APROXIMAVA-SE MAIS uma eleição. Tudo indicava que Limoeiro iria ter uma disputa acirrada, porém sem nenhuma novidade em termos de candidaturas, exceto o PT, que, desde o início do ano, vinha divulgando o nome do empresário Wanderley Nogueira como candidato do partido.
Naquele pleito (2008), o cenário político em Limoeiro do Norte foi marcado por forte polarização e realinhamentos estratégicos. João Dilmar da Silva, que exercia o seu segundo mandato como prefeito e havia sido eleito em 2004 pelo PPS, migrou para as fileiras do PRB para buscar a reeleição.
Com a insistente divulgação do nome de Wanderley, o PT sinalizava a disposição de lançar uma nova liderança para romper com a estagnação política que se repetia a cada eleição há quase quatro décadas. Tal estratégia representaria uma mudança drástica no panorama local, além de configurar um desdobramento saudável para o cenário político da época. A intenção do partido causava surpresa e, por certo, estranheza, dado que, desde sua fundação em 1985, a legenda permanecia sob a liderança da família Pinheiro. Até aquele momento, era improvável que um candidato alheio ao clã familiar — ou que não integrasse seu círculo mais restrito — obtivesse a indicação partidária.
Contudo, a viabilidade dessa nova alternativa passou a inquietar os integrantes do principal bloco opositor ("grupão"). Evidenciava-se que o nome do jovem empresário Wanderley Nogueira alcançava expressiva aceitação popular, tornando-se o principal tema dos debates informais e consolidando-se como uma alternativa concreta perante o eleitorado. Consequentemente, instaurou-se um clima de apreensão entre os pré-candidatos do grupo governista e seus respectivos aliados, cientes de que a ascensão de uma candidatura renovadora comprometeria seriamente a hegemonia política de todos eles.
Diante disso, os bastidores – sombrios bastidores! – foram acionados, e puseram-se em prática as velhas e costumeiras manobras políticas a fim de inviabilizar a pretensão de Wanderley. O movimento ocorreu, sobretudo, devido a boatos de que uma pesquisa encomendada pelo bloco governista (leia-se: subgrupo de Dilmar), em abril de 2008, já posicionava o pretenso candidato petista com 14% das intenções de voto. Longe de contê-lo, esse fato impulsionou a divulgação do nome de Wanderley Nogueira, notoriamente articulada pelo articulador petista Nonato Pinheiro e pela então presidente do diretório municipal, Nadir Chaves. Tratou-se de uma clara demonstração de habilidade em engendrar maquinações políticas para extrair dividendos futuros.
Deflagrou-se, a partir de então, uma onda de rumores sugerindo que Wanderley fora convidado para figurar como candidato a vice-prefeito na chapa de Dilmar, após uma reunião reservada entre este e Nonato Pinheiro. O diálogo contava com o respaldo do diretório estadual do PT, que pressionava a militância limoeirense a abdicar de uma candidatura própria no município. Wanderley, contudo, já havia declarado publicamente que não aceitaria, sob hipótese alguma, compor chapa como vice, ciente de que a estratégia visava, unicamente, neutralizar sua liderança no pleito.
A recusa de Wanderley em compor a chapa como candidato a vice de Dilmar geraria uma situação delicada. Surpreendentemente, quando se presumia a consolidação da aliança e o apoio efetivo do PT ao seu nome, Wanderley, de forma inesperada, anunciou sua renúncia em entrevista por telefone à Rádio Vale do Jaguaribe. O político abdicou da candidatura governista e, mesmo sob a insistência do radialista sobre as razões de sua decisão abrupta, recusou-se a prestar esclarecimentos, limitando-se a declarar: “não sou mais candidato”. De maneira ainda mais emblemática, no dia seguinte, o veículo de Wanderley já circulava com propaganda em apoio à candidatura de Arivan Lucena, o que viabilizou o espaço para que Nonato Pinheiro articulasse novas coligações e acordos partidários.
Há quem assegure que Wanderley abdicou de sua candidatura em troca da concessão de um vultoso empréstimo pelo Banco do Nordeste do Brasil. Tal movimento teria ocorrido sob a influência do deputado José Guimarães — um dos principais articuladores a pressionar o diretório do PT limoeirense para que abandonasse a candidatura própria — e contado com a anuência de Nonato Pinheiro.
É imperioso reconhecer a destreza da estratégia de Nonato Pinheiro. O êxito da manobra outorgou-lhe plena liberdade para delinear as diretrizes do acordo que, subsequentemente, firmaria com Dilmar, viabilizando a imposição categórica de seu nome para a vaga de vice. Desse modo, o grupo político de Dilmar viu frustrada a intenção de cooptar Wanderley para a composição majoritária — arranjo que, caso concretizado, resultaria em expressiva vantagem à campanha do então prefeito. Todavia, dado o prévio envolvimento em tratativas e coalizões espúrias para aquele pleito, não restou alternativa a Dilmar senão chancelar a indicação de Nonato Pinheiro. Havia a plena ciência de que o nome do petista agregaria escasso valor ao projeto e que, em contrapartida, hostilizaria a candidatura devido ao seu controverso histórico político; contudo, a ala governista não dispunha de outra opção senão acatar a referida indicação.
Uma vez selado o ajuste, Dilmar coordenou uma robusta frente partidária, a qual aglutinou legendas como PSL, PTB, PMDB, PV, PT, PSC, PSB, PP, PHS e PRB.
Com a consolidação das candidaturas de Dilmar e Nonato Pinheiro aos cargos de prefeito e vice-prefeito, respectivamente, restava apenas a oficialização dos nomes de Arivan e Paulo Duarte. Caso tais postulações se confirmassem, restabelecer-se-ia o cenário verificado no certame eleitoral do ano 2000, reiterando-se os mesmos candidatos.
Assim, o cenário político de Limoeiro do Norte nas eleições de 2008 configurou-se a partir de uma intensa polarização. Paulo Duarte, em oposição ferrenha ao grupo liderado pelo então prefeito João Dilmar, bem como à ala de Arivan Lucena, ainda com os resquícios do crime de Nicanor Linhares, compôs sua chapa majoritária com o radialista Rosálio Daniel. O comunicador gozava de expressiva popularidade e ampla aceitação popular, capitalizada majoritariamente por meio de sua audiência no programa Encontro Político, continuado por ele a partir da morte do próprio Nicanor.
Convém lembrar que Rosálio Daniel exercera o cargo de Secretário de Cultura nos anos iniciais da gestão de Dilmar. Sua exoneração, contudo, foi sucedida por dissidências de ordem pessoal e política. Imbuído de forte ressentimento, o radialista resolveu canalizar sua influência midiática contra o chefe do Executivo, a quem imputava condutas desabonadoras durante o período em que integrou o primeiro escalão municipal. Em conversas informais, Rosálio Daniel chegou a manifestar o propósito de desestruturar politicamente o antigo aliado. Todavia, o comunicador subestimou a densidade política do agrupamento governista — um dos mais consolidados da região — e superestimou o alcance do próprio capital político isolado do prefeito.
Cônscio do poder de penetração dos meios de comunicação de massa e de seu público cativo, o radialista projetou a conversão da audiência em votos, condicionando sua participação como candidato a vice-prefeito na chapa de Paulo Duarte.
Paralelamente, consolidou-se a candidatura de Arivan Lucena. Respaldada por um histórico de aproximadamente 30% das intenções de voto no eleitorado limoeirense, Arivan formou sua chapa com Jerônimo Osterne, articulando uma coalizão com o PRTB, o PTB e o PR — estes dois últimos bastantes desgastados perante a opinião pública.
Por fim, o PSTU oficializou a candidatura de José Maria de Andrade. Com uma plataforma alinhada à esquerda radical, a candidatura cumpriu um papel estritamente ideológico, demarcando distanciamento programático em relação às demais forças políticas em disputa.
O pleito municipal de 2008 caracterizou-se pela acirrada disputa entre as três principais vertentes locais. O desfecho das urnas confirmou a reeleição de João Dilmar, que assegurou a vitória por uma margem estreita de sufrágios. Os resultados oficiais totalizaram:
- João Dilmar: 12.730 votos (37,90%)
- Paulo Duarte: 11.127 votos (33,13%)
- Arivan Lucena: 9.583 votos (28,53%)
- José Maria de Andrade: 149 votos (0,44%)
⛯⛯⛯
No pleito de 2008, o cenário político em Limoeiro do Norte (CE) foi caracterizado por uma intensa polarização e por realinhamentos estratégicos significativos. O então prefeito João Dilmar da Silva, eleito em 2004 pelo PPS, migrou para as fileiras do PRB com o intuito de buscar a reeleição. Visando à ampliação de sua base de apoio e à garantia da governabilidade, o candidato governista enfrentou uma disputa acirrada.
A pulverização dos votos entre Dilmar, Paulo Duarte e Arivan Lucena evidenciou uma profunda cisão no eleitorado limoeirense da época.
O sucesso nas urnas assegurou a João Dilmar a chefia do Executivo municipal. Sua vitória, consolidou os blocos de oposição e situação que protagonizariam os embates eleitorais subsequentes no municipio.
Paralelamente ao resultado das urnas, o processo eleitoral de 2008 desdobrou-se em um complexo embate jurídico, culminando na cassação do mandato do prefeito eleito em primeira instância. Todavia, por meio de medidas liminares, o gestor e seu vice, Nonato Pinheiro, mantiveram-se no exercício de suas funções, assegurando a continuidade administrativa até o término do mandato.
Nenhum comentário:
Postar um comentário