quarta-feira, 17 de setembro de 2025

AO LEITOR

A HISTÓRIA POLÍTICA DE LIMOEIRO DO NORTE é recheada de fatos e acontecimentos que revelam a forma como o processo se desenvolveu ao longo de mais de um século.
Desde o domínio da família Chaves, iniciada em meados do séc. XIX até hoje, os acordos e conchavos fizeram e ainda fazem parte das negociações políticas para a manutenção do poder.
Se a oligarquia Chaves durou quase um século e já se passaram mais de cinquenta anos depois de sua queda, podemos perceber que nada mudou de verdade, apenas o poder foi transferido dando continuidade aos interesses individuais e/ou de grupos.
A presença de Manuel de Castro no processo político de Limoeiro do Norte a partir da queda dos Chaves em 1954, também pode ser considerada uma oligarquia (governo de poucos), e que deu continuidade a uma política que perdura até os dias de hoje. Interessante é que nenhum dos atuais políticos limoeirenses – com raras exceções – pode se dar ao luxo de dizer que não tem origem no proselitismo político de Manuel de Castro, que mesmo tendo encerrado sua vida pública em 1982, na qualidade de governador do Estado, "encerrando" dessa forma uma atividade política de quase quatro décadas, mas que deixou um legado que deverá permanecer ainda por algum tempo.
Os novos nomes que foram tomando conta do poder a partir de 1982, iniciaram o que podemos chamar de um novo CICLO POLÍTICO, e foi daí que a política, se já era voltada para interesses sombrios, tornou-se mais negra ainda, pois as brigas, as fofocas, as futricas e, sobretudo os interesses pessoais ficaram mais evidentes. “Brigar” hoje e se “unir“ amanhã se tornou apenas uma questão de conveniência, dependendo do momento.
Os últimos quarenta anos anos foram marcados por um jogo de cumplicidade entre os políticos limoeirenses, embora em determinados momentos eles tenham se proclamado “amigos” apenas para enganar o povo, se o que nunca existiu na verdade foi amizade entre eles, mas sim, um estado de conexão profundamente personalizado e apesar de tudo isso, no entanto, coexistia entre eles uma visível desconfiança.
A união propalada em determinados momentos de campanhas eleitorais, nunca representou os anseios do povo, propositadamente, colocado no jogo cruel e injusto da política por eles praticada. Aqui cabe muito bem uma citação de Étienne de La Boétie, no seu “Discurso da Servidão Voluntária” quando diz:
“Entre os maus, quando se juntam, há uma conspiração, não uma sociedade; Eles não se entre-apóiam mas se entre-temem. São cúmplices”.
Os atos político-administrativos acontecidos a partir de 1982 e até os dias de hoje, têm sido os mais absurdos em toda história de Limoeiro do Norte. Os mais escabrosos boatos de corrupção, os mais desavergonhados conchavos políticos, os maiores descalabros administrativos, se tornaram tão habituais que viraram rotina e de tal forma, que a população passou a considerar como se fossem ações normais.
Tanto cultuam os atos ilícitos que eles conseguem fazer com que boa parte da população pense em não existir pessoas sérias capazes de administrar o que é do povo com honestidade. O que mais se ouve nas rodas de conversas e com bastante frequência é de que: “todo político é ladrão e que todos são iguais, basta que cheguem ao poder e farão a mesma coisa”.
O ponto a que chegou a consciência do povo como resultado da política que foi implantada nos últimos quarenta anos, tornou-se bastante favorável aos maus políticos, pois, para eles o que interessa é que o povo continue cada vez mais alienado e sem condições de fazer uma análise crítica da situação, optando sempre pelo pior, sendo assim, bem melhor para eles.
Todos eles e da mesma cepa, praticam e disseminam até hoje, a semente nociva da politicagem e com isso conseguem sobreviver politicamente a ponto de superar até mesmo suas próprias contrariedades.
O agravante é que parte da população, aquela que percebe como o jogo é praticado, fica impotente para reverter o quadro que se apresenta, sem nada poder fazer para deter a facilidade com que agem os pseudopolíticos e a falta de escrúpulos com que mostram suas caras ao povo, sempre com a empáfia de grandes líderes.
Os conchavos e os acordos acontecidos a cada eleição são tão deslavados, que sequer se preocupam em esconder das vistas do povo, o que não se restringe apenas ao uso do dinheiro público, mas a um absurdo maior, que é a falta de coerência, de sinceridade e de respeito para com o limoeirense.
A propósito: haverá ato de corrupção maior do que corromper consciências?
MF

Capítulo XXVI - ARIVAN – A PRIMEIRA MULHER A ADMINISTRAR LIMOEIRO

“...a melhor fortaleza que possa existir é o não
 ser odiado pelo povo: mesmo que tenham 
fortificações elas de nada valem se o povo te odeia.” 
 Maquiavel

NO PRIMEIRO DIA do ano de 2001, Arivan Lucena tomou posse, com o privilégio de ser a primeira mulher a assumir a chefia do executivo municipal de Limoeiro do Norte. Sua maior incumbência era afastar da administração um grupo formado em 1982, viciado em costumes políticos rotineiros e defeituosos. 
Chegou à prefeitura com a confiança da população, crente de que, finalmente, depois de tantos anos, o município teria uma gestão séria e honesta sob todos os pontos de vista.
O que ninguém contava era que Arivan causasse grandes decepções na tomada de decisões, ao adotar atitudes contrárias aos compromissos assumidos em campanha.
Desde muito cedo — até mesmo antes de assumir o cargo —, começou a demonstrar que não seria nada daquilo que se proclamava nos palanques. Deixou transparecer que pouco se importava com o que havia proposto em termos de uma administração participativa, democrática e transparente.
As primeiras manifestações de arrogância fizeram com que a população também percebesse que o desembargador José Maria Lucena demonstrava ser, rapidamente, inteiramente manobrável por ela.
Em uma verdadeira demonstração de prepotência e inexperiência política, começou a agir como se o cargo de prefeita lhe desse carta branca para mandar e desmandar. Implantou um governo totalitário, altamente centralizador e ditatorial — superando, inclusive, o ex-prefeito Careca. Principalmente, não admitia, por hipótese alguma, que suas ideias fossem contestadas ou discutidas, tampouco acatava sugestões de quem quer que fosse.
Mesmo assim, administrativamente, conseguiu superar os seus adversários, tratando com respeito o dinheiro público. Contudo, não cumpriu a promessa de tornar transparente o resultado das contas públicas a todos os limoeirenses, informando claramente quanto a prefeitura arrecadava e gastava. Alegava que as contas municipais eram divulgadas pela internet e pelo Diário Oficial do Município (de circulação mensal), esquecendo-se de que essas formas de divulgação não atingem a grande maioria da população. Assim como nos governos anteriores, o povo continuou sem saber quanto o município recebia e gastava.
Como feitos positivos, pagou religiosamente aos servidores, inclusive o 13º salário, algo que nenhum dos gestores anteriores havia feito. Priorizou, ainda, obras que considerava importantes, como colégios e uma quadra de esportes.
Ao reformar a Praça José Osterne, a gestão enfrentou efusivas críticas por transformar o espaço, em vez de uma praça, em um largo (calçadão) que se estende da igreja matriz até o mercado público. Entre as contestações sobre a “reforma”, a mais incisiva era o alerta sobre como ficaria o trânsito da cidade. Isso porque Raimundo de Castro, durante seu governo (1967-1970), havia alargado a Rua Coronel Antônio Joaquim — no trecho entre as ruas Cel. Francisco Remígio e Cel. Sindulfo Chaves — e rasgado a praça ao meio, reduzindo inclusive o secular patamar da Catedral, com o objetivo principal de melhorar o fluxo de veículos no centro. O que não se compreendia era a decisão de fechar o espaço novamente e interromper o trânsito, que, sem dúvidas, estava muito mais intenso do que há trinta anos. Contudo, Arivan — como era de seu feitio — não deu ouvidos às queixas e executou a obra do jeito que idealizou, ignorando um outro projeto já existente que não prejudicaria tanto o trânsito, o que justificou as duras críticas recebidas.

Na verdade, deixou de ser uma praça e passou a ser UM LARGO que começa onde ficava a Praça José Osterne (construída em 1927), estende-se pela Travessa Lucas Carneiro e finaliza no prédio do antigo Mercado Público. O espaço substituiu, inclusive, a histórica e centenária calçada de pedras daquele que foi um dos dois primeiros prédios públicos de Limoeiro do Norte, erguido entre 1877 e 1879.

A obra custou ainda o sacrifício de algumas árvores ali existentes. Por ordem da própria prefeita, todas foram tombadas ao chão, escapando de sua fúria apenas o oitizeiro(*). Ele também teve a sentença de morte decretada, mas antes de sofrer o golpe dos machados — menos cruéis do que a sanha depredadora da gestora —, a população mobilizou-se numa campanha de rádio para preservá-lo. Prevaleceu a vontade popular, contrariando a chefe do Executivo, que não era muito afeita a concordar com o povo.

(*) Não se tem a data exata de quando o belo oitizeiro germinou na praça, nem quem o plantou, mas sabe-se que ele cresceu e continua, até hoje, fornecendo sombra e abrigo com sua vasta folhagem, além da exuberante beleza que encanta os olhos dos limoeirenses. Seria uma ignorância extrema retirá-lo dali, ainda que se encontrasse uma “justificativa” para explicar a sua morte. 

Mesma sorte não teve a malfadada mangueira que existia ao lado do Antigo Hotel Municipal (hoje Secretaria de Educação Básica). A pobre árvore não teve tempo de ser defendida. Quando a população soube da sua morte, já era tarde demais.
O mandato de Arivan foi inteiramente marcado pela intransigência da Câmara de Vereadores, que tentava a todo custo, através de alguns parlamentares, desestabilizar o seu governo. Além disso, criou-se entre vereadores, líderes políticos e a prefeita um profundo ódio, que acabou sendo repassado para a população.
Todo aquele clima de intrigas entre Arivan, Dr. José Maria e os seus adversários contava com o incentivo de Nicanor Linhares, através da Rádio Vale do Jaguaribe, que encetou uma fortíssima campanha contra tudo o que viesse da administração municipal. Além disso, veiculava pela rádio músicas de duplo sentido, debochando do casal e insinuando, inclusive, questões sobre suas vidas particulares.

É conveniente agora que passemos a enumerar alguns casos ocorridos durante a gestão de Arivan, para que compreendamos melhor como tudo transcorreu.

1. Escolha do Secretariado
Ao anunciar o seu secretariado, a prefeita causou a primeira decepção ao nomear para o primeiro escalão pessoas de seu círculo íntimo, gerando desconfiança. Ressalvam-se a isso os Secretários de Saúde, Dr. Ranalfo; da Cultura, Tárcio Pinheiro; e de Urbanismo e Meio Ambiente, o vice-prefeito Laurinho. Estes foram nomeados contra a vontade da gestora, apenas para evitar um rompimento precoce com o grupo que a ajudou a eleger.
No entanto, algumas nomeações causaram estranheza, pois contemplavam figuras do sistema político derrotado. Eram indivíduos estigmatizados como "ratos de prefeitura" — ou seja, profissionais que servem a qualquer chefe do Executivo, justificando-se com a máxima de que não têm culpa da alternância de prefeitos a cada quatro anos.
Contrariando os discursos de campanha, que prometiam banir maus políticos e romper com o modelo administrativo vigente, Arivan passou a criar divergências com os secretários que haviam sido nomeados por conveniência e não por vontade própria. Como resultado, em menos de um mês, o Secretário de Cultura Tárcio Pinheiro pediu exoneração. O mesmo ocorreu com o Secretário de Saúde, Dr. Ranalfo, em menos de dois meses. Ambos alegaram desprezo e falta de apoio da prefeita aos trabalhos que pretendiam realizar. Essas demissões a pedido deixaram a gestora satisfeita, visto que, a partir daquele momento, ela teria o caminho livre para nomear pessoas de sua inteira confiança.
Antes de completar quatro meses de gestão, exonerou o vice-prefeito Laurinho do cargo de Secretário de Urbanismo e Meio Ambiente. A medida ocorreu apenas após constatar que ele resistiria às pressões para pedir demissão, ao contrário do que fizeram Dr. Ranalfo e Tárcio Pinheiro. Aliás, essa foi a marca de todo o seu governo: não demitir ninguém, mas criar situações propositadamente para forçar a saída do servidor.

2. Relações com a Câmara Municipal
Nos primeiros dias de governo, a prefeita deu outra mostra de arrogância ao receber uma comissão composta por vereadores, que estava decidida a fazer uma visita ao seu gabinete para propor um relacionamento de harmonia entre Executivo e Legislativo. A comissão decepcionou-se com a postura da gestora quando ela se dirigiu a eles afirmando, de forma prepotente: “Não preciso de vereador para administrar o município. Façam o trabalho de vocês, que o meu eu sei fazer”.
Nesse caso, é possível compreender a sua atitude como acertada se considerarmos que a visita dos vereadores poderia carregar a intenção de dar continuidade à relação promíscua entre o Executivo e o Legislativo, uma prática histórica e nociva em todas as administrações anteriores, sobretudo a partir de 1982.
Contudo, como já se previa um relacionamento difícil entre os poderes, a partir daquele momento instaurou-se um clima ainda maior de hostilidade. Isso fez com que Limoeiro do Norte conhecesse uma onda de turbulência política nunca antes vista em sua história.
Ao subestimar o Poder Legislativo e considerar os vereadores elementos sem a menor importância, a prefeita passou a sofrer fortes represálias. Como resposta, a tribuna da Câmara transformou-se em palco para pronunciamentos contundentes e inflamados contra a sua administração.

Um dos seus mais ferrenhos adversários e críticos era o vereador Marduque Duarte, que, por vezes, discursava de maneira irresponsável e esdrúxula, fazendo questão de acirrar as intrigas e aprofundar as hostilidades entre a prefeita e seu irmão, o deputado Paulo Duarte.
A maioria dos pronunciamentos de Marduque sugeria a cassação do mandato da prefeita, sabendo que essa ideia agradava aos insatisfeitos com a gestão da chefe do Executivo. No entanto, o seu único objetivo era inflamar o desagrado popular com fins meramente politiqueiros, posto que, em conversas informais, confessava não ter o menor interesse na cassação.
Marduque tentava, intencionalmente, transmitir à população que suas intenções eram as melhores possíveis. Entretanto, o seu real propósito era responsabilizar a prefeita por todos os problemas do município, sugerindo que, antes da gestão de Arivan, Limoeiro era um paraíso — como se os maiores problemas locais não fossem sequer consequências das atuações de políticos que a antecederam, inclusive o seu próprio irmão. Para corroborar essa afirmação, veja-se um trecho de uma entrevista concedida pelo vereador ao site Rumbora, em 2003:

“Vejo que vivenciamos um momento ímpar na política limoeirense, onde a vida humana está valendo menos do que a política partidária, onde o acirramento natural de campanhas eleitorais transformou-se em ódio, rancor, perseguição por parte daqueles que fazem a administração municipal. Vejo também que alguns homens públicos que deveriam ter um papel mais atuante e corajoso, simplesmente ficam escondidos dentro de suas covardias e esperando um momento propício para começarem novamente a enganar o povo”. (Disponível em: http://www.rumbora.com.br/entrevista/marduque.php4. Acesso em: 12 nov. 2003).
As divergências entre os dois poderes levaram a medidas extremas por parte da prefeita. Em vez de reconhecer a câmara como uma instituição importante no diálogo democrático, subestimou cada vez mais aquele poder, editando uma medida provisória com a qual passaria a administrar. De tão absurda, a atitude mereceu um breve comentário da Revista Istoé:
“Se a moda pega... Prefeita da cidadezinha cearense de Limoeiro do Norte, dona Ariovan Lucena (sic) resolveu radicalizar. Sem apoio da Câmara de Vereadores e sem ter como pagar a folha de funcionários, há dez dias governa o município com base em medida provisória que ela mesma editou. Sua assessoria jurídica jura que pode. Mas não se sabe de nenhum caso no Brasil” (Coluna Fax Brasília, Revista Istoé n.º 1715, de 15/08/2002).
3. A derrubada do Muro de Nicanor
Comprou uma briga com seu inimigo figadal, Nicanor Linhares, quando determinou que a máquina da prefeitura derrubasse o muro da residência dele, que avançava ilegalmente sobre a rua. O caso, que ficou conhecido como “a derrubada do muro de Nicanor”, acirrou ainda mais a complexa intriga que se arrastava desde a campanha e que agora tendia a se agravar.
Com o episódio, ficou evidente para todos que a determinação da prefeita demonstrava uma disputa pessoal. Isso porque aquele não era o único muro a descumprir a Lei de Postura do Município. Além disso, Nicanor tinha em mãos uma liminar da Justiça assegurando que o caso estava sub judice, ou seja, a estrutura não poderia ser demolida até o julgamento final.
Sentindo-se profundamente desmoralizado, Nicanor declarou uma verdadeira guerra ao Executivo municipal. Utilizando os microfones da rádio, passou a tratar a prefeita com deslavado deboche, denegrindo sua imagem pública. Ele também passou a insinuar fatos sobre a vida pessoal da gestora e de seu marido por meio de músicas de duplo sentido direcionadas ao casal — atitude que era aplaudida por uns e recriminada por outros.
A partir dali, selou-se a grande e prejudicial briga entre a Rádio Vale do Jaguaribe e a prefeitura. As futricas e fofocas de ambos os lados tomaram o lugar do bom senso e do interesse público. O povo assistia, estupefato, àquele festival de baixarias que alimentava o ódio entre grupos políticos rivais e, por conseguinte, dividia a população.
Não tardou para que os adversários da administração se aliassem a Nicanor. Juntos, eles enxovalhavam os nomes da prefeita e de seu esposo, aproveitando-se da insatisfação popular e da aversão que a população nutria pelo casal.
A peça fundamental na urdidura de toda a intriga — sem a qual nenhum deles teria sucesso — foi a Rádio Vale do Jaguaribe. Transformada em um palanque eletrônico vinte e quatro horas por dia, a emissora já antecipava, discretamente, nomes para a próxima eleição municipal, além de direcionar todas as reportagens e noticiários contra a gestão.
As pessoas usadas por Nicanor e seus comparsas na rádio tinham a tarefa de desestruturar o trabalho da prefeita. O repórter Tom Gurgel, por exemplo, foi meticulosamente moldado para noticiar, com exageros, as falhas administrativas. Ao executar esse tipo de trabalho, Gurgel revelava-se um verdadeiro borra-botas dos inimigos da prefeita.
Sem o menor respeito ao público, as mais absurdas notícias eram levadas ao ar com o único objetivo de atingir negativamente Arivan e seu esposo. Além disso, as linhas telefônicas eram abertas aos ouvintes sem nenhum critério, permitindo que qualquer um falasse o que quisesse e criticasse como bem entendesse.

4. A água da Cidade Alta
Outra atitude de arrogância e de total ignorância política ocorreu quando a prefeita rejeitou uma verba de R$ 230.000,00 (duzentos e trinta mil reais). O recurso, conseguido pelo então Deputado Paulo Duarte por meio do Governo do Estado, destinava-se à construção da adutora que levaria água da sede do município para o Bairro Antonio Holanda de Oliveira (Limoeiro Alto).
Mesmo sabendo que a obra solucionaria de uma vez por todas o gravíssimo problema de abastecimento daquele bairro, Arivan novamente colocou ressentimentos pessoais acima do interesse público. Ela rejeitou a utilização do dinheiro, acreditando que, ao aceitá-lo, estaria beneficiando seu desafeto.
Muito embora tenha recusado a verba, também não moveu uma palha para que o problema fosse resolvido. Com isso, o Limoeiro Alto continuou sofrendo com o péssimo abastecimento de água durante todo o seu mandato.
Foi um prato cheio para os opositores da prefeita, que passaram a tratá-la como a única responsável pela falta d’água na Cidade Alta. Descobriu-se, depois, que todo o alarde feito pelo deputado Paulo Duarte em torno da rejeição não passava de mais uma manobra política, uma vez que o dinheiro, em momento algum, foi liberado pelo Governo do Estado.
Apenas no último mês de sua gestão, utilizando recursos próprios do município, a então prefeita construiu a citada adutora.

5. Eleição de 2002
Aproveitando-se da impopularidade política da prefeita e da rejeição de uma parcela considerável dos limoeirenses, os adversários traçaram uma estratégia para a campanha de 2002 (eleições para Presidente da República, Governador, Senador, Deputado Federal e Deputado Estadual). O objetivo era medir forças com a prefeita e seu esposo, desmoralizando-os por meio de uma votação insignificante para os candidatos apoiados por eles.
O fato mais curioso foi que tanto a prefeita quanto os seus opositores apoiavam o mesmo candidato ao governo do Estado. Essa coincidência gerou uma cena inusitada durante a campanha: no mesmo palanque, a prefeita Arivan Lucena e os seus candidatos, Bismarck Maia e Francini Guedes, posicionaram-se do lado esquerdo do palco, enquanto do lado direito estavam Ariosto Holanda, Paulo Duarte e João Dilmar, acompanhados de Nicanor Linhares.
O momento mais marcante do evento ocorreu quando Arivan, ao ser anunciada, foi recebida com vaias em plena Praça da Rodoviária por cerca de 80% dos presentes, o que gerou grande satisfação nos adversários. As vaias apenas confirmavam o distanciamento e a antipatia que o povo nutria por ela.
A apuração dos votos confirmou o cenário esperado pelos opositores de Arivan, demonstrando a fragilidade política da prefeita diante do eleitorado de Limoeiro do Norte. Os números finais refletiram claramente essa divisão:
  • Ariosto Holanda - 17.505 votos 59% Votação espetacular
  • Paulo Duarte - 12.903 votos 47% Histórico anterior de no máximo 5 mil votos

  • Bismarck Maia - 3.702 votos 13% 
  • Francini Guedes - 2.295 votos 8% 
    Fonte: TRE Ceará – Dados de 10.02.2003.
6. A CPI e a cassação do mandato
Apesar de todas as contrariedades ao que fora defendido durante a campanha, Arivan ainda estabeleceu na prefeitura uma onda de empreguismo muito mais contundente do que os seus antecessores, praticando justamente um dos pontos que mais criticara. O que se viu foi uma enxurrada de empregos dados a torto e a direito, sem atentar para a legalidade.
No primeiro semestre de 2003, começaram a surgir fortíssimos boatos de que a administração havia engendrado um teste seletivo, feito à revelia da lei e de forma a legalizar o grande número de contratações. Os opositores entenderam que o processo tinha como objetivo abrigar todos os que haviam sido admitidos irregularmente para torná-los servidores efetivos, numa demonstração clara de que a intenção era exatamente camuflar essas admissões. Não foi dada a publicidade legal ao edital do concurso, que foi publicado apenas no Diário Oficial do Município, sem que fosse distribuído à população para conhecimento geral de quem quisesse participar.
Diante disso, a Câmara Municipal propôs a instalação de uma CPI para investigar o teste seletivo. O pontapé inicial foi dado quando uma senhora, adepta de Arivan, na tentativa de rebater uma crítica feita pelo radialista Nicanor Linhares sobre o referido teste, caiu ingenuamente nas garras do arguto radialista. Ela declarou que estava empregada na prefeitura, mas que nunca havia feito qualquer prova de seleção nem qualquer outro tipo de procedimento.
Com o depoimento gravado, Nicanor, sedento de denúncias, entregou a gravação aos vereadores, sendo esta a primeira e principal prova da ilegalidade.
Formada a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito), esta chegou à conclusão de que houve realmente irregularidades. Em dezembro de 2003, o vereador José Maria de Andrade requereu a criação de uma comissão processante e, para o azar da prefeita, foi sorteado como relator justamente o seu maior opositor: o vereador Marduque Duarte.
Vários depoimentos colhidos pela comissão constataram as irregularidades do teste seletivo. No dia 07 de abril de 2004, uma “quarta-feira maior”, a Câmara Municipal iniciou a sessão de votação do relatório. Iniciada às dezenove horas, a reunião varou a madrugada. Somente por volta das seis horas da manhã do dia 08 de abril de 2004 — quinta-feira santa — procedeu-se à votação: Arivan foi cassada por 13 votos a favor, 3 contra e uma abstenção, atingindo os dois terços necessários.
Imediatamente, o vice-prefeito Laurinho foi convocado e empossado pela Câmara, de acordo com a lei. Entretanto, como era quinta-feira santa, a prefeitura estava sem expediente. Mesmo acompanhado por uma pequena multidão, Laurinho foi cauteloso e preferiu não arrombar a porta de entrada, apelando para a Justiça. Ele solicitou ao juiz de direito, Dr. João Dantas, autorização para adentrar no prédio. O magistrado, contudo, negou o pedido alegando que, em razão do feriado, o fórum também estava sem expediente e não poderia emitir a autorização.
Aproveitando-se do feriado, Arivan não entregou as chaves do prédio ao vice-prefeito, enquanto seus assessores jurídicos já se movimentavam para devolver-lhe o mandato:
“O novo prefeito Lauro Rebouças Filho, mesmo empossado, ainda não começou a trabalhar na prefeitura, uma vez que a ex-prefeita não entregou as chaves do Paço Municipal. Os advogados da prefeita prometem recorrer da cassação ao Tribunal de Justiça do Estado para reintegrá-la ao cargo”. Fonte: al.ce.gov.br, 14/04/2004
Para a surpresa de todos, logo no início da noite do mesmo dia da cassação, a prefeita reassumiu o cargo. Ela obteve uma liminar que suspendeu os efeitos da sessão da Câmara, concedida pela juíza Maria Valdenisa de Sousa Bernardo, da 1ª Vara da Comarca de Limoeiro do Norte.
De volta à prefeitura, na segunda-feira da semana seguinte, Arivan Lucena fez questão de reunir uma multidão de aliados e apoiadores. Em um inflamado discurso em frente ao prédio do Poder Executivo, demonstrou ainda mais arrogância: chamou o vice-prefeito de palhaço e zombou dos limoeirenses, como se quisesse mostrar que ninguém tinha mais poder do que ela e seu marido. Em sua fala, chegou à impudência de chamar os cidadãos de burros, tudo isso sob a ovação fervorosa de seus bajuladores.
Exibia constantemente, de forma zombeteira, o molho de chaves da prefeitura em um gesto insolente, como quem queria dizer que ninguém as tiraria de suas mãos, agindo como se fosse a dona absoluta do município.
Embora tenha sido merecidamente cassada, tudo não passou de um sórdido e enganoso teatro da maioria dos vereadores, em conluio com assessores jurídicos. A exceção ficou por parte daqueles dois ou três que realmente dignificavam o mandato e queriam a cassação de fato. O que se sabe é que houve uma montagem extraordinária. Criaram um processo viciado em seus trâmites para que pudesse ser facilmente anulado por uma liminar.
Aqueles que tanto “defendiam” os interesses da população em seus discursos, denunciando irregularidades na administração, diziam em conversas informais que não tinham o menor interesse em ver a prefeita fora do cargo. Marduque Duarte, por exemplo, o mais contundente adversário no Legislativo Municipal e relator da Comissão Processante, pronunciava-se sempre em sintonia com o desejo da maioria da população de ver Arivan fora da prefeitura. Entretanto, para ele, era preferível e muito mais favorável que ela permanecesse no cargo. Só assim poderia continuar a briga, sabendo que isso lhe renderia fartos dividendos eleitorais, tanto pessoalmente quanto para o grupo político liderado por seu irmão, Paulo Duarte.
Com a armação de um processo defeituoso para que a cassação não surtisse efeito, confirma-se a hipótese de que o vereador Marduque Duarte, assim como os outros opositores no Legislativo Municipal, via a cassação com desvantagem política caso Laurinho assumisse a prefeitura
Mas foi se passando por defensor dos interesses da população, mostrando-se “bonzinho” e sem segundas intenções, que afirmou em entrevista ao site RUMBORA:
“Existe, como foi provado pela CPI que apurou as irregularidades, uma administração que colocou para dentro os seus afilhados políticos e, do outro lado, pessoas que não tiveram nem o direito de saber que iria existir esse exame seletivo. Sobre mocinhos e bandidos, deixo esse julgamento para o povo fazer.” (03/04/2004)
Outro ponto passível de comentários e desconfianças foi a pressa com que a liminar foi concedida, retornando a prefeita ao cargo. Sobre esse assunto, o deputado estadual Moésio Loiola Wikipedia, da tribuna da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará, declarou-se desconfiado de que houve tráfico de influência, atribuindo-o, certamente, ao desembargador José Maria Lucena:
“(...) Em Limoeiro, tão logo a Câmara decidiu pela cassação, já estava pronta a liminar reintegrando a prefeita. Houve tráfico de influência ou a Justiça age com dois pesos e duas medidas.” (Diário do Nordeste, 14/04/2004)
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Se houve ou não tráfico de influência, como insinuou o deputado Moésio Loyola, o fato patenteado foi uma grave falta de respeito do Poder Judiciário para com o Poder Legislativo municipal.
Como acreditar na democracia e na independência dos poderes constituídos se, em meros minutos, a autonomia de um deles é jogada ao chão, pisoteada e escarnecida? Ainda mais tratando-se do poder que representa a vontade popular.
A liminar da Dra. Valdeniza — que atendeu à Ação Cautelar Incidental proposta pela prefeita sob a alegação de irregularidades no processo de cassação, incluindo expiração de prazo e violação do direito de defesa — causou estranheza. Não pela liminar em si, o que é um direito jurídico, mas pela pressa na concessão. Logicamente, nenhum juiz teria condições de analisar, em apenas algumas horas, um calhamaço de mais de mil e quinhentas páginas. Trata-se, portanto, de uma decisão precipitada que demonstra total desrespeito à lógica dos poderes democráticos.
Ora, se o Judiciário se considera intocável — reagindo ferozmente a críticas aos atos de seus integrantes ou a análises sobre sua atuação —, causa estranheza seu direito de interferir nas decisões legais e “soberanas” de outros poderes sem uma avaliação profunda. Torna-se, assim, incompreensível a atitude de uma magistrada que, em questão de segundos, desmanchou um trabalho que levou meses para ser concluído.
É por esses e outros motivos que a justiça é desacreditada. O que deveria ser um dos serviços mais competentes à disposição da sociedade, chega a ser o mais cruel, visto que muitas vezes não trata a Lei com igualdade para todos. Como já dizia Sólon na Grécia Antiga: "As leis são como teias de aranha: boas para capturar os insetos pequenos, mas os grandes rompem a teia e escapam”.

7. O Assassinato de Nicanor Linhares
Nenhum acontecimento durante a gestão de Arivan teve tanta repercussão e consequências desastrosas para o seu mandato quanto o assassinato do radialista Nicanor Linhares.
Por volta das 20 horas do dia 30 de junho de 2003, pistoleiros invadiram o estúdio da Rádio Vale do Jaguaribe, onde Nicanor se encontrava gravando matérias, e dispararam contra ele nada menos do que 11 tiros.
O crime teve repercussão nacional e internacional, e a caça aos executores foi iniciada antes mesmo do sepultamento. Na manhã seguinte, o deputado Paulo Duarte subiu à tribuna da Assembleia Legislativa do Estado e trouxe uma verdadeira bomba ao caso: declarou que, na sexta-feira imediatamente anterior à segunda-feira do assassinato, havia comunicado ao próprio Nicanor que recebera informações sobre um plano para matá-lo, denunciando, ao mesmo tempo, o Dr. José Maria Lucena e a prefeita Arivan como mandantes do crime.
Se o assassinato em si já era motivo de grande confusão e comoção pública, a situação agravou-se com as declarações do deputado. Limoeiro do Norte, e até mesmo toda a região jaguaribana, por pouco não entrou em um cataclismo sem precedentes. Se parte da população já nutria aversão a Arivan, esse sentimento transformou-se em profundo ódio após a acusação do parlamentar.
A versão de que Arivan e seu esposo foram os mandantes do crime dividiu opiniões, sobretudo levando-se em consideração que todos os políticos limoeirenses — inclusive o próprio Paulo Duarte — tiveram fortes atritos com Nicanor.
Como estratégia de defesa, e declarando que não era somente ele quem tinha divergências com Nicanor, o próprio desembargador denunciou em entrevista ao Jornal O Povo o ciúme que o deputado vinha sentindo, à época, da proximidade do radialista com o então governador Lúcio Alcântara:
“Paulo Duarte, antes da morte do radialista, mostrava-se insatisfeito porque Nicanor estava procurando diretamente o governador Lúcio Alcântara, e teria dito ao parlamentar que, para ir ao governador e ao secretário de governo (Luís Pontes), não precisava dele”. (Jornal O POVO, 10 de outubro de 2003)
É certo que, depois de assumir a prefeitura, Arivan passou a tratar Nicanor como inimigo pessoal, fato demonstrado pela derrubada do muro ao qual já nos referimos anteriormente.
Foi a partir daquele episódio que os ânimos se acirraram, e Limoeiro do Norte passou a assistir a um festival de baixarias partindo, principalmente, do radialista. Essa situação foi confirmada, inclusive, pelo Promotor de Justiça Guilherme Soares ao referir-se aos acontecimentos logo após a eleição de 2000, quando Nicanor apoiou a candidatura de Paulo Duarte para prefeito:
“A partir dali, passou a divulgar em seu programa de rádio 'severas críticas' (inclusive de cunho pessoal) contra a administração dela. Nicanor muitas vezes chegou a abusar do poder de comunicação e da mera crítica, quando também passou a dirigir ataques de baixo calão e de cunho político contra a prefeita e o marido, inclusive sobre o aspecto da vida pessoal deles”, escreveu o promotor no relatório do caso. – Outubro de 2003.
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Os ingentes problemas deixados pelas administrações anteriores, sobretudo os vícios políticos, exigiam que, como uma nova opção para o município, Arivan tivesse capacidade para romper com as velhas práticas politiqueiras. Todavia, conquanto o seu compromisso fosse criar uma ruptura com esses costumes, a prefeita não soube — ou não quis — estabelecer um novo sistema, abrindo espaço para que seus adversários se tornassem cada vez mais veementes na tentativa de desestabilizar a sua gestão.
Naturalmente, não se pode atribuir o seu fracasso político apenas aos opositores. Foi ela mesma quem contribuiu para a sua própria derrocada ao lhe faltarem esperteza e sagacidade para lidar com uma classe viciada em práticas politiqueiras rotineiras. Eles, sim, foram competentes e espertos ao perceberem que a arrogância da prefeita era muito maior do que a sua habilidade para alijá-los definitivamente do cenário político.
Teria dado certo se ela tivesse verdadeiramente se apoiado na vontade popular de renovar as lideranças. Entretanto, distanciou-se do povo ao se mostrar prepotente no exercício do cargo, esquecendo-se de que existia um número considerável de adversários interessados em retornar ao comando político do município.
Mesmo com as enormes falhas, conseguiu ser mais dinâmica na visão administrativa do que os antecessores. Porém, neste sentido, também deixou muito a desejar, uma vez que não teve a ousadia de criar um modelo moderno de gestão. Não combateu o empreguismo por meio de concursos públicos, o que daria um significativo incentivo às carreiras públicas e à eficiência da máquina administrativa. O que fez foi copiar o mesmo modelo clientelista e paternalista, moldando uma gestão inteiramente fisiológica. O que se abateu, na verdade, foi a esperança e a possibilidade de mudança oferecida ao povo durante a campanha, cujo lema era “levar Limoeiro a sério”.
A nova fase política, econômica e social, tão esperada e prometida, não passou de uma decepção, principalmente para os que acreditaram em uma mudança na administração municipal e que a sua eleição provocaria uma ruptura com o sistema político tradicional, implantando um modelo administrativo moderno e participativo.
Essa frustração pode ser explicada pela concepção de que, quando o eleitor opta por uma mudança radical, faz uma aposta arriscada que pode ter o efeito inverso. Partindo desse princípio, podemos afirmar que foi exatamente o que aconteceu em Limoeiro do Norte, quando se colocou no governo municipal alguém sem trabalho de base e inteiramente descomprometida com as reais necessidades da população.
Outro fator decepcionante foram as atitudes do seu esposo, o Dr. José Maria Lucena. Esquecendo-se de que, na época da campanha, havia sido colocado em um patamar de homem sério, honesto e cheio de vontade de mudar o sistema político de Limoeiro, ele chegou a dizer, após a eleição, em uma conversa reservada com o Padre Pitombeira, que “não devia nada ao povo de Limoeiro, pois havia comprado a eleição da sua esposa”.
Aproveitando o gancho dessa declaração do Dr. José Maria ao Padre Pitombeira, vale destacar que o casal — mais notadamente o próprio desembargador — agiu de forma sutil durante toda a campanha. Eles fizeram todos os partidos e apoiadores da candidatura de Arivan acreditarem que as intenções eram verdadeiramente boas. No entanto, logo no dia seguinte à eleição (4 de outubro de 2000), o casal mudou radicalmente o tratamento com todos os que se engajaram na campanha, e ninguém mais pôde contar com a atenção de nenhum dos dois.
A partir daquele momento, começaram a dificultar o acesso, sobretudo, ao Dr. José Maria. Assim que a vitória foi garantida, qualquer pessoa, inclusive os partidos aliados, passou a enfrentar imensas dificuldades de comunicação. A linguagem utilizada por eles mudou completamente, demonstrando, desde então, arrogância e desprezo por todos aqueles que não faziam parte do círculo íntimo do casal.
O que realmente faltou a Arivan e ao Dr. José Maria foi interesse e compromisso para criar um novo sistema político que retirasse do cenário aqueles que há anos se revezavam no poder. Ora, se a campanha foi baseada no combate a uma prática política danosa e cheia de vícios, e se o compromisso era anular os maus políticos, não havia razão alguma para trazer para dentro da administração pessoas que colaboraram com todas as gestões passadas.
Embora, administrativamente, a gestão tenha se mostrado superior aos adversários, ao adotar as mesmas práticas, a prefeita preferiu trilhar o mesmo caminho que eles e cometeu os mesmos erros. Isso decepcionou quem nela votou e quem acreditou na proposta de um governo participativo, onde o diálogo entre a administração e a sociedade seria o ponto principal.
Quando Paulo Duarte fazia discursos e dava entrevistas alertando aos limoeirenses sobre o risco de prepotência por parte do Dr. José Maria Lucena, ele não estava de todo equivocado. No entanto, o que ninguém esperava era que essa mesma atitude de arrogância partisse, primeiramente, de Arivan.
Já a suposta falta de experiência administrativa, que Paulão tentava atribuir à prefeita, não condizia exatamente com a verdade e, ao mesmo tempo, funcionava como uma chantagem contra o eleitor.
Sabe-se bem que um cargo público executivo se exerce com inteligência política. Isso, sim, podemos admitir que faltou a Arivan, sobretudo para agregar forças de sustentabilidade — a começar por aquelas pessoas que estiveram ao seu lado incondicionalmente durante a campanha.
A experiência administrativa é um dado importante, não há dúvida, mas não é o principal. A eventual falta dela pode ser compensada, e até neutralizada, por uma assessoria competente e disposição integral do gestor. Na verdade, era isso que se esperava de Arivan, mesmo sem carisma ou "experiência administrativa". Analisando o passado, podemos atribuir a mesma ausência de experiência aos governos anteriores. Questionamos: qual era a experiência de Dilmar em 1982, quando foi eleito vice-prefeito? E quando se elegeu prefeito em 1988? Qual era a experiência parlamentar de Paulo Duarte quando foi eleito deputado em 1990? A mesma acusação pode ser feita a todos eles, incluindo Careca, Ademar e o próprio Ariosto Holanda. Aliás, o cargo de prefeito — assim como outros postos públicos — é conquistado muito mais por articulações e poder econômico do que pelo curriculum vitae do indivíduo.

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Capítulo XXV - A COMPLICADA ELEIÇÃO DE 2000

A CAMPANHA POLÍTICA de 2000 começou a se apresentar como um acontecimento igual aos outros. Os nomes dos pretensos candidatos eram os mesmos, ou seja, estavam em cena, mais uma vez, os personagens já conhecidos de todos, porém com um elemento que indicava uma novidade na campanha.
Havia boatos de que a esposa do então juiz federal Dr. José Maria Lucena – a professora Arivan Lucena – poderia sair candidata a vice na chapa de João Dilmar. Caso fosse verdade, isso favoreceria muito o grupo de Dilmar, que, sem dúvida alguma, somaria para a eleição o prestígio do Dr. José Maria, na época reverenciado como um limoeirense ilustre, principalmente por estar ocupando a presidência do TRF-5 (Tribunal Regional Federal da Quinta Região), com sede em Recife. Contudo, a investidura de vice não traria nenhuma vantagem, pelo menos imediata, para o desembargador e sua esposa. Por certo, o próprio Dr. José Maria resolveu descartar essa possibilidade e traçar uma estratégia em que Arivan Lucena fosse candidata a prefeita.
Em pouco tempo, não se cogitavam mais os boatos de uma parceria com Dilmar, mas sim a indicação do nome da esposa do desembargador para disputar a eleição ao cargo de prefeita. Mesmo sem a certeza de que Arivan seria realmente candidata, pois faltava apoio político, o Dr. José Maria deu o primeiro passo ao divulgar uma nota de esclarecimento no programa “Encontro Político”, comandado pelo radialista Nicanor Linhares, cuja intenção principal era impressionar os outros grupos. A nota, assinada pela própria Arivan, afirmava categoricamente sua pretensão de ingressar na política, porém sem se juntar a nomes que carregassem em seus históricos suspeitas de desvio de dinheiro público ou qualquer outro fato desabonador. O texto fazia uma referência direta ao Dr. Maílson Cruz como o principal responsável pelos desmandos na época em que Dilmar administrou o município. Aquela declaração também confirmava, nas entrelinhas, a intenção do desembargador de candidatar sua esposa.
Para compreender o contexto dessa nota de esclarecimento, é interessante voltar um pouco no tempo. Naquele momento, o Dr. José Maria Lucena gozava de um prestígio tão elevado por parte dos limoeirenses que era tratado quase como um ídolo. Esse forte apelo popular serviu de base para que ele iniciasse a montagem de uma estratégia para lançar Arivan como candidata à prefeita, buscando o apoio de lideranças políticas locais.
Tentou, primeiramente, aliar-se a Paulo Duarte, porém, ao ouvir do deputado que este traria consigo o grupo de Gladstone Bandeira, o desembargador rejeitou completamente a proposta, alegando que não a aceitaria justamente por causa dos boatos de desmandos na administração.
Depois, em conversa com o grupo de Dilmar, como já mencionado, não houve consenso, obviamente porque Dilmar não abria mão de ser o próprio candidato.
Foi aí que, usando de sua reconhecida sagacidade e esperteza política, o Dr. José Maria sabia perfeitamente que, na qualidade de Juiz Federal com o conceito em alta, não seria bem interpretado se a candidatura da esposa fosse apoiada por grupos políticos envolvidos em denúncias de corrupção. Teria que buscar apoios de outros grupos, notadamente de esquerda, o que denotaria seriedade e mostraria que suas intenções eram as melhores possíveis. Mas isso não seria fácil, posto que o nome de Arivan sofria enorme resistência, e nem o próprio desembargador gozava da total confiança dos demais grupos.
Foi nesse ínterim que entrou em campo, sob a vigilante orientação do magistrado, o Dr. Majela Colares, seu assessor jurídico no TRF-5. Sendo um poeta respeitado e admirado pelos limoeirenses, além de benquisto na sociedade e dotado de trânsito livre entre todas as alas políticas, Majela foi incumbido de iniciar os contatos com os líderes dos partidos opostos aos grupos de Dilmar e Paulo Duarte.
Não era uma tarefa fácil, já que a resistência ao nome de Arivan era muito forte. Contudo, o Dr. Majela conseguiu, de forma inédita, articular e convencer a todos de que aquele era o momento para destronar os políticos tradicionais que, há anos, revezavam-se no poder em Limoeiro. Ele assumiu também a coordenação da campanha, viabilizando a contratação de grandes artistas que deram um brilho especial ao projeto e à promoção da candidatura. Eram os chamados showmícios, que só passaram a ser proibidos pelo STF em 2006.
Foi ainda mérito do Dr. Majela — com sua peculiar ponderação — a manutenção do equilíbrio e do bom relacionamento entre todos os envolvidos no propósito de eleger Arivan Lucena prefeita de Limoeiro do Norte, especialmente entre as lideranças partidárias: Laurinho (PSB), Dr. Ranalfo (PDT) e Nonato Pinheiro (PT).
Estrategicamente, o Padre Francisco de Assis Pitombeira foi inserido no centro das negociações. Homem de caráter inquestionável, ele traria, oportunamente, um brilho excepcional à campanha. Com conceito, conduta e respeitabilidade irrefutáveis, o sacerdote funcionaria como um bastião da moralidade e da ética nas articulações. Logo, Padre Pitombeira envolveu-se de corpo e alma nas estratégias para lançar Arivan à cabeça de chapa. Sua entrega foi tamanha que nada mais era preciso para convencer a todos de que finalmente chegara a hora de unir forças. O objetivo era desbancar o “grupão” que, desde 1982, submetia o município ao atraso.
Tudo teria que ser meticulosamente planejado para que nada desse errado, inclusive o lema da campanha. A frase de efeito deveria deixar claras as propostas de moralidade, honestidade e, sobretudo, respeito ao povo. Alguém sugeriu: “Vamos levar Limoeiro a sério”. A ideia encaixou-se como uma luva e ganhou a simpatia da população, gerando forte impacto. Diante disso, os partidos aliados passaram a acreditar, cada vez mais, na autenticidade das palavras e ações do Dr. José Maria Lucena. Foi assim que cederam a cabeça de chapa para a professora Arivan Lucena, consolidando a coligação PSD/PSB/PDT/PT/PCdoB. Restava agora esperar o dia da convenção!
Voltando a Paulo Duarte, após o insucesso no acordo com o Dr. José Maria, Paulão procurou Tasso Jereissati para cientificá-lo de sua intenção de candidatar-se a prefeito. Foi quando ouviu do governador que este “não iria se intrometer na campanha política de Limoeiro”. Agindo assim, Tasso demonstrava não querer criar divergências com o desembargador, principalmente após ouvir dele que “a eleição de sua esposa para prefeita em Limoeiro era ponto de honra”. Com essa atitude, o governador deixou claro que não declararia apoio formal a nenhum dos candidatos que viessem a disputar o pleito.
Ao saber que o Careca também tencionava candidatar-se com o apoio de seu grupo — o que apenas atrapalharia sua inarredável determinação de colocar o próprio nome na disputa —, Paulão buscou juntar-se a Ariosto Holanda. Juntos, inventaram uma “tal” pesquisa que apontaria, entre ele e Gladstone, o nome para concorrer àquela eleição. Com a cartada que deu diante do resultado da pressuposta sondagem, e como era de se esperar, Paulão foi indicado como o favorito do eleitorado, mostrando com isso, mais uma vez, seu caráter de político pretensioso, daqueles que se acham carismáticos e queridos pelo povo.
É bom destacar que esse tipo de pesquisa, comumente propalada em época de eleições para a escolha de pré-candidatos, nunca teve sua realização comprovada. Trata-se de uma estratégia usada por alguns políticos para afirmar que o povo os escolheu por antecipação.
Mesmo mantendo certa resistência, o Careca resolveu, por fim, apoiar Paulo Duarte, contrariando inclusive alguns “analistas políticos” ligados ao seu grupo que apostavam em sua incondicional candidatura à reeleição.
Quem diria! O Careca não querer ou não poder se candidatar. Inacreditável! Se, até pouco tempo atrás, arrotava o orgulho de ser o maior político limoeirense, era de se estranhar a humildade com que aceitava os resultados de uma "pesquisa". Mas, analisando bem, não era para menos. As fortes suspeitas sobre o uso do dinheiro público certamente o intimidaram a enfrentar a campanha, ainda mais diante da estratégica pressão psicológica por parte de Paulo Duarte, que o atemorizava com a alegação de que poderia até mesmo ser preso por influência do Dr. José Maria Lucena.
Outro fato que o levou a desistir foi o acordo com Paulo Duarte, feito quando o elegeu prefeito pela segunda vez — muito embora cumprir acordos nunca tenha sido o seu feitio. Assim, depois de concretizar seu intento, Paulo se lançou candidato juntamente com o Dr. Lindenor como vice, em uma coligação entre os partidos PSDB, PMDB, PL e PTB, contando ainda com o apoio discreto do governador Tasso Jereissati.

Sólida mesmo era a candidatura de Dilmar que, após ver frustrada a união com Arivan, sustentou a intenção de disputar mais uma vez a eleição, inconformado com a derrota de 1996 para Careca. Certo de entrar na disputa com grandes chances de vitória, acreditava que desta vez não seria derrotado facilmente. Levando em conta a favorável aceitação do seu nome pelos limoeirenses, ele se considerava praticamente imbatível. Para compor a chapa, escolheu o Dr. Reuber, formando a coligação PPS/PPB.
Novamente, o Dr. Maílson Cruz, agindo nos bastidores como uma espécie de “iminência parda”, assumiu a coordenação e o custeio da campanha. Os partidários de Dilmar, então, passaram a alardear uma candidatura imbatível, já contando a vitória como certa.
O cenário estava claro: Dilmar e Paulo Duarte mediriam forças em uma disputa de arrepiar os limoeirenses. Até pouco tempo atrás, seria impossível imaginar os dois concorrendo um contra o outro, dadas as tantas vezes que se proclamaram “amigos” inseparáveis.
Ainda tentando emplacar uma candidatura própria, estava Pedro Julião, filiado ao PSD, cujo diretório municipal era presidido justamente por Arivan Lucena. Julião travava uma luta interna na sigla para também sair candidato a majoritário, mas seus planos foram frustrados com a intenção da própria Arivan de disputar o pleito, o que resultou em uma briga pela vaga. De um lado, Julião tentava conquistar os votos dos convencionais do partido; do outro, Arivan, por meio de seu esposo, contatava cada um deles isoladamente.

A volta da sigla PSD fazia lembrar velhas práticas politiqueiras limoeirenses. Naquele momento, se houvesse alguém que se arriscasse a acreditar em maus presságios, com certeza teria adivinhado o que aconteceria a partir de 2000 em Limoeiro do Norte.

O pleito eleitoral de 2000 ganhou novos contornos com a candidatura de Arivan Lucena. O cenário polarizado foi rompido graças a um acordo costurado entre os partidos de esquerda e o Desembargador Federal Dr. José Maria, consolidando a terceira via na disputa.
A campanha iniciou-se, de fato, no dia 30 de junho, quando ocorreram as convenções partidárias para oficializar as candidaturas. O PSD confirmou o nome de Arivan, apesar da revolta e do inconformismo de Pedro Julião, que viu sepultadas as suas chances de ser candidato. Circulavam boatos de que o Dr. José Maria Lucena teria usado sua influência junto aos convencionais para que o resultado favorecesse sua esposa. Fato verídico ou não, a verdade é que Arivan foi escolhida com uma larga vantagem de votos. Uma vez confirmada a homologação na convenção, ela formou chapa com Laurinho (PSB) e ambos partiram para a disputa.
Outro acontecimento que demonstrou a superioridade e o poder do desembargador ocorreu logo após as convenções. Arivan e Laurinho saíram em passeata pelas ruas da cidade, o que gerou forte reação por parte de Paulo Duarte. Já no dia seguinte, Duarte denunciou o ato nas emissoras de rádio, alegando que a manifestação contrariava a Lei Eleitoral. Ele responsabilizou diretamente o Dr. José Maria Lucena pelo episódio e alertou a população sobre a prática de ilegalidades durante a campanha.
Com as candidaturas definidas, a campanha tomou as ruas. Os comícios transformaram-se em verdadeiras festas, cujas atrações custavam altas somas de dinheiro aos patrocinadores. Os ânimos se acirravam a cada dia, e os palanques converteram-se em palcos de agressões verbais mútuas.
Do grupo que apoiava Arivan, o que mais se ouvia eram denúncias de corrupção, incompetência, nepotismo, empreguismo e falta de respeito ao povo. O ponto alto ocorreu com a divulgação de um relatório do TCM, dando conta de que a administração do Careca desviava dinheiro, sobretudo através da Secretaria de Educação. O relatório foi lido em praça pública por intermédio do então presidente do Legislativo Municipal, o vereador Raimundo Nonato Costa. Ele montou um carro de som de alta potência em frente à Câmara e, perante uma grande multidão, fez com que o documento fosse lido para o conhecimento de todos.

É interessante destacar que Raimundo Costa, até pouco tempo atrás, era aliado do Careca. Sua eleição para a Presidência da Câmara teve o apoio do prefeito, sem o qual jamais teria chegado à chefia do Legislativo municipal.

O candidato a vice-prefeito Lauro Rebouças Filho, o Laurinho, foi guindado rapidamente a uma posição de destaque na campanha, e os seus discursos eram amplamente ouvidos e assimilados pela população. Ele alertava em seus pronunciamentos para a situação crítica em que se encontrava o município, atribuindo-a à irresponsabilidade dos últimos governos, e dizia ser "impossível continuar como estava".
Empenhava toda a sua credibilidade na pessoa do Dr. José Maria, destacando a sorte de Limoeiro do Norte poder contar com uma pessoa da estirpe do desembargador e atribuindo-lhe a responsabilidade por um grande trabalho a partir de 2001.
Já a candidata Arivan Lucena, sem nenhuma experiência em palanques políticos, tornava enfadonhos para o público os seus raquíticos pronunciamentos, sem contar que ainda enfrentava a desconfiança do eleitorado, pois os créditos para uma nova administração recaíam, visivelmente, sobre Laurinho e sobre o próprio Dr. José Maria Lucena. Arivan era, portanto, um fardo pesado a ser carregado naquela campanha.
Os outros dois candidatos, embora fizessem parte do mesmo grupo, estavam naquele momento em palanques diferentes, numa demonstração de que se uniam e brigavam de acordo com as conveniências. Procuravam dirigir seus pronunciamentos ao autoritarismo, à prepotência e à arrogância do Dr. José Maria Lucena, alertando o povo para o que estava sendo praticado durante a campanha em termos de descumprimento da lei, prenunciando como seria o cenário caso Arivan fosse eleita.
Também em todo e seu decorrer, aconteceu uma onda de panfletagens extremamente graves contra os “adversários”, alguns chegavam inclusive a questionar a conduta pessoal dos candidatos.
O mais atingido com os panfletos foi Dilmar, pois lembrava as falcatruas de quando foi prefeito e como sendo aquele que menos merecia o reconhecimento dos limoeirenses.
Outro panfleto, também atingia Dilmar, mostrando algumas fotos em que ele, na sua gestão agrediu professores por ocasião da greve.
Acirrando cada vez mais os ânimos, o radialista Nicanor Linhares, no momento em forte atrito com o Dr. José Maria Lucena usava os microfones da Rádio Educadora para dar a entender à população de que todos estavam sendo enganados pelo desembargador, o considerando um ser “todo poderoso” bem como “um lobo na pele de um cordeiro”.
Mas naquele momento, tentar atingir o caráter e a moral do Dr. José Maria em nada significava, pois se encontrava numa situação de endeusamento por parte de muitos limoeirenses que o colocavam num pedestal como um filho ilustre e que enfrentava aquela campanha, simplesmente pelo fato de querer fazer o melhor para Limoeiro.
Naquelas alturas dos acontecimentos, a briga entre Nicanor e o Dr. José Maria era do conhecimento de todos. Sabia-se, entretanto, ter existido uma certa amizade entre ambos há pouco tempo, tanto que Nicanor foi algumas vezes convidado para ir a Recife, porem encarou a amizade e os convites, como uma forma de cooptá-lo com objetivo de conseguir o seu apoio para a pretensa candidatura de Arivan. Assim, resolveu tomar outra posição e, ao invés de permanecer neutro para não se envolver diretamente, partiu para o confronto hostilizando-se com o desembargador.

Naquela eleição, ninguém sabia exatamente a quem Nicanor apoiava: se Paulo Duarte ou Dilmar, pois tanto um quanto o outro gozavam de sua simpatia e condescendência nas críticas que ele fazia no seu programa. Dizem que, com Dilmar, negociou um vultoso empréstimo em dinheiro para a campanha, em troca, receberia a Rádio Vale do Jaguaribe tão logo terminasse a eleição, para assim concretizar o seu sonho de tornar-se proprietário de uma emissora de rádio.
É bom que se diga que Nicanor, na época, ainda trabalhava na Rádio Educadora e, para seu orgulho, desfrutava do prazer de manter uma enorme audiência em seu programa “Encontro Político”. Isso o fazia sentir-se “o todo-poderoso do microfone”, alimentado pela concepção de que era um gênio do rádio, chegando a ser considerado até mesmo o “Assis Chateaubriand do Vale do Jaguaribe”.
A sua vaidade como profissional atingiu o ponto alto quando viu o seu nome nas páginas dos jornais de todo o Ceará, atribuindo-lhe o mérito de ter sido o responsável pela fragorosa derrota de Tasso Jereissati na região jaguaribana na eleição de 1998 para governador, mesmo com a expressiva votação do tucano no restante do Estado.
Terminada a apuração do pleito, confirmou-se a vitória de Arivan. Curiosamente, os três candidatos terminaram a disputa dentro da faixa dos nove mil votos, o que comprovou o acirrado acirramento da disputa:
  • Arivan – 9.801 votos (34,93%)
  • Dilmar – 9.249 votos (32,96%)
  • Paulo Duarte – 9.011 votos (32,11%) (Fonte: TRE/CE)
Não foi uma campanha fácil para o desembargador. Isso porque, mesmo com o volumoso montante de dinheiro empregado, se não fosse o seu prestígio naquele momento junto aos limoeirenses, dificilmente Arivan teria sido eleita. A vitória encheu de expectativa a população limoeirense, sobretudo a parcela do eleitorado que lhe confiou o voto. Até mesmo os “adversários” acreditavam que Limoeiro do Norte teria uma administração sem precedentes e que o município poderia, enfim, reencontrar o caminho da política séria e de respeito ao povo. O próprio Dilmar, interrogado por um repórter sobre como viu o resultado, respondeu:
“perdi a eleição e estou indo para Fortaleza, porém, certo de que Limoeiro do Norte terá uma grande administração”.
Já com Paulo Duarte, a reação foi diferente. Logo no dia seguinte à eleição, ele concedeu entrevista na Rádio Vale, demonstrando revolta com a vitória de Arivan e inconformismo com a derrota. Fez declarações desairosas e deselegantes, insinuando que Limoeiro do Norte estaria entrando em uma gestão onde a prática da ilegalidade seria corriqueira, devido ao poder e à arrogância do Dr. José Maria Lucena.

segunda-feira, 12 de maio de 2025

Capítulo XXIV - VOLTA DO CARECA AO PODER

NO PRIMEIRO DIA de janeiro de 1997, José de Oliveira Bandeira, simplesmente conhecido como “O CARECA”, tomou novamente assento na cadeira de prefeito de Limoeiro do Norte. A manhã de quarta-feira foi marcada por uma pomposa festa de posse, com direito a passeata e queima de fogos pelas ruas da cidade. Os discursos teciam loas àquele que trazia — de forma enganosa — a áurea de maior administrador da história do município. Em sua fala, o próprio Careca bradou em alto e bom som: “Quero dizer a vocês, que me chama de analfabeto, que tô dando bolo em muitos doutor, pois sei administrar mió do que qualquer um de vocês”.
Essas palavras deixaram visivelmente encabuladas figuras presentes à solenidade, como Paulo Duarte e Ariosto Holanda, que certamente pensaram: “É bem-empregado! Fomos dar corda para um analfabeto!!!”. Se o prefeito se manifestou de forma tão egocêntrica naquele momento, foi certamente embriagado por um recente elogio do governador Tasso Jereissati, que, ao falar a seu respeito, o havia rotulado de “doutor em povo e em administração”.
Assim se iniciava o segundo mandato de José de Oliveira Bandeira (Gladstone). O primeiro grande equívoco da gestão foi fazer de tudo para eleger o seu filho, Gladis, presidente da Câmara Municipal. A manobra visava manter o Poder Legislativo sob controle, detendo a maioria dos vereadores para garantir a aprovação tranquila de matérias, em um parlamento meramente fisiológico e submisso.
Mais adiante, esse erro custaria caro ao gestor, que perdeu o apoio do presidente da Câmara logo na eleição seguinte. Para agravar o cenário, a prática do nepotismo voltou a ocorrer à vista de todos: a nomeação para o cargo de tesoureira recaiu novamente sobre a sua filha, Lúcia, desta vez acompanhada do esposo, Paulo César, empossado como Secretário de Administração.
O cargo de Procurador Jurídico da Prefeitura coube ao advogado João Batista Freitas de Alencar — que, ironicamente, no passado fora tratado como "advogadozinho de merda". (ver Capítulo XVII). Em 1988, o Dr. João Batista esteve no palanque de Rita Peixoto. 
É preciso recordar que, em 1983, quando o Careca assumiu a administração, recebeu das mãos de Evaldo Holanda Maia uma prefeitura com as contas públicas inteiramente em dia: finanças equilibradas, funcionalismo dentro do limite legal e uma considerável reserva financeira em conta bancária (em torno de 13 milhões de cruzeiros).
Em 1997, contudo, aconteceu exatamente o contrário. Ele recebeu uma prefeitura falida, com dívidas acumuladas no comércio, cinco meses de atraso na folha de pagamento, uma quantidade espantosa de cheques sem fundos emitidos pelo município e outros abusos da gestão anterior. Diante de tais dados, aquele que antes fora considerado o melhor administrador da história da prefeitura não conseguiu confirmar a boa impressão que deixara em 1988. Na verdade, o que existiu naquela época foi uma falsa propaganda montada para enganar a população.
Logo no início, o gestor deu mostras de fraqueza, principalmente quando surgiram boatos de que sua filha Lúcia e seu genro Paulo César eram quem determinavam as diretrizes da administração, e que nada era feito sem a anuência prévia deles.
Aquele Careca que, no primeiro mandato, dava murros na mesa para intimidar sobretudo os cidadãos mais humildes que o procuravam, transformou-se em um administrador apático e hesitante, sem autoridade para conter os “erros” cometidos por seus próprios familiares no governo. Como justificativa, ele alegava a situação precária em que encontrara a prefeitura, declarando-se impossibilitado de fazer uma boa gestão. O argumento não convenceu ninguém; serviu apenas para desmistificar a imagem de grande administrador construída ao deixar o cargo em 1988.
Ao receber a prefeitura em situação caótica e endividada, o gestor não demonstrou competência para sanear as contas públicas. Se, no primeiro mandato, promoveu melhorias nas praças, priorizou estradas vicinais e prestou uma série de outros serviços, no segundo não passou de um prefeito inoperante e fraco em suas decisões. Faltou-lhe, antes mesmo do tino administrativo, o compromisso básico com o cargo para o qual havia sido eleito.
Na verdade, a crise enfrentada era uma continuidade dos desmandos dos prefeitos anteriores, inclusive os dele próprio, cujo ônus recaía mais uma vez sobre a população. Ruas esburacadas, lixo acumulado, estradas intransitáveis, servidores com salários atrasados e ações judiciais por precatórios foram os obstáculos que ele e sua equipe usaram para justificar a péssima gestão. Convém ressaltar que todas essas mazelas tiveram início na sua primeira gestão, quando instituiu práticas de nepotismo, fisiologismo, empreguismo e uma política de favores, à época em que se autoproclamava um gestor insuperável.
Para completar, nos meses finais de seu mandato, resolveu atrasar a folha de pagamento, em uma demonstração de desrespeito com o dinheiro público. Indagado por um amigo sobre a razão do atraso, rebateu de maneira irônica e irresponsável, afirmando que “não era prefeito para administrar folha de pagamento”.
Mas nem mesmo o fracasso administrativo do Careca tirou do grupo a certeza de que nada impediria a sua reeleição, assegurando não haver nenhum entrave e, muito menos, outro nome que tivesse condições de concorrer. O próprio Careca, sem reconhecer sua incompetência administrativa, dizia aos quatro ventos ser o político de maior prestígio em Limoeiro e, por isso, sua condição de candidato à reeleição era indiscutível. O procurador jurídico da prefeitura, Dr. João Batista – tempos atrás difamado pelo Careca – dizia firmemente em conversas informais que a eleição iria acontecer apenas por uma questão de cumprimento da lei, mas a recondução do Careca à prefeitura seria quase por aclamação.
O que eles não contavam era o aparecimento de vários fatores que desencadeariam em um caminho completamente diferente para o Careca e o seu grupo, e vamos ver isso nos relatos sobre a próxima campanha eleitoral.
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Lembremos que foi a partir de 1982 que nasceu um novo ciclo político em Limoeiro, que podemos chamar de “CICLO DOS AMIGOS”. No decorrer dos anos, seus integrantes tornaram-se cúmplices em manobras de enganação e maldade, travando uma disputa diabólica pelo poder, movidos pela intenção egoísta de lucrar uns sobre os outros.
Os atos administrativos praticados desde 1982 até os dias de hoje estão entre os mais absurdos da história de Limoeiro do Norte. Escândalos de corrupção, conchavos políticos desavergonhados, desrespeito ao povo e descalabros administrativos tornaram-se tão habituais que a população passou a encará-los como normais.
Tanto se cultivaram os atos ilícitos que os integrantes do “ciclo dos amigos” conseguiram convencer boa parte da população de que não existem pessoas sérias capazes de administrar o município com honestidade. Nas rodas de conversa, a frase mais ouvida era: “Todo político é ladrão e todos são iguais; basta chegarem ao poder para fazerem a mesma coisa”.
Essa descrença na política, subproduto das últimas gestões municipais, tornou-se extremamente favorável aos maus políticos. Para eles, o que interessa é manter o eleitorado alienado, sem condições de fazer uma análise crítica da situação. Assim, o povo opta sempre pelo "menos pior", o que, no fim das contas, é bem melhor para a manutenção do poder desses grupos.
O segundo mandato do "Careca" foi a prova definitiva de que o político que se aventura a agir de forma enganosa para com o povo, invariavelmente, acaba mostrando a sua verdadeira identidade. Mais cedo ou mais tarde, suas ações revelam quem ele realmente é, pois basta surgir um momento que exija seriedade para que sua verdadeira personalidade venha à tona. Aqui cabe muito bem a célebre citação atribuída a Abraham Lincoln Pode-se enganar a todos por algum tempo...: "Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos todo o tempo."
O fato é que Ademar entregou a prefeitura ao Careca com cinco meses de atraso na folha de pagamento, e este a entregou com oito meses — ou seja, os cinco de Ademar somados a mais três de sua própria gestão —, o que gerou uma enxurrada de precatórios para as administrações seguintes. Na carona da folha, entraram também em atraso as obrigações patronais com a Previdência Social, o que caracteriza outro ato puramente desonesto, principalmente porque parte desse dinheiro significa apenas um repasse, já que é descontado dos próprios salários dos servidores.
Incrível foi o destino dado ao dinheiro tirado do suor do funcionalismo público! Todos eles o usaram principalmente nas eleições de seus sucessores, por meio de acordos espúrios e vergonhosos, com o único objetivo de garantir a impunidade e a continuidade dos desmandos.
Todos, sendo da mesma cepa, disseminaram a semente nociva da politicagem e, com isso, conseguiram sobreviver e superar até mesmo suas próprias contrariedades.
O que deixava a parte consciente da população espantada e impotente, para reverter aquele triste quadro, era a facilidade com que agiam e a falta de escrúpulos com que mostravam suas caras ao povo, sempre com a empáfia de grandes líderes.
As ações desonestas vieram à tona principal dos administradores que fizeram parte do "ciclo dos amigos" em Limoeiro e as suas ações foram tão deslavadas que sequer se preocuparam em esconder do povo os seus atos. Isso não se restringiu apenas ao uso do dinheiro público, cujo mal maior foi a falta de coerência, de sinceridade e de respeito aos cidadãos.