos adversários, uma afronta aos limoeirenses.
Mesmo com dados tão deprimentes, Arivan ainda causava pânico aos inimigos, que chegaram a se amedrontar com o fantasma de mais uma derrota depois da confirmação de sua candidatura. A surpresa foi a escolha do candidato a vice-prefeito, que recaiu sobre a pessoa de Pedro Julião, muito embora já estivessem aliados havia algum tempo.
Do outro lado estava Dilmar que, mesmo derrotado por duas vezes, anunciava a sua inarredável disposição de mais uma vez candidatar-se. Ele não aceitava, por hipótese alguma, qualquer negociação que pretendesse tirar-lhe a cabeça de chapa, pois sabia, junto com seu grupo, que aquela seria a sua última cartada e, portanto, teria que ganhar a qualquer custo. Mais uma vez, apostava na aceitação que teve nas eleições passadas (1996 e 2000), sempre com um percentual girando entre 25% e 30% do eleitorado.
Estranha foi a atitude de Paulo Duarte, já que sua candidatura era esperada por todos em virtude da briga que comprou quando denunciou José Maria Lucena e Arivan, da tribuna da Assembleia Legislativa, como mandantes do crime de Nicanor Linhares. Acreditava-se que sua disposição em denunciar o casal teria sido para beneficiar-se politicamente, repetindo a dose da eleição de 2002, quando obteve uma estrondosa votação (47%), justamente por causa da intriga existente. Todavia, decidiu apoiar a candidatura de Dilmar, mesmo com a grande possibilidade de sair vitorioso naquela eleição, pois, naquele momento, era ele quem absorvia toda a rejeição da prefeita. O que não se esperava era que ele cedesse o lugar de candidato para outra pessoa, muito menos para Dilmar.
Era estarrecedor o fato de Dilmar e Paulão estarem juntos, se, até pouquíssimo tempo atrás, não se olhavam na cara e nem existia o mínimo de confiança entre eles para estabelecerem uma união. A palavra “amigos” era totalmente descartada do dicionário de ambos. Entretanto, estabeleciam um jogo de cumplicidade na luta pelo poder, totalmente esquecidos de que, na campanha passada, trocaram calorosas farpas em palanques contrários.
Paulo Duarte nunca explicou direito ao povo o motivo que o levou a jogar fora a grande oportunidade de tornar-se prefeito, ainda mais quando se sabia que esse era o seu maior desejo. Como diz o adágio popular, “o cavalo passou selado”, mas ele desperdiçou a chance de montar, preferindo “entregar o ouro aos bandidos”.
Pode-se supor, entretanto, que um dos fortes motivos — inclusive muito comentado pelo povo — foi o fato de que, quando procurou formar o grupo de apoio, já não tinha mais ninguém. Isso porque o Dr. Maílson já tinha atraído todos para apoiar Dilmar, e só entraria com os gastos da campanha se este fosse o candidato. Outra versão é a de que temia por sua vida devido a algumas ameaças que vinha recebendo por conta da denúncia feita aos arqui-inimigos José Maria e Arivan; e muito mais, porque a denúncia levou ao desbaratamento de uma quadrilha de assaltantes e pistoleiros na região jaguaribana.
O acordo de seguir junto com Dilmar foi selado publicamente por meio de entrevista conjunta na Rádio
Vale do Jaguaribe, tendo como única imposição que sua irmã, Elizete, fosse a candidata a vice-prefeita.
A entrevista serviu para que, mais uma vez, Dilmar e Paulo Duarte trocassem elogios. Isso era de praxe entre eles, que o faziam com a mesma facilidade com que brigavam em determinados momentos.
No mesmo barco de Paulo Duarte, entraram "Careca", Ademar Celedônio e Ariosto Holanda a favor da candidatura de Dilmar, deflagrando a união de todos aqueles que, em um passado recente, estiveram se digladiando e se agredindo entre si.
Finalmente, surgiu uma terceira candidatura. Tratava-se do vice-prefeito Laurinho, em uma coligação entre PSB, PT e PMDB, formando chapa com o Dr. Lindenor. Este, insatisfeito por não ter algumas de suas exigências aceitas, resolveu romper com o “grupão”. A coligação teria ainda a adesão do PV, entretanto, Luiz Mendes decidiu candidatar-se sozinho, mesmo sabendo que jamais teria condições sequer de concorrer.
Quando a campanha chegou às ruas, iniciaram-se as brigas de palanque, e o eleitor assistiu ao maior espetáculo de baixarias já visto em uma campanha política no município.
Os comícios se transformaram em verdadeiras arenas, e os palavrões eram ditos sem o menor respeito ao povo. O palanque de Dilmar dirigia impiedosamente a Arivan e ao Dr. José Maria as mais absurdas frases, principalmente com relação ao crime de Nicanor Linhares, que foi intencionalmente transformado na bandeira principal da campanha.
O ponto alto deu-se durante a realização de um comício na Praça do Seminário, onde o linguajar usado pelos oradores foi deprimente. Em vez de levar propostas de trabalho e mudanças para o tão mutilado processo político, simplesmente promoveram uma audiência pública de condenação à prefeita e ao seu esposo, chamando-os de criminosos, farsantes, mentirosos, entre outros adjetivos. Chegaram ao ponto de dizer “que o casal entrava na igreja para engolir hóstia e saía cuspindo sangue”.
Além de usarem na mensagem principal da campanha um crime que abalou toda a região pelo ato de selvageria com que foi praticado, o espetáculo ficava ainda pior quando "o Careca" se dirigia a Dilmar apenas com elogios, esquecendo que o chamara de “meninão” e “cara de boneca” no passado. Da mesma forma, Ademar Celedônio, mesmo tendo sido o maior desastre administrativo de Limoeiro, não só elogiava, como também era eloquentemente elogiado pelos companheiros de palanque. Paulo Duarte dirigia-se a Dilmar chamando-o de “amigo” e distribuindo sua metralhadora verbal para falar do crime de Nicanor, acusando insistentemente o casal Lucena. Seu irmão, Marduque, usava o mesmo crime para criar cenas de deboche no palanque, insinuando, inclusive, que teria mais votos naquela eleição do que a candidata Arivan. O quadro se completava quando Ariosto Holanda comparecia aos comícios e levava ao povo um pronunciamento inteiramente demagógico. Ele sempre externava aos limoeirenses um perfil de seriedade; no entanto, não se abstinha de fazer parte da grande farra que o grupão promovia para conquistar novamente o poder.
Toda aquela cena dantescamente fantástica era assistida por uma plateia interessada apenas em ver Arivan derrotada. O público não atinava para as consequências que adviriam daquela eleição, em total obediência à frase de efeito criada para disseminar, cada vez mais, a rejeição à prefeita. Ouvia-se nos quatro cantos do município: “Não importa quem ganhe, o importante é derrubar a mulher”.
Para demonstrar que, se fosse eleito, Limoeiro do Norte teria uma administração diferente — até mesmo de sua primeira gestão —, Dilmar tentava conquistar o eleitorado com a realização de seminários, dos quais sairia uma cartilha com as propostas de governo. Mesmo vendo o desinteresse do povo nesses eventos, resolveu publicar o livreto estabelecendo metas para a administração. No entanto, não teve o cuidado de evitar a inserção de promessas absurdas, como “a conclusão do ginásio coberto”, esquecendo-se de que ele próprio não o havia concluído por negligência quando foi prefeito. Por outro lado, dizia abertamente à população que faria um bom governo e tranquilizava o povo — agora mais amadurecido —, sugerindo que esquecessem a fraca gestão de 1989-1992.
Mais uma vez, uma onda de panfletagens de origem desconhecida foi usada para denunciar os adversários, e novamente Dilmar foi o mais atingido.
Enquanto Arivan e Dilmar ostentavam uma campanha com esbanjamento de dinheiro e contratação de atrações caríssimas, Laurinho prosseguia humildemente com reuniões nas comunidades. Ele tentava levar sua mensagem como a única que propunha seriedade e respeito aos limoeirenses.
Finalmente, depois de tantas baixarias, chegou o dia da eleição. O resultado foi bastante favorável a Dilmar, senão vejamos:
  • Dilmar - 18.699 votos - 61,16% dos votos.
  • Arivan - 8.987 votos - 29,40%,
  • Laurinho - 2.479 - 8,11%
  • Luiz Mendes - 408 votos - 1,33%.
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Podemos considerar que a eleição de 2004 em Limoeiro do Norte foi um caso sui gêneris e deu-se por fatos inteiramente fora do contexto normal de uma campanha política.
Tudo o que ocorreu comprovou aquilo que já relatamos em termos de personalidade dos participantes do processo político de Limoeiro das últimas décadas, ou seja, nunca se recusaram em utilizar quaisquer motivos, por mais absurdos que se apresentassem, desde que acarretassem rendimentos eleitorais, mesmo em detrimento de toda uma população.
Naquela campanha se ouviu mais do que nas outras, pronunciamentos agressivos e deprimentes em cima dos palanques. A indústria da mentira foi trabalhada com tanta eficiência durante a campanha e de tal forma que surtiu o efeito desejado para aquele que conseguiu melhor repassar para o povo sua enganosa mensagem.
Aliás, é muito comum aos políticos usarem do artifício da mentira espelhando-se em uma frase tida como eficiente e princípio de um dos líderes da Alemanha Nazista Joseph Goebbels: (Responsável pela propaganda de massa feita pelo nazismo na II Guerra Mundial. Exercia ainda um severo controle sobre as instituições educacionais e sobre os meios de comunicação).“Uma mentira dita cem vezes torna-se verdade”. O uso desta frase não passa de mais uma artimanha dos políticos para tirar proveito próprio sem a preocupação de que está levando toda uma população para o abismo da miséria e da alienação política.
O mais incrível e até inaceitável na campanha de 2004, foi o uso imoral e sórdido do assassinato de Nicanor Linhares utilizado pelo “Grupão” para denegrir as imagens de Arivan e do seu esposo, fazendo as mais ineptas acusações, sabendo de antemão que os pronunciamentos neste sentido eram do agrado da maioria do eleitorado e que produziam efeitos positivos.
Outro fato que não pode escapar de uma análise mais acurada, foi o ajuntamento de todos eles como se fossem verdadeiros amigos. Via-se no mesmo palanque Careca, Ademar, Paulo Duarte, Dilmar e Ariosto Holanda. Esse último confirmava sua indisposição de estar ao lado do povo, esquecido de que tempos atrás teria sido contrário a candidatura de Dilmar com base em um comentado “dossiê” que tinha em mãos sobre o período em que o mesmo administrou Limoeiro (1989-1992) e agora, pedia obstinadamente aos limoeirenses que o elegessem.
Ante a exibição historicamente cinematográfica promovida pelo “grupão”, pelo menos alguns eleitores mais sensatos sabiam que por trás daquele cenário existia entre eles uma desconfiança generalizada, mas que preferiam encenar amizades recíprocas para ludibriar a consciência do povo. A declaração de apoio feita pelos componentes do “grupão” à candidatura de Dilmar na eleição de 2004 foi a forma que eles encontraram para assegurar a participação no bolo, ainda que pequena. A cena, de certa forma pitoresca lembrava o escritor francês Etienne de La Boétie: (Discurso da Servidão Voluntária, http://www.consciencia.org/moderna/boetie.shtml)
“(...) não pode haver amizade onde se encontram a crueldade, a injustiça. Entre os maus quando se juntam, há uma conspiração, não uma sociedade. Eles não se entreapóiam mas se entretemem. Não são amigos, mas cúmplices”. 
Se naquela época – Séc. XVI – La Boétie já descrevia a sujeição do povo aos seus líderes, imagine hoje quando a mente humana se aprimorou no jogo político.
Para os políticos limoeirenses, alienar tornou-se um verbo de conjugação saborosa e doce e em virtude disso, passaram a oferecer ao povo em vez de liberdade, uma sensação de desprezo e impotência a cada administração.
Se durante todo mandato, Arivan tivesse usado de um mínimo de inteligência no trato com seus “inimigos” políticos não teria viabilizado o retorno deles ao poder. Não soube, ou não quis conduzir a administração, cujo objetivo principal era o de promover a ruptura com o modelo anterior e fizesse nascer um novo período na história político-administrativa de Limoeiro do Norte.
Faltou-lhe a experiência e muito mais a matreirice necessária para expurgar definitivamente do município os viciosos costumes politiqueiros, implantados por todos aqueles que foram derrotados naquela eleição que a tornou prefeita.
Não soube ainda emprestar seu “carisma” – embora raquítico – para que pudesse fazer um governo catalisador e aglutinador de forças políticas, e para isso, seria necessário apenas que tivesse agido sem arrogância.
Os complicados fatores e circunstâncias que deveriam ser combinados para o êxito de sua administração não foram usados. Pelo contrário, desprezou todos aqueles que a ajudaram a chegar ao cargo de prefeita.
Em vez de estabelecer métodos administrativos inovadores, optou pelo empreguismo, pelas futricas pessoais e pelo acirramento das discordâncias, de certa forma praticando os mesmos atos desabonadores dos adversários, o que foi inteligentemente aproveitado por eles para jogá-la contra a população. Para a tristeza dos limoeirenses, o desinteresse de Arivan em optar pela humildade e de se fazer verdadeiramente representante do povo, viabilizou o retorno de um grupo político inadequado para conduzir os destinos de Limoeiro.

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Capítulo XXVI - ARIVAN – A PRIMEIRA MULHER A ADMINISTRAR LIMOEIRO

“...a melhor fortaleza que possa existir é o não
 ser odiado pelo povo: mesmo que tenham 
fortificações elas de nada valem se o povo te odeia.” 
 Maquiavel

NO PRIMEIRO DIA do ano de 2001, Arivan Lucena tomou posse, com o privilégio de ser a primeira mulher a assumir a chefia do executivo municipal de Limoeiro do Norte. Sua maior incumbência era afastar da administração um grupo formado em 1982, viciado em costumes políticos rotineiros e defeituosos. 
Chegou à prefeitura com a confiança da população, crente de que, finalmente, depois de tantos anos, o município teria uma gestão séria e honesta sob todos os pontos de vista.
O que ninguém contava era que Arivan causasse grandes decepções na tomada de decisões, ao adotar atitudes contrárias aos compromissos assumidos em campanha.
Desde muito cedo — até mesmo antes de assumir o cargo —, começou a demonstrar que não seria nada daquilo que se proclamava nos palanques. Deixou transparecer que pouco se importava com o que havia proposto em termos de uma administração participativa, democrática e transparente.
As primeiras manifestações de arrogância fizeram com que a população também percebesse que o desembargador José Maria Lucena demonstrava ser, rapidamente, inteiramente manobrável por ela.
Em uma verdadeira demonstração de prepotência e inexperiência política, começou a agir como se o cargo de prefeita lhe desse carta branca para mandar e desmandar. Implantou um governo totalitário, altamente centralizador e ditatorial — superando, inclusive, o ex-prefeito Careca. Principalmente, não admitia, por hipótese alguma, que suas ideias fossem contestadas ou discutidas, tampouco acatava sugestões de quem quer que fosse.
Mesmo assim, administrativamente, conseguiu superar os seus adversários, tratando com respeito o dinheiro público. Contudo, não cumpriu a promessa de tornar transparente o resultado das contas públicas a todos os limoeirenses, informando claramente quanto a prefeitura arrecadava e gastava. Alegava que as contas municipais eram divulgadas pela internet e pelo Diário Oficial do Município (de circulação mensal), esquecendo-se de que essas formas de divulgação não atingem a grande maioria da população. Assim como nos governos anteriores, o povo continuou sem saber quanto o município recebia e gastava.
Como feitos positivos, pagou religiosamente aos servidores, inclusive o 13º salário, algo que nenhum dos gestores anteriores havia feito. Priorizou, ainda, obras que considerava importantes, como colégios e uma quadra de esportes.
Ao reformar a Praça José Osterne, a gestão enfrentou efusivas críticas por transformar o espaço, em vez de uma praça, em um largo (calçadão) que se estende da igreja matriz até o mercado público. Entre as contestações sobre a “reforma”, a mais incisiva era o alerta sobre como ficaria o trânsito da cidade. Isso porque Raimundo de Castro, durante seu governo (1967-1970), havia alargado a Rua Coronel Antônio Joaquim — no trecho entre as ruas Cel. Francisco Remígio e Cel. Sindulfo Chaves — e rasgado a praça ao meio, reduzindo inclusive o secular patamar da Catedral, com o objetivo principal de melhorar o fluxo de veículos no centro. O que não se compreendia era a decisão de fechar o espaço novamente e interromper o trânsito, que, sem dúvidas, estava muito mais intenso do que há trinta anos. Contudo, Arivan — como era de seu feitio — não deu ouvidos às queixas e executou a obra do jeito que idealizou, ignorando um outro projeto já existente que não prejudicaria tanto o trânsito, o que justificou as duras críticas recebidas.

Na verdade, deixou de ser uma praça e passou a ser UM LARGO que começa onde ficava a Praça José Osterne (construída em 1927), estende-se pela Travessa Lucas Carneiro e finaliza no prédio do antigo Mercado Público. O espaço substituiu, inclusive, a histórica e centenária calçada de pedras daquele que foi um dos dois primeiros prédios públicos de Limoeiro do Norte, erguido entre 1877 e 1879.

A obra custou ainda o sacrifício de algumas árvores ali existentes. Por ordem da própria prefeita, todas foram tombadas ao chão, escapando de sua fúria apenas o oitizeiro(*). Ele também teve a sentença de morte decretada, mas antes de sofrer o golpe dos machados — menos cruéis do que a sanha depredadora da gestora —, a população mobilizou-se numa campanha de rádio para preservá-lo. Prevaleceu a vontade popular, contrariando a chefe do Executivo, que não era muito afeita a concordar com o povo.

(*) Não se tem a data exata de quando o belo oitizeiro germinou na praça, nem quem o plantou, mas sabe-se que ele cresceu e continua, até hoje, fornecendo sombra e abrigo com sua vasta folhagem, além da exuberante beleza que encanta os olhos dos limoeirenses. Seria uma ignorância extrema retirá-lo dali, ainda que se encontrasse uma “justificativa” para explicar a sua morte. 

Mesma sorte não teve a malfadada mangueira que existia ao lado do Antigo Hotel Municipal (hoje Secretaria de Educação Básica). A pobre árvore não teve tempo de ser defendida. Quando a população soube da sua morte, já era tarde demais.
O mandato de Arivan foi inteiramente marcado pela intransigência da Câmara de Vereadores, que tentava a todo custo, através de alguns parlamentares, desestabilizar o seu governo. Além disso, criou-se entre vereadores, líderes políticos e a prefeita um profundo ódio, que acabou sendo repassado para a população.
Todo aquele clima de intrigas entre Arivan, Dr. José Maria e os seus adversários contava com o incentivo de Nicanor Linhares, através da Rádio Vale do Jaguaribe, que encetou uma fortíssima campanha contra tudo o que viesse da administração municipal. Além disso, veiculava pela rádio músicas de duplo sentido, debochando do casal e insinuando, inclusive, questões sobre suas vidas particulares.

É conveniente agora que passemos a enumerar alguns casos ocorridos durante a gestão de Arivan, para que compreendamos melhor como tudo transcorreu.

1. Escolha do Secretariado
Ao anunciar o seu secretariado, a prefeita causou a primeira decepção ao nomear para o primeiro escalão pessoas de seu círculo íntimo, gerando desconfiança. Ressalvam-se a isso os Secretários de Saúde, Dr. Ranalfo; da Cultura, Tárcio Pinheiro; e de Urbanismo e Meio Ambiente, o vice-prefeito Laurinho. Estes foram nomeados contra a vontade da gestora, apenas para evitar um rompimento precoce com o grupo que a ajudou a eleger.
No entanto, algumas nomeações causaram estranheza, pois contemplavam figuras do sistema político derrotado. Eram indivíduos estigmatizados como "ratos de prefeitura" — ou seja, profissionais que servem a qualquer chefe do Executivo, justificando-se com a máxima de que não têm culpa da alternância de prefeitos a cada quatro anos.
Contrariando os discursos de campanha, que prometiam banir maus políticos e romper com o modelo administrativo vigente, Arivan passou a criar divergências com os secretários que haviam sido nomeados por conveniência e não por vontade própria. Como resultado, em menos de um mês, o Secretário de Cultura Tárcio Pinheiro pediu exoneração. O mesmo ocorreu com o Secretário de Saúde, Dr. Ranalfo, em menos de dois meses. Ambos alegaram desprezo e falta de apoio da prefeita aos trabalhos que pretendiam realizar. Essas demissões a pedido deixaram a gestora satisfeita, visto que, a partir daquele momento, ela teria o caminho livre para nomear pessoas de sua inteira confiança.
Antes de completar quatro meses de gestão, exonerou o vice-prefeito Laurinho do cargo de Secretário de Urbanismo e Meio Ambiente. A medida ocorreu apenas após constatar que ele resistiria às pressões para pedir demissão, ao contrário do que fizeram Dr. Ranalfo e Tárcio Pinheiro. Aliás, essa foi a marca de todo o seu governo: não demitir ninguém, mas criar situações propositadamente para forçar a saída do servidor.

2. Relações com a Câmara Municipal
Nos primeiros dias de governo, a prefeita deu outra mostra de arrogância ao receber uma comissão composta por vereadores, que estava decidida a fazer uma visita ao seu gabinete para propor um relacionamento de harmonia entre Executivo e Legislativo. A comissão decepcionou-se com a postura da gestora quando ela se dirigiu a eles afirmando, de forma prepotente: “Não preciso de vereador para administrar o município. Façam o trabalho de vocês, que o meu eu sei fazer”.
Nesse caso, é possível compreender a sua atitude como acertada se considerarmos que a visita dos vereadores poderia carregar a intenção de dar continuidade à relação promíscua entre o Executivo e o Legislativo, uma prática histórica e nociva em todas as administrações anteriores, sobretudo a partir de 1982.
Contudo, como já se previa um relacionamento difícil entre os poderes, a partir daquele momento instaurou-se um clima ainda maior de hostilidade. Isso fez com que Limoeiro do Norte conhecesse uma onda de turbulência política nunca antes vista em sua história.
Ao subestimar o Poder Legislativo e considerar os vereadores elementos sem a menor importância, a prefeita passou a sofrer fortes represálias. Como resposta, a tribuna da Câmara transformou-se em palco para pronunciamentos contundentes e inflamados contra a sua administração.

Um dos seus mais ferrenhos adversários e críticos era o vereador Marduque Duarte, que, por vezes, discursava de maneira irresponsável e esdrúxula, fazendo questão de acirrar as intrigas e aprofundar as hostilidades entre a prefeita e seu irmão, o deputado Paulo Duarte.
A maioria dos pronunciamentos de Marduque sugeria a cassação do mandato da prefeita, sabendo que essa ideia agradava aos insatisfeitos com a gestão da chefe do Executivo. No entanto, o seu único objetivo era inflamar o desagrado popular com fins meramente politiqueiros, posto que, em conversas informais, confessava não ter o menor interesse na cassação.
Marduque tentava, intencionalmente, transmitir à população que suas intenções eram as melhores possíveis. Entretanto, o seu real propósito era responsabilizar a prefeita por todos os problemas do município, sugerindo que, antes da gestão de Arivan, Limoeiro era um paraíso — como se os maiores problemas locais não fossem sequer consequências das atuações de políticos que a antecederam, inclusive o seu próprio irmão. Para corroborar essa afirmação, veja-se um trecho de uma entrevista concedida pelo vereador ao site Rumbora, em 2003:

“Vejo que vivenciamos um momento ímpar na política limoeirense, onde a vida humana está valendo menos do que a política partidária, onde o acirramento natural de campanhas eleitorais transformou-se em ódio, rancor, perseguição por parte daqueles que fazem a administração municipal. Vejo também que alguns homens públicos que deveriam ter um papel mais atuante e corajoso, simplesmente ficam escondidos dentro de suas covardias e esperando um momento propício para começarem novamente a enganar o povo”. (Disponível em: http://www.rumbora.com.br/entrevista/marduque.php4. Acesso em: 12 nov. 2003).
As divergências entre os dois poderes levaram a medidas extremas por parte da prefeita. Em vez de reconhecer a câmara como uma instituição importante no diálogo democrático, subestimou cada vez mais aquele poder, editando uma medida provisória com a qual passaria a administrar. De tão absurda, a atitude mereceu um breve comentário da Revista Istoé:
“Se a moda pega... Prefeita da cidadezinha cearense de Limoeiro do Norte, dona Ariovan Lucena (sic) resolveu radicalizar. Sem apoio da Câmara de Vereadores e sem ter como pagar a folha de funcionários, há dez dias governa o município com base em medida provisória que ela mesma editou. Sua assessoria jurídica jura que pode. Mas não se sabe de nenhum caso no Brasil” (Coluna Fax Brasília, Revista Istoé n.º 1715, de 15/08/2002).
3. A derrubada do Muro de Nicanor
Comprou uma briga com seu inimigo figadal, Nicanor Linhares, quando determinou que a máquina da prefeitura derrubasse o muro da residência dele, que avançava ilegalmente sobre a rua. O caso, que ficou conhecido como “a derrubada do muro de Nicanor”, acirrou ainda mais a complexa intriga que se arrastava desde a campanha e que agora tendia a se agravar.
Com o episódio, ficou evidente para todos que a determinação da prefeita demonstrava uma disputa pessoal. Isso porque aquele não era o único muro a descumprir a Lei de Postura do Município. Além disso, Nicanor tinha em mãos uma liminar da Justiça assegurando que o caso estava sub judice, ou seja, a estrutura não poderia ser demolida até o julgamento final.
Sentindo-se profundamente desmoralizado, Nicanor declarou uma verdadeira guerra ao Executivo municipal. Utilizando os microfones da rádio, passou a tratar a prefeita com deslavado deboche, denegrindo sua imagem pública. Ele também passou a insinuar fatos sobre a vida pessoal da gestora e de seu marido por meio de músicas de duplo sentido direcionadas ao casal — atitude que era aplaudida por uns e recriminada por outros.
A partir dali, selou-se a grande e prejudicial briga entre a Rádio Vale do Jaguaribe e a prefeitura. As futricas e fofocas de ambos os lados tomaram o lugar do bom senso e do interesse público. O povo assistia, estupefato, àquele festival de baixarias que alimentava o ódio entre grupos políticos rivais e, por conseguinte, dividia a população.
Não tardou para que os adversários da administração se aliassem a Nicanor. Juntos, eles enxovalhavam os nomes da prefeita e de seu esposo, aproveitando-se da insatisfação popular e da aversão que a população nutria pelo casal.
A peça fundamental na urdidura de toda a intriga — sem a qual nenhum deles teria sucesso — foi a Rádio Vale do Jaguaribe. Transformada em um palanque eletrônico vinte e quatro horas por dia, a emissora já antecipava, discretamente, nomes para a próxima eleição municipal, além de direcionar todas as reportagens e noticiários contra a gestão.
As pessoas usadas por Nicanor e seus comparsas na rádio tinham a tarefa de desestruturar o trabalho da prefeita. O repórter Tom Gurgel, por exemplo, foi meticulosamente moldado para noticiar, com exageros, as falhas administrativas. Ao executar esse tipo de trabalho, Gurgel revelava-se um verdadeiro borra-botas dos inimigos da prefeita.
Sem o menor respeito ao público, as mais absurdas notícias eram levadas ao ar com o único objetivo de atingir negativamente Arivan e seu esposo. Além disso, as linhas telefônicas eram abertas aos ouvintes sem nenhum critério, permitindo que qualquer um falasse o que quisesse e criticasse como bem entendesse.

4. A água da Cidade Alta
Outra atitude de arrogância e de total ignorância política ocorreu quando a prefeita rejeitou uma verba de R$ 230.000,00 (duzentos e trinta mil reais). O recurso, conseguido pelo então Deputado Paulo Duarte por meio do Governo do Estado, destinava-se à construção da adutora que levaria água da sede do município para o Bairro Antonio Holanda de Oliveira (Limoeiro Alto).
Mesmo sabendo que a obra solucionaria de uma vez por todas o gravíssimo problema de abastecimento daquele bairro, Arivan novamente colocou ressentimentos pessoais acima do interesse público. Ela rejeitou a utilização do dinheiro, acreditando que, ao aceitá-lo, estaria beneficiando seu desafeto.
Muito embora tenha recusado a verba, também não moveu uma palha para que o problema fosse resolvido. Com isso, o Limoeiro Alto continuou sofrendo com o péssimo abastecimento de água durante todo o seu mandato.
Foi um prato cheio para os opositores da prefeita, que passaram a tratá-la como a única responsável pela falta d’água na Cidade Alta. Descobriu-se, depois, que todo o alarde feito pelo deputado Paulo Duarte em torno da rejeição não passava de mais uma manobra política, uma vez que o dinheiro, em momento algum, foi liberado pelo Governo do Estado.
Apenas no último mês de sua gestão, utilizando recursos próprios do município, a então prefeita construiu a citada adutora.

5. Eleição de 2002
Aproveitando-se da impopularidade política da prefeita e da rejeição de uma parcela considerável dos limoeirenses, os adversários traçaram uma estratégia para a campanha de 2002 (eleições para Presidente da República, Governador, Senador, Deputado Federal e Deputado Estadual). O objetivo era medir forças com a prefeita e seu esposo, desmoralizando-os por meio de uma votação insignificante para os candidatos apoiados por eles.
O fato mais curioso foi que, tanto a prefeita quanto os seus opositores apoiavam o mesmo candidato ao governo do Estado, Lúcio Alcântara. Essa situação gerou uma cena inusitada durante a campanha, por ocasião de um comício para governador em Limoeiro: no mesmo palanque, a prefeita Arivan Lucena e os seus candidatos, Bismarck Maia e Francini Guedes, posicionaram-se do lado esquerdo do palco, enquanto do lado direito estavam Ariosto Holanda, Paulo Duarte e João Dilmar, acompanhados do arqui-inimigo do casal Lucena, Nicanor Linhares.
O momento mais marcante do evento ocorreu quando Arivan, ao ser anunciada, foi recebida com vaias em plena Praça da Rodoviária por cerca de 80% dos presentes, o que gerou grande satisfação nos adversários. As vaias apenas confirmavam o distanciamento e a antipatia que o povo nutria por ela.
A apuração dos votos confirmou o cenário esperado pelos opositores de Arivan, demonstrando a fragilidade política da prefeita diante do eleitorado de Limoeiro do Norte. Os números finais refletiram claramente essa divisão:
  • Ariosto Holanda - 17.505 votos 59% Votação espetacular
  • Paulo Duarte - 12.903 votos 47% Em eleições anteriores, chegou a no máximo 5 mil votos

  • Bismarck Maia - 3.702 votos 13% 
  • Francini Guedes - 2.295 votos 8% 
    Fonte: TRE Ceará – Dados de 10.02.2003.
6. A CPI e a cassação do mandato
Apesar de todas as contrariedades ao que fora defendido durante a campanha, Arivan ainda estabeleceu na prefeitura uma onda de empreguismo muito mais contundente do que os seus antecessores, praticando justamente um dos pontos que mais criticara. O que se viu foi uma enxurrada de empregos dados a torto e a direito, sem atentar para a legalidade.
No primeiro semestre de 2003, começaram a surgir fortíssimos boatos de que a administração havia engendrado um teste seletivo, feito à revelia da lei e de forma a legalizar o grande número de contratações. Os opositores entenderam que o processo tinha como objetivo abrigar todos os que haviam sido admitidos irregularmente para torná-los servidores efetivos, numa demonstração clara de que a intenção era exatamente camuflar essas admissões. Não foi dada a publicidade legal ao edital do concurso, que foi publicado apenas no Diário Oficial do Município, sem que fosse distribuído à população para conhecimento geral de quem quisesse participar.
Diante disso, a Câmara Municipal propôs a instalação de uma CPI para investigar o teste seletivo. O pontapé inicial foi dado quando uma senhora, adepta de Arivan, na tentativa de rebater uma crítica feita pelo radialista Nicanor Linhares sobre o referido teste, caiu ingenuamente nas garras do arguto radialista. Ela declarou que estava empregada na prefeitura, mas que nunca havia feito qualquer prova de seleção nem qualquer outro tipo de procedimento.
Com o depoimento gravado, Nicanor, sedento de denúncias, entregou a gravação aos vereadores, sendo esta a primeira e principal prova da ilegalidade.
Formada a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito), esta chegou à conclusão de que houve realmente irregularidades. Em dezembro de 2003, o vereador José Maria de Andrade requereu a criação de uma comissão processante e, para o azar da prefeita, foi sorteado como relator justamente o seu maior opositor: o vereador Marduque Duarte.
Vários depoimentos colhidos pela comissão constataram as irregularidades do teste seletivo. No início da noite de 07 de abril de 2004, uma Quarta-feira Maior, a Câmara Municipal iniciou a sessão de votação do relatório.
Iniciada às dezenove horas, a reunião varou a madrugada. Somente por volta das seis horas da manhã do dia 08 de abril de 2004 — Quinta-feira Santa — procedeu-se à votação: Arivan foi cassada por 13 votos a favor, 3 contra e uma abstenção, atingindo os dois terços necessários.
Imediatamente, o vice-prefeito Laurinho foi convocado e empossado pela Câmara, de acordo com a lei. Entretanto, como era feriado, a prefeitura estava sem expediente. Mesmo acompanhado por uma pequena multidão, Laurinho foi cauteloso e preferiu não arrombar a porta de entrada, apelando para a Justiça. Ele solicitou ao juiz de direito, Dr. João Dantas, autorização para adentrar no prédio. O magistrado, contudo, negou o pedido alegando que, em razão do feriado, o fórum também estava sem expediente e não poderia emitir a autorização.
Aproveitando-se do feriado, Arivan não entregou as chaves do prédio ao vice-prefeito, enquanto seus assessores jurídicos já se movimentavam para devolver-lhe o mandato:
“O novo prefeito Lauro Rebouças Filho, mesmo empossado, ainda não começou a trabalhar na prefeitura, uma vez que a ex-prefeita não entregou as chaves do Paço Municipal. Os advogados da prefeita prometem recorrer da cassação ao Tribunal de Justiça do Estado para reintegrá-la ao cargo”. Fonte: al.ce.gov.br, 14/04/2004
Para a surpresa de todos, logo no início da noite do mesmo dia da cassação, a prefeita reassumiu o cargo. Ela obteve uma liminar que suspendeu os efeitos da sessão da Câmara, concedida pela juíza Maria Valdenisa de Sousa Bernardo, da 1ª Vara da Comarca de Limoeiro do Norte.
De volta à prefeitura, na segunda-feira da semana seguinte, Arivan Lucena fez questão de reunir uma multidão de aliados e apoiadores. Em um inflamado discurso em frente ao prédio do Poder Executivo, demonstrou ainda mais arrogância: chamou o vice-prefeito de palhaço e zombou dos limoeirenses, como se quisesse mostrar que ninguém tinha mais poder do que ela e seu marido. Em sua fala, chegou à imprudência de chamar os cidadãos de burros, tudo isso sob a ovação fervorosa de seus bajuladores.
Exibia constantemente, de forma zombeteira, o molho de chaves da prefeitura em um gesto insolente, como quem queria dizer que ninguém as tiraria de suas mãos, agindo como se fosse a dona absoluta do município.
Embora tenha sido merecidamente cassada, tudo não passou de um sórdido e enganoso teatro da maioria dos vereadores, em conluio com assessores jurídicos. A exceção ficou por parte daqueles dois ou três que realmente dignificavam o mandato e queriam a cassação de fato. O que se sabe é que houve uma montagem extraordinária. Criaram um processo viciado em seus trâmites para que pudesse ser facilmente anulado por uma liminar.
Aqueles que tanto “defendiam” os interesses da população em seus discursos, denunciando irregularidades na administração, diziam em conversas informais que não tinham o menor interesse em ver a prefeita fora do cargo. Marduque Duarte, por exemplo, o mais contundente adversário no Legislativo Municipal e relator da Comissão Processante, pronunciava-se sempre em sintonia com o desejo da maioria da população de ver Arivan fora da prefeitura. Entretanto, para ele, era preferível e muito mais favorável que ela permanecesse no cargo. Só assim poderia continuar a briga, sabendo que isso lhe renderia fartos dividendos eleitorais, tanto pessoalmente quanto para o grupo político liderado por seu irmão, Paulo Duarte.
Com a armação de um processo defeituoso para que a cassação não surtisse efeito, confirma-se a hipótese de que o vereador Marduque Duarte, assim como os outros opositores no Legislativo Municipal, via a cassação com desvantagem política caso Laurinho assumisse a prefeitura
Mas foi se passando por defensor dos interesses da população, mostrando-se “bonzinho” e sem segundas intenções, que afirmou em entrevista ao site RUMBORA:
“Existe, como foi provado pela CPI que apurou as irregularidades, uma administração que colocou para dentro os seus afilhados políticos e, do outro lado, pessoas que não tiveram nem o direito de saber que iria existir esse exame seletivo. Sobre mocinhos e bandidos, deixo esse julgamento para o povo fazer.” (03/04/2004)
Outro ponto passível de comentários e desconfianças foi a pressa com que a liminar foi concedida, retornando a prefeita ao cargo. Sobre esse assunto, o deputado estadual Moésio Loiola, da tribuna da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará, declarou-se desconfiado de que houve tráfico de influência, atribuindo-o, certamente, ao desembargador José Maria Lucena:
“(...) Em Limoeiro, tão logo a Câmara decidiu pela cassação, já estava pronta a liminar reintegrando a prefeita. Houve tráfico de influência ou a Justiça age com dois pesos e duas medidas.” (Diário do Nordeste, 14/04/2004)
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Se houve ou não tráfico de influência, como insinuou o deputado Moésio Loyola, o fato patenteado foi uma grave falta de respeito do Poder Judiciário para com o Poder Legislativo municipal.
Como acreditar na democracia e na independência dos poderes constituídos se, em meros minutos, a autonomia de um deles é jogada ao chão, pisoteada e escarnecida? Ainda mais tratando-se do poder que representa a vontade popular.
A liminar da Dra. Valdeniza — que atendeu à Ação Cautelar Incidental proposta pela prefeita sob a alegação de irregularidades no processo de cassação, incluindo expiração de prazo e violação do direito de defesa — causou estranheza. Não pela liminar em si, o que é um direito jurídico, mas pela pressa na concessão. Logicamente, nenhum juiz teria condições de analisar, em apenas algumas horas, um calhamaço de mais de mil e quinhentas páginas. Trata-se, portanto, de uma decisão precipitada que demonstra total desrespeito à lógica dos poderes democráticos.
Ora, se o Judiciário se considera intocável — reagindo ferozmente a críticas aos atos de seus integrantes ou a análises sobre sua atuação —, causa estranheza seu direito de interferir nas decisões legais e “soberanas” de outros poderes sem uma avaliação profunda. Torna-se, assim, incompreensível a atitude de uma magistrada que, em questão de segundos, desmanchou um trabalho que levou meses para ser concluído.
É por esses e outros motivos que a justiça é desacreditada. O que deveria ser um dos serviços mais competentes à disposição da sociedade, chega a ser o mais cruel, visto que muitas vezes não trata a Lei com igualdade para todos. Como já dizia Sólon na Grécia Antiga: "As leis são como teias de aranha: boas para capturar os insetos pequenos, mas os grandes rompem a teia e escapam”.

7. O Assassinato de Nicanor Linhares
Nenhum acontecimento durante a gestão de Arivan teve tanta repercussão e consequências desastrosas para o seu mandato quanto o assassinato do radialista Nicanor Linhares.
Por volta das 20 horas do dia 30 de junho de 2003, pistoleiros invadiram o estúdio da Rádio Vale do Jaguaribe, onde Nicanor se encontrava gravando matérias, e dispararam contra ele nada menos do que 11 tiros.
O crime teve repercussão nacional e internacional, e a caça aos executores foi iniciada antes mesmo do sepultamento. Na manhã seguinte, o deputado Paulo Duarte subiu à tribuna da Assembleia Legislativa do Estado e trouxe uma verdadeira bomba ao caso: declarou que, na sexta-feira imediatamente anterior à segunda-feira do assassinato, havia comunicado ao próprio Nicanor que recebera informações sobre um plano para matá-lo, denunciando, ao mesmo tempo, o Dr. José Maria Lucena e a prefeita Arivan como mandantes do crime.
Se o assassinato em si já era motivo de grande confusão e comoção pública, a situação agravou-se com as declarações do deputado. Limoeiro do Norte, e até mesmo toda a região jaguaribana, por pouco não entrou em um cataclismo sem precedentes. Se parte da população já nutria aversão a Arivan, esse sentimento transformou-se em profundo ódio após a acusação do parlamentar.
A versão de que Arivan e seu esposo foram os mandantes do crime dividiu opiniões, sobretudo levando-se em consideração que todos os políticos limoeirenses — inclusive o próprio Paulo Duarte — tiveram fortes atritos com Nicanor.
Como estratégia de defesa, e declarando que não era somente ele quem tinha divergências com Nicanor, o próprio desembargador denunciou em entrevista ao Jornal O Povo o ciúme que o deputado vinha sentindo, à época, da proximidade do radialista com o então governador Lúcio Alcântara:
“Paulo Duarte, antes da morte do radialista, mostrava-se insatisfeito porque Nicanor estava procurando diretamente o governador Lúcio Alcântara, e teria dito ao parlamentar que, para ir ao governador e ao secretário de governo (Luís Pontes), não precisava dele”. (Jornal O POVO, 10 de outubro de 2003)
É certo que, depois de assumir a prefeitura, Arivan passou a tratar Nicanor como inimigo pessoal, fato demonstrado pela derrubada do muro ao qual já nos referimos anteriormente.
Foi a partir daquele episódio que os ânimos se acirraram, e Limoeiro do Norte passou a assistir a um festival de baixarias partindo, principalmente, do radialista. Essa situação foi confirmada, inclusive, pelo Promotor de Justiça Guilherme Soares ao referir-se aos acontecimentos logo após a eleição de 2000, quando Nicanor apoiou a candidatura de Paulo Duarte para prefeito:
“A partir dali, passou a divulgar em seu programa de rádio 'severas críticas' (inclusive de cunho pessoal) contra a administração dela. Nicanor muitas vezes chegou a abusar do poder de comunicação e da mera crítica, quando também passou a dirigir ataques de baixo calão e de cunho político contra a prefeita e o marido, inclusive sobre o aspecto da vida pessoal deles”, escreveu o promotor no relatório do caso. – Outubro de 2003.
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Os ingentes problemas deixados pelas administrações anteriores, sobretudo os vícios políticos, exigiam que, como uma nova opção para o município, Arivan tivesse capacidade para romper com as velhas práticas politiqueiras. Todavia, conquanto o seu compromisso fosse criar uma ruptura com esses costumes, a prefeita não soube — ou não quis — estabelecer um novo sistema, abrindo espaço para que seus adversários se tornassem cada vez mais veementes na tentativa de desestabilizar a sua gestão.
Naturalmente, não se pode atribuir o seu fracasso político apenas aos opositores. Foi ela mesma quem contribuiu para a sua própria derrocada ao lhe faltarem esperteza e sagacidade para lidar com uma classe viciada em práticas politiqueiras rotineiras. Eles, sim, foram competentes e espertos ao perceberem que a arrogância da prefeita era muito maior do que a sua habilidade para alijá-los definitivamente do cenário político.
Teria dado certo se ela tivesse verdadeiramente se apoiado na vontade popular de renovar as lideranças. Entretanto, distanciou-se do povo ao se mostrar prepotente no exercício do cargo, esquecendo-se de que existia um número considerável de adversários interessados em retornar ao comando político do município.
Mesmo com as enormes falhas, conseguiu ser mais dinâmica na visão administrativa do que os antecessores. Porém, neste sentido, também deixou muito a desejar, uma vez que não teve a ousadia de criar um modelo moderno de gestão. Não combateu o empreguismo por meio de concursos públicos, o que daria um significativo incentivo às carreiras públicas e à eficiência da máquina administrativa. O que fez foi copiar o mesmo modelo clientelista e paternalista, moldando uma gestão inteiramente fisiológica. O que se abateu, na verdade, foi a esperança e a possibilidade de mudança oferecida ao povo durante a campanha, cujo lema era “levar Limoeiro a sério”.
A nova fase política, econômica e social, tão esperada e prometida, não passou de uma decepção, principalmente para os que acreditaram em uma mudança na administração municipal e que a sua eleição provocaria uma ruptura com o sistema político tradicional, implantando um modelo administrativo moderno e participativo.
Essa frustração pode ser explicada pela concepção de que, quando o eleitor opta por uma mudança radical, faz uma aposta arriscada que pode ter o efeito inverso. Partindo desse princípio, podemos afirmar que foi exatamente o que aconteceu em Limoeiro do Norte, quando se colocou no governo municipal alguém sem trabalho de base e inteiramente descomprometida com as reais necessidades da população.
Outro fator decepcionante foram as atitudes do seu esposo, o Dr. José Maria Lucena. Esquecendo-se de que, na época da campanha, havia sido colocado em um patamar de homem sério, honesto e cheio de vontade de mudar o sistema político de Limoeiro, ele chegou a dizer, após a eleição, em uma conversa reservada com o Padre Pitombeira, que “não devia nada ao povo de Limoeiro, pois havia comprado a eleição da sua esposa”. É preciso ressaltar que o Padre Pitombeira foi um dos baluartes da campanha, e também um dos que mais se decepcionou com o desembargador, principalmente porque esperou da administração a mesma seriedade com que se revestiu toda a campanha.
Aproveitando o gancho dessa declaração do Dr. José Maria ao Padre Pitombeira, vale destacar que o casal — mais notadamente o próprio desembargador — agiu de forma sutil durante toda a campanha. Eles fizeram todos os partidos e apoiadores da candidatura de Arivan acreditarem que as intenções eram verdadeiramente boas. No entanto, logo no dia seguinte à eleição (4 de outubro de 2000), o casal mudou radicalmente o tratamento com todos os que se engajaram na campanha, e ninguém mais pôde contar com a atenção de nenhum dos dois.
A partir daquele momento, começaram a dificultar o acesso, sobretudo, ao Dr. José Maria. Assim que a vitória foi garantida, qualquer pessoa, inclusive os partidos aliados, passou a enfrentar imensas dificuldades de comunicação. A linguagem utilizada por eles mudou completamente, demonstrando, desde então, arrogância e desprezo por todos aqueles que não faziam parte do círculo íntimo do casal.
O que realmente faltou a Arivan e ao Dr. José Maria foi interesse e compromisso para criar um novo sistema político que retirasse do cenário aqueles que há anos se revezavam no poder. Ora, se a campanha foi baseada no combate a uma prática política danosa e cheia de vícios, e se o compromisso era anular os maus políticos, não havia razão alguma para trazer para dentro da administração pessoas que colaboraram com todas as gestões passadas.
Embora, administrativamente, a gestão tenha se mostrado superior aos adversários, ao adotar as mesmas práticas, a prefeita preferiu trilhar o mesmo caminho que eles e cometeu os mesmos erros. Isso decepcionou quem nela votou e quem acreditou na proposta de um governo participativo, onde o diálogo entre a administração e a sociedade seria o ponto principal.
Quando Paulo Duarte fazia discursos e dava entrevistas alertando aos limoeirenses sobre o risco de prepotência por parte do Dr. José Maria Lucena, ele não estava de todo equivocado. No entanto, o que ninguém esperava era que essa mesma atitude de arrogância partisse, primeiramente, de Arivan.
Já a suposta falta de experiência administrativa, que Paulão tentava atribuir à prefeita, não condizia exatamente com a verdade e, ao mesmo tempo, funcionava como uma chantagem contra o eleitor.
Sabe-se bem que um cargo público executivo se exerce com inteligência política. Isso, sim, podemos admitir que faltou a Arivan, sobretudo para agregar forças de sustentabilidade — a começar por aquelas pessoas que estiveram ao seu lado incondicionalmente durante a campanha.
A experiência administrativa é um dado importante, não há dúvida, mas não é o principal. A eventual falta dela pode ser compensada, e até neutralizada, por uma assessoria competente e disposição integral do gestor. Na verdade, era isso que se esperava de Arivan, mesmo sem carisma ou "experiência administrativa". Analisando o passado, podemos atribuir a mesma ausência de experiência aos governos anteriores. Questionamos: qual era a experiência de Dilmar em 1982, quando foi eleito vice-prefeito? E quando se elegeu prefeito em 1988? Qual era a experiência parlamentar de Paulo Duarte quando foi eleito deputado em 1990? A mesma acusação pode ser feita a todos eles, incluindo Careca, Ademar e o próprio Ariosto Holanda. Aliás, o cargo de prefeito — assim como outros postos públicos — é conquistado muito mais por articulações e poder econômico do que pelo curriculum vitae do indivíduo.