A CAMPANHA POLÍTICA de 2004 se aproximava com a certeza de que seria uma verdadeira guerra entre o grupo da prefeita e os seus adversários. O clima no município era tenso e delicado. O eleitor encontrava-se extremamente decepcionado, com a autoestima em baixa e a esperança mutilada, procurando, em meio aos acontecimentos, uma saída positiva.
Arivan se tornara o centro do ódio para a maioria dos limoeirenses. A sua conduta como prefeita era questionada devido a uma série de fatores que contribuíram para a sua rejeição por parte da maioria da população. Como pontos principais, pesavam contra ela a acusação de ser mandante do crime contra o radialista Nicanor Linhares e o fato de manter-se no mandato por meio de uma liminar, desde que foi cassada em abril de 2004 pela Câmara de Vereadores, além de sua postura considerada arrogante. Apesar de tudo, teimava em candidatar-se, o que para muitos era um ato de ousadia e muita coragem e, no discurso dos adversários, uma afronta aos limoeirenses.
Mesmo com dados tão deprimentes, Arivan ainda causava pânico aos inimigos, que chegaram a se amedrontar com o fantasma de mais uma derrota depois da confirmação de sua candidatura. A surpresa foi a escolha do candidato a vice-prefeito, que recaiu sobre a pessoa de Pedro Julião, muito embora já estivessem aliados havia algum tempo.
Do outro lado estava Dilmar que, mesmo derrotado por duas vezes, anunciava a sua inarredável disposição de mais uma vez candidatar-se. Ele não aceitava, por hipótese alguma, qualquer negociação que pretendesse tirar-lhe a cabeça de chapa, pois sabia, junto com seu grupo, que aquela seria a sua última cartada e, portanto, teria que ganhar a qualquer custo. Mais uma vez, apostava na aceitação que teve nas eleições passadas (1996 e 2000), sempre com um percentual girando entre 25% e 30% do eleitorado.
Estranha foi a atitude de Paulo Duarte, já que sua candidatura era esperada por todos em virtude da briga que comprou quando denunciou José Maria Lucena e Arivan, da tribuna da Assembleia Legislativa, como mandantes do crime de Nicanor Linhares. Acreditava-se que sua disposição em denunciar o casal teria sido para beneficiar-se politicamente, repetindo a dose da eleição de 2002, quando obteve uma estrondosa votação (47%), justamente por causa da intriga existente. Todavia, decidiu apoiar a candidatura de Dilmar, mesmo com a grande possibilidade de sair vitorioso naquela eleição, pois, naquele momento, era ele quem absorvia toda a rejeição da prefeita. O que não se esperava era que ele cedesse o lugar de candidato para outra pessoa, muito menos para Dilmar.
Era estarrecedor o fato de Dilmar e Paulão estarem juntos, se, até pouquíssimo tempo atrás, não se olhavam na cara e nem existia o mínimo de confiança entre eles para estabelecerem uma união. A palavra “amigos” era totalmente descartada do dicionário de ambos. Entretanto, estabeleciam um jogo de cumplicidade na luta pelo poder, totalmente esquecidos de que, na campanha passada, trocaram calorosas farpas em palanques contrários.
Paulo Duarte nunca explicou direito ao povo o motivo que o levou a jogar fora a grande oportunidade de tornar-se prefeito, ainda mais quando se sabia que esse era o seu maior desejo. Como diz o adágio popular, “o cavalo passou selado”, mas ele desperdiçou a chance de montar, preferindo “entregar o ouro aos bandidos”.
Pode-se supor, entretanto, que um dos fortes motivos — inclusive muito comentado pelo povo — foi o fato de que, quando procurou formar o grupo de apoio, já não tinha mais ninguém. Isso porque o Dr. Maílson já tinha atraído todos para apoiar Dilmar, e só entraria com os gastos da campanha se este fosse o candidato. Outra versão é a de que temia por sua vida devido a algumas ameaças que vinha recebendo por conta da denúncia feita aos arqui-inimigos José Maria e Arivan; e muito mais, porque a denúncia levou ao desbaratamento de uma quadrilha de assaltantes e pistoleiros na região jaguaribana.
O acordo de seguir junto com Dilmar foi selado publicamente por meio de entrevista conjunta na RádioVale do Jaguaribe, tendo como única imposição que sua irmã, Elizete, fosse a candidata a vice-prefeita.
A entrevista serviu para que, mais uma vez, Dilmar e Paulo Duarte trocassem elogios. Isso era de praxe entre eles, que o faziam com a mesma facilidade com que brigavam em determinados momentos.
No mesmo barco de Paulo Duarte, entraram "Careca", Ademar Celedônio e Ariosto Holanda a favor da candidatura de Dilmar, deflagrando a união de todos aqueles que, em um passado recente, estiveram se digladiando e se agredindo entre si.
Finalmente, surgiu uma terceira candidatura. Tratava-se do vice-prefeito Laurinho, em uma coligação entre PSB, PT e PMDB, formando chapa com o Dr. Lindenor. Este, insatisfeito por não ter algumas de suas exigências aceitas, resolveu romper com o “grupão”. A coligação teria ainda a adesão do PV, entretanto, Luiz Mendes decidiu candidatar-se sozinho, mesmo sabendo que jamais teria condições sequer de concorrer.
Quando a campanha chegou às ruas, iniciaram-se as brigas de palanque, e o eleitor assistiu ao maior espetáculo de baixarias já visto em uma campanha política no município.
Os comícios se transformaram em verdadeiras arenas, e os palavrões eram ditos sem o menor respeito ao povo. O palanque de Dilmar dirigia impiedosamente a Arivan e ao Dr. José Maria as mais absurdas frases, principalmente com relação ao crime de Nicanor Linhares, que foi intencionalmente transformado na bandeira principal da campanha.
O ponto alto deu-se durante a realização de um comício na Praça do Seminário, onde o linguajar usado pelos oradores foi deprimente. Em vez de levar propostas de trabalho e mudanças para o tão mutilado processo político, simplesmente promoveram uma audiência pública de condenação à prefeita e ao seu esposo, chamando-os de criminosos, farsantes, mentirosos, entre outros adjetivos. Chegaram ao ponto de dizer “que o casal entrava na igreja para engolir hóstia e saía cuspindo sangue”.
Além de usarem na mensagem principal da campanha um crime que abalou toda a região pelo ato de selvageria com que foi praticado, o espetáculo ficava ainda pior quando "o Careca" se dirigia a Dilmar apenas com elogios, esquecendo que o chamara de “meninão” e “cara de boneca” no passado. Da mesma forma, Ademar Celedônio, mesmo tendo sido o maior desastre administrativo de Limoeiro, não só elogiava, como também era eloquentemente elogiado pelos companheiros de palanque. Paulo Duarte dirigia-se a Dilmar chamando-o de “amigo” e distribuindo sua metralhadora verbal para falar do crime de Nicanor, acusando insistentemente o casal Lucena. Seu irmão, Marduque, usava o mesmo crime para criar cenas de deboche no palanque, insinuando, inclusive, que teria mais votos naquela eleição do que a candidata Arivan. O quadro se completava quando Ariosto Holanda comparecia aos comícios e levava ao povo um pronunciamento inteiramente demagógico. Ele sempre externava aos limoeirenses um perfil de seriedade; no entanto, não se abstinha de fazer parte da grande farra que o grupão promovia para conquistar novamente o poder.
Toda aquela cena dantescamente fantástica era assistida por uma plateia interessada apenas em ver
Arivan derrotada. O público não atinava para as consequências que adviriam daquela eleição, em total obediência à frase de efeito criada para disseminar, cada vez mais, a rejeição à prefeita. Ouvia-se nos quatro cantos do município: “Não importa quem ganhe, o importante é derrubar a mulher”.
Arivan derrotada. O público não atinava para as consequências que adviriam daquela eleição, em total obediência à frase de efeito criada para disseminar, cada vez mais, a rejeição à prefeita. Ouvia-se nos quatro cantos do município: “Não importa quem ganhe, o importante é derrubar a mulher”.
Para demonstrar que, se fosse eleito, Limoeiro do Norte teria uma administração diferente — até mesmo de sua primeira gestão —, Dilmar tentava conquistar o eleitorado com a realização de seminários, dos quais sairia uma cartilha com as propostas de governo. Mesmo vendo o desinteresse do povo nesses eventos, resolveu publicar o livreto estabelecendo metas para a administração. No entanto, não teve o cuidado de evitar a inserção de promessas absurdas, como “a conclusão do ginásio coberto”, esquecendo-se de que ele próprio não o havia concluído por negligência quando foi prefeito. Por outro lado, dizia abertamente à população que faria um bom governo e tranquilizava o povo — agora mais amadurecido —, sugerindo que esquecessem a fraca gestão de 1989-1992.
Mais uma vez, uma onda de panfletagens de origem desconhecida foi usada para denunciar os adversários, e novamente Dilmar foi o mais atingido.
Enquanto Arivan e Dilmar ostentavam uma campanha com esbanjamento de dinheiro e contratação de atrações caríssimas, Laurinho prosseguia humildemente com reuniões nas comunidades. Ele tentava levar sua mensagem como a única que propunha seriedade e respeito aos limoeirenses.
Finalmente, depois de tantas baixarias, chegou o dia da eleição. O resultado foi bastante favorável a Dilmar, senão vejamos:
- Dilmar - 57,7% dos votos.
- Arivan obteve 27,7%,
- Laurinho ficou com 7,5%
- Luiz Mendes alcançou 1,2%.
⛯⛯⛯
Podemos considerar que a eleição de 2004 em Limoeiro do Norte foi um caso sui gêneris e deu-se por fatos inteiramente fora do contexto normal de uma campanha política.
Tudo o que ocorreu comprovou aquilo que já relatamos em termos de personalidade dos participantes do processo político de Limoeiro das últimas décadas, ou seja, nunca se recusaram em utilizar quaisquer motivos, por mais absurdos que se apresentassem, desde que acarretassem rendimentos eleitorais, mesmo em detrimento de toda uma população.
Naquela campanha se ouviu mais do que nas outras, pronunciamentos agressivos e deprimentes em cima dos palanques. A indústria da mentira foi trabalhada com tanta eficiência durante a campanha e de tal forma que surtiu o efeito desejado para aquele que conseguiu melhor repassar para o povo sua enganosa mensagem.
Aliás, é muito comum aos políticos usarem do artifício da mentira espelhando-se em uma frase tida como eficiente e princípio de um dos líderes da Alemanha Nazista Joseph Goebbels: (Responsável pela propaganda de massa feita pelo nazismo na II Guerra Mundial. Exercia ainda um severo controle sobre as instituições educacionais e sobre os meios de comunicação).“Uma mentira dita cem vezes torna-se verdade”. O uso desta frase não passa de mais uma artimanha dos políticos para tirar proveito próprio sem a preocupação de que está levando toda uma população para o abismo da miséria e da alienação política.
O mais incrível e até inaceitável na campanha de 2004, foi o uso imoral e sórdido do assassinato de Nicanor Linhares utilizado pelo “Grupão” para denegrir as imagens de Arivan e do seu esposo, fazendo as mais ineptas acusações, sabendo de antemão que os pronunciamentos neste sentido eram do agrado da maioria do eleitorado e que produziam efeitos positivos.
Outro fato que não pode escapar de uma análise mais acurada, foi o ajuntamento de todos eles como se fossem verdadeiros amigos. Via-se no mesmo palanque Careca, Ademar, Paulo Duarte, Dilmar e Ariosto Holanda. Esse último confirmava sua indisposição de estar ao lado do povo, esquecido de que tempos atrás teria sido contrário a candidatura de Dilmar com base em um comentado “dossiê” que tinha em mãos sobre o período em que o mesmo administrou Limoeiro (1989-1992) e agora, pedia obstinadamente aos limoeirenses que o elegessem.
Ante a exibição historicamente cinematográfica promovida pelo “grupão”, pelo menos alguns eleitores mais sensatos sabiam que por trás daquele cenário existia entre eles uma desconfiança generalizada, mas que preferiam encenar amizades recíprocas para ludibriar a consciência do povo. A declaração de apoio feita pelos componentes do “grupão” à candidatura de Dilmar na eleição de 2004 foi a forma que eles encontraram para assegurar a participação no bolo, ainda que pequena. A cena, de certa forma pitoresca lembrava o escritor francês Etienne de La Boétie:
“(...) não pode haver amizade onde se encontram a crueldade, a injustiça. Entre os maus quando se juntam, há uma conspiração, não uma sociedade. Eles não se entreapóiam mas se entretemem. Não são amigos, mas cúmplices”. (Discurso da Servidão Voluntária, http://www.consciencia.org/moderna/boetie.shtml)
Se naquela época – Séc. XVI – La Boétie já descrevia a sujeição do povo aos seus líderes, imagine hoje quando a mente humana se aprimorou no jogo político.
Para os políticos limoeirenses, alienar tornou-se um verbo de conjugação saborosa e doce e em virtude disso, passaram a oferecer ao povo em vez de liberdade, uma sensação de desprezo e impotência a cada administração.
Se durante todo mandato, Arivan tivesse usado de um mínimo de inteligência no trato com seus “inimigos” políticos não teria viabilizado o retorno deles ao poder. Não soube, ou não quis conduzir a administração, cujo objetivo principal era o de promover a ruptura com o modelo anterior e fizesse nascer um novo período na história político-administrativa de Limoeiro do Norte.
Faltou-lhe a experiência e muito mais a matreirice necessária para expurgar definitivamente do município os viciosos costumes politiqueiros, implantados por todos aqueles que foram derrotados naquela eleição que a tornou prefeita.
Não soube ainda emprestar seu “carisma” – embora raquítico – para que pudesse fazer um governo catalisador e aglutinador de forças políticas, e para isso, seria necessário apenas que tivesse agido sem arrogância.
Os complicados fatores e circunstâncias que deveriam ser combinados para o êxito de sua administração não foram usados. Pelo contrário, desprezou todos aqueles que a ajudaram a chegar ao cargo de prefeita.
Em vez de estabelecer métodos administrativos inovadores, optou pelo empreguismo, pelas futricas pessoais e pelo acirramento das discordâncias, de certa forma praticando os mesmos atos desabonadores dos adversários, o que foi inteligentemente aproveitado por eles para jogá-la contra a população. Para a tristeza dos limoeirenses, o desinteresse de Arivan em optar pela humildade e de se fazer verdadeiramente representante do povo, viabilizou o retorno de um grupo político inadequado para conduzir os destinos de Limoeiro.




Nenhum comentário:
Postar um comentário