NO PRIMEIRO DIA de janeiro de 1997, José de Oliveira Bandeira, simplesmente conhecido como “O CARECA”, tomou novamente assento na cadeira de prefeito de Limoeiro do Norte. A manhã de quarta-feira foi marcada por uma pomposa festa de posse, com direito a passeata e queima de fogos pelas ruas da cidade. Os discursos teciam loas àquele que trazia — de forma enganosa — a áurea de maior administrador da história do município. Em sua fala, o próprio Careca bradou em alto e bom som: “Quero dizer a vocês, que me chama de analfabeto, que tô dando bolo em muitos doutor, pois sei administrar mió do que qualquer um de vocês”.
Essas palavras deixaram visivelmente encabuladas figuras presentes à solenidade, como Paulo Duarte e Ariosto Holanda, que certamente pensaram: “É bem-empregado! Fomos dar corda para um analfabeto!!!”. Se o prefeito se manifestou de forma tão egocêntrica naquele momento, foi certamente embriagado por um recente elogio do governador Tasso Jereissati, que, ao falar a seu respeito, o havia rotulado de “doutor em povo e em administração”.
Assim se iniciava o segundo mandato de José de Oliveira Bandeira (Gladstone). O primeiro grande equívoco da gestão foi fazer de tudo para eleger o seu filho, Gladis, presidente da Câmara Municipal. A manobra visava manter o Poder Legislativo sob controle, detendo a maioria dos vereadores para garantir a aprovação tranquila de matérias, em um parlamento meramente fisiológico e submisso.
Mais adiante, esse erro custaria caro ao gestor, que perdeu o apoio do presidente da Câmara logo na eleição seguinte. Para agravar o cenário, a prática do nepotismo voltou a ocorrer à vista de todos: a nomeação para o cargo de tesoureira recaiu novamente sobre a sua filha, Lúcia, desta vez acompanhada do esposo, Paulo César, empossado como Secretário de Administração.
O cargo de Procurador Jurídico da Prefeitura coube ao advogado João Batista Freitas de Alencar — que, ironicamente, no passado fora tratado como "advogadozinho de merda". (ver Capítulo XVII). Em 1988, o Dr. João Batista esteve no palanque de Rita Peixoto.
É preciso recordar que, em 1983, quando o Careca assumiu a administração, recebeu das mãos de Evaldo Holanda Maia uma prefeitura com as contas públicas inteiramente em dia: finanças equilibradas, funcionalismo dentro do limite legal e uma considerável reserva financeira em conta bancária (em torno de 13 milhões de cruzeiros).
Em 1997, contudo, aconteceu exatamente o contrário. Ele recebeu uma prefeitura falida, com dívidas acumuladas no comércio, cinco meses de atraso na folha de pagamento, uma quantidade espantosa de cheques sem fundos emitidos pelo município e outros abusos da gestão anterior. Diante de tais dados, aquele que antes fora considerado o melhor administrador da história da prefeitura não conseguiu confirmar a boa impressão que deixara em 1988. Na verdade, o que existiu naquela época foi uma falsa propaganda montada para enganar a população.
Logo no início, o gestor deu mostras de fraqueza, principalmente quando surgiram boatos de que sua filha Lúcia e seu genro Paulo César eram quem determinavam as diretrizes da administração, e que nada era feito sem a anuência prévia deles.
Aquele Careca que, no primeiro mandato, dava murros na mesa para intimidar sobretudo os cidadãos mais humildes que o procuravam, transformou-se em um administrador apático e hesitante, sem autoridade para conter os “erros” cometidos por seus próprios familiares no governo. Como justificativa, ele alegava a situação precária em que encontrara a prefeitura, declarando-se impossibilitado de fazer uma boa gestão. O argumento não convenceu ninguém; serviu apenas para desmistificar a imagem de grande administrador construída ao deixar o cargo em 1988.
Ao receber a prefeitura em situação caótica e endividada, o gestor não demonstrou competência para sanear as contas públicas. Se, no primeiro mandato, promoveu melhorias nas praças, priorizou estradas vicinais e prestou uma série de outros serviços, no segundo não passou de um prefeito inoperante e fraco em suas decisões. Faltou-lhe, antes mesmo do tino administrativo, o compromisso básico com o cargo para o qual havia sido eleito.
Na verdade, a crise enfrentada era uma continuidade dos desmandos dos prefeitos anteriores, inclusive os dele próprio, cujo ônus recaía mais uma vez sobre a população. Ruas esburacadas, lixo acumulado, estradas intransitáveis, servidores com salários atrasados e ações judiciais por precatórios foram os obstáculos que ele e sua equipe usaram para justificar a péssima gestão. Convém ressaltar que todas essas mazelas tiveram início na sua primeira gestão, quando instituiu práticas de nepotismo, fisiologismo, empreguismo e uma política de favores, à época em que se autoproclamava um gestor insuperável.
Para completar, nos meses finais de seu mandato, resolveu atrasar a folha de pagamento, em uma demonstração de desrespeito com o dinheiro público. Indagado por um amigo sobre a razão do atraso, rebateu de maneira irônica e irresponsável, afirmando que “não era prefeito para administrar folha de pagamento”.
Mas nem mesmo o fracasso administrativo do Careca tirou do grupo a certeza de que nada impediria a sua reeleição, assegurando não haver nenhum entrave e, muito menos, outro nome que tivesse condições de concorrer. O próprio Careca, sem reconhecer sua incompetência administrativa, dizia aos quatro ventos ser o político de maior prestígio em Limoeiro e, por isso, sua condição de candidato à reeleição era indiscutível. O procurador jurídico da prefeitura, Dr. João Batista – tempos atrás difamado pelo Careca – dizia firmemente em conversas informais que a eleição iria acontecer apenas por uma questão de cumprimento da lei, mas a recondução do Careca à prefeitura seria quase por aclamação.
O que eles não contavam era o aparecimento de vários fatores que desencadeariam em um caminho completamente diferente para o Careca e o seu grupo, e vamos ver isso nos relatos sobre a próxima campanha eleitoral.
⛯⛯⛯
Lembremos que foi a partir de 1982 que nasceu um novo ciclo político em Limoeiro, que podemos chamar de “CICLO DOS AMIGOS”. No decorrer dos anos, seus integrantes tornaram-se cúmplices em manobras de enganação e maldade, travando uma disputa diabólica pelo poder, movidos pela intenção egoísta de lucrar uns sobre os outros.
Os atos administrativos praticados desde 1982 até os dias de hoje estão entre os mais absurdos da história de Limoeiro do Norte. Escândalos de corrupção, conchavos políticos desavergonhados, desrespeito ao povo e descalabros administrativos tornaram-se tão habituais que a população passou a encará-los como normais.
Tanto se cultivaram os atos ilícitos que os integrantes do “ciclo dos amigos” conseguiram convencer boa parte da população de que não existem pessoas sérias capazes de administrar o município com honestidade. Nas rodas de conversa, a frase mais ouvida era: “Todo político é ladrão e todos são iguais; basta chegarem ao poder para fazerem a mesma coisa”.
Essa descrença na política, subproduto das últimas gestões municipais, tornou-se extremamente favorável aos maus políticos. Para eles, o que interessa é manter o eleitorado alienado, sem condições de fazer uma análise crítica da situação. Assim, o povo opta sempre pelo "menos pior", o que, no fim das contas, é bem melhor para a manutenção do poder desses grupos.
O segundo mandato do "Careca" foi a prova definitiva de que o político que se aventura a agir de forma enganosa para com o povo, invariavelmente, acaba mostrando a sua verdadeira identidade. Mais cedo ou mais tarde, suas ações revelam quem ele realmente é, pois basta surgir um momento que exija seriedade para que sua verdadeira personalidade venha à tona. Aqui cabe muito bem a célebre citação atribuída a Abraham Lincoln Pode-se enganar a todos por algum tempo...: "Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos todo o tempo."
O fato é que Ademar entregou a prefeitura ao Careca com cinco meses de atraso na folha de pagamento, e este a entregou com oito meses — ou seja, os cinco de Ademar somados a mais três de sua própria gestão —, o que gerou uma enxurrada de precatórios para as administrações seguintes. Na carona da folha, entraram também em atraso as obrigações patronais com a Previdência Social, o que caracteriza outro ato puramente desonesto, principalmente porque parte desse dinheiro significa apenas um repasse, já que é descontado dos próprios salários dos servidores.
Incrível foi o destino dado ao dinheiro tirado do suor do funcionalismo público! Todos eles o usaram principalmente nas eleições de seus sucessores, por meio de acordos espúrios e vergonhosos, com o único objetivo de garantir a impunidade e a continuidade dos desmandos.
Todos, sendo da mesma cepa, disseminaram a semente nociva da politicagem e, com isso, conseguiram sobreviver e superar até mesmo suas próprias contrariedades.
O que deixava a parte consciente da população espantada e impotente, para reverter aquele triste quadro, era a facilidade com que agiam e a falta de escrúpulos com que mostravam suas caras ao povo, sempre com a empáfia de grandes líderes.
As ações desonestas vieram à tona principal dos administradores que fizeram parte do "ciclo dos amigos" em Limoeiro e as suas ações foram tão deslavadas que sequer se preocuparam em esconder do povo os seus atos. Isso não se restringiu apenas ao uso do dinheiro público, cujo mal maior foi a falta de coerência, de sinceridade e de respeito aos cidadãos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário