domingo, 28 de junho de 2026

AO LEITOR

 A HISTÓRIA POLÍTICA DE LIMOEIRO DO NORTE é recheada de acontecimentos que revelam a forma como o processo se desenvolveu ao longo de mais de um século. Desde o domínio da família Chaves, iniciado em meados do século XIX, os acordos e conchavos fizeram e ainda fazem parte das negociações para a manutenção do poder.

Se a oligarquia Chaves durou quase um século e já se passaram várias décadas após a sua queda, é possível perceber que a estrutura de poder se manteve. O comando foi apenas transferido, dando continuidade a interesses individuais e de grupos.
A ascensão de Manuel de Castro no processo político local, a partir da queda dos Chaves em 1954, também caracteriza uma oligarquia (governo de poucos), perpetuando um modelo que perdura até os dias atuais. Curiosamente, nenhum dos atuais políticos limoeirenses — com raras exceções — pode se dar ao luxo de dizer que não tem origem no proselitismo político de Manuel de Castro. Mesmo tendo encerrado sua vida pública em 1982, na qualidade de governador do Estado — atividade que exerceu por quase quatro décadas —, ele deixou um legado que deverá permanecer no cenário local por algum tempo.
Os novos nomes que passaram a dominar o poder a partir de 1982 iniciaram o que podemos chamar de um novo ciclo político. Foi a partir de então que a política, se já era voltada para interesses sombrios, tornou-se ainda pior, pois as brigas, as fofocas, as futricas e, sobretudo, os interesses pessoais ficaram mais evidentes. “Brigar” hoje e “unir-se” amanhã tornou-se apenas uma questão de conveniência, dependendo da ocasião.
As últimas décadas foram marcadas por um jogo de cumplicidade entre os políticos limoeirenses. Embora, em determinados momentos, eles tenham se proclamado “amigos” apenas para enganar o povo, a amizade nunca existiu de fato. O que houve foi um estado de conexão profundamente personalizado e, apesar de tudo isso, coexistia entre eles uma visível desconfiança.
A união propalada durante as campanhas eleitorais nunca representou os anseios do povo, que foi propositalmente colocado no jogo cruel e injusto da política por eles praticada. Aqui, cabe muito bem uma citação de Étienne de La Boétie, em seu Discurso da Servidão Voluntária:
“Entre os maus, quando se juntam, há uma conspiração, não uma sociedade; eles não se entre-apóiam, mas se entre-temem. São cúmplices”.
Os atos político-administrativos ocorridos a partir de 1982 até os dias de hoje têm sido os mais absurdos de toda a história de Limoeiro do Norte. Os mais escabrosos boatos de corrupção, os mais desavergonhados conchavos políticos e os maiores descalabros administrativos tornaram-se tão habituais que viraram rotina, de tal forma que a população passou a considerá-los como ações normais.
Tanto cultuam os atos ilícitos que conseguem fazer com que boa parte da população passe a desacreditar da existência de pessoas sérias capazes de administrar o que é do povo com honestidade. O que mais se ouve nas rodas de conversa, com bastante frequência, é que “todo político é ladrão, todos são iguais, basta que cheguem ao poder e farão a mesma coisa”.
O ponto a que chegou a consciência popular, como resultado da política implantada nos últimos quarenta anos, tornou-se bastante favorável aos maus políticos. Para eles, o que interessa é que o povo continue cada vez mais alienado e sem condições de fazer uma análise crítica da situação, optando sempre pelo pior — o que é bem melhor para eles.
Todos eles, da mesma cepa, praticam e disseminam até hoje a semente nociva da politicagem e, com isso, conseguem sobreviver politicamente a ponto de superar até mesmo as suas próprias contrariedades.
O agravante é que parte da população, aquela que percebe como o jogo político é praticado, sente-se impotente diante do quadro atual. Sem nada poder fazer para conter a facilidade com que agem os pseudopolíticos, essa parcela assiste à falta de escrúpulos com que eles mostram a cara ao povo, sempre com a empáfia de grandes líderes.
Os conchavos e os acordos firmados a cada eleição são tão deslavados que sequer se preocupam em ser escondidos da vista da população. Isso não se restringe apenas ao uso indevido do dinheiro público, mas a um absurdo ainda maior: a falta de coerência, de sinceridade e de respeito para com o limoeirense.
A propósito: haverá ato de corrupção maior do que corromper consciências?
MF

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