segunda-feira, 28 de abril de 2025

Capítulo XXIII - A ELEIÇÃO DE 1996

Ainda que alguém me diga
Que viu um mudo falando
Um elefante dançando
No lombo de uma formiga
Não me causará intriga.
Escutarei com respeito
Não mentiu esse sujeito.
Muito mais barbaridade
É haver numa cidade
Prefeitura sem prefeito.

Não vou teimar com quem diz
Que viu ferro dá azeite
Um avestruz dando leite
E pedra criar raiz
Ema apanhar de perdiz
E um rio fora do leito.
Um aleijão sem defeito
E um morto declarar guerra
Porque eu vejo em minha terra
Prefeitura sem prefeito.
Patativa do Assaré
Extraído do poema “Prefeitura sem Prefeito”

NO INÍCIO DE 1996, Limoeiro do Norte passava pelo pior período de sua história administrativa. O prefeito Ademar Celedônio, onde quer que fosse visto, estava sempre embriagado. A prefeitura, completamente acéfala, havia sido entregue nas mãos de pessoas ligadas aos grupos políticos de Paulo Duarte e Dilmar. A irresponsabilidade da gestão municipal alimentava boatos assustadores, enquanto crescia consideravelmente a lista de cheques sem fundos emitidos pelo próprio gestor para custear despesas pessoais, incluindo farras e bebedeiras.
Uma considerável parcela da população limoeirense andava desanimada, esperando um milagre ou um fenômeno qualquer que tirasse o município daquela situação deplorável. Foi captando esse sentimento de apreensão que Ariosto Holanda resolveu promover, numa memorável noite nos salões da AABB, um movimento sugestivamente chamado “Pensando em Limoeiro”.
Sabendo que a situação política era delicada e que seu nome gozava de enorme credibilidade junto ao público, Ariosto convocou a sociedade local para apresentar sua visão sobre a gravidade da administração e o futuro do município. Em seu pronunciamento, ele exibiu uma reportagem das PÁGINAS AMARELAS da Revista Veja ("É Triste Ser Analfabeto", Edição nº 1435, 13 de março de 1996, págs. 7 a 10). A matéria destacava a história de Antônio Ramos da Silva, prefeito de Quixaba — cidade do sertão pernambucano a 430 km de Recife, com população estimada em 4.000 habitantes na época. O gestor, mesmo completamente analfabeto, alcançou enorme popularidade ao revolucionar a educação do município, erradicar o analfabetismo e ganhar fama nos noticiários nacionais.
Pela forma como iniciou o seu discurso, deixou nas entrelinhas que estava disposto a apoiar o Careca caso ele viesse a se candidatar. Justificou esse apoio valendo-se da reportagem da Revista Veja, sugerindo que não haveria problema algum para um município ser administrado por um analfabeto.
A presença de Ariosto naquela noite causou enorme decepção. Quando o povo esperava que ele trouxesse a proposta de um candidato novo, optou por dar continuidade ao atraso em Limoeiro.
Foi a partir daquela noite que o Dr. Ariosto Holanda começou a mostrar duas faces distintas aos limoeirenses: a do político insensível e a do técnico competente. Com seu jeito sério, sempre conseguiu a simpatia do eleitorado, que lhe confiava o voto sem cobranças. Por outro lado, sempre optou pelo atraso político, mesmo sabendo que sua influência junto aos eleitores — principalmente naquele momento — era fundamental para mudar a situação crítica do município. Nunca, na história de Limoeiro, um político teve tanta aceitação e credibilidade popular quanto ele.
O discurso socialista que propusera implantar, quando veio buscar votos pela primeira vez em 1990, foi inteiramente desfeito por suas atitudes. Seu primeiro ato demagógico comprovado foi a filiação ao PSDB, partido de direita, para disputar novamente uma vaga na Câmara Federal em 1994. Naquele ano, após obter apenas uma suplência, foi convidado por Tasso Jereissati para assumir a Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado. O cargo serviu como compensação por não ter se eleito deputado federal, pasta onde permaneceu de 1995 a 2002.
Foi aí que se revelou a sua capacidade técnica. Na qualidade de secretário, implantou uma rede de educação tecnológica no Ceará com 40 Centros Vocacionais Tecnológicos (CVT), dois Núcleos de Informação Tecnológica (NIT) e três Centros de Ensino Tecnológico (Centec) — em Sobral, Juazeiro do Norte e Limoeiro do Norte —, idealizados como um programa de capacitação humana e educação profissional.
Sem deixar de reconhecer o valioso benefício dessa iniciativa — principalmente por defender a educação como base para a inclusão social —, ficamos sem entender a razão pela qual o Dr. Ariosto sempre defendeu um modelo político que não se afinava nem um pouco com o seu discurso, tampouco com suas atitudes em relação aos Centec’s. Estranhamente, ele promovia uma mistura do moderno com o arcaico: de um lado, praticava aquilo que considerava fundamental para o desenvolvimento do cidadão; de outro, fazia política da forma mais anacrônica e fisiológica possível.
Quem conhecia as atitudes de Ariosto Holanda quanto ao processo político em Limoeiro do Norte e o seu pensamento sobre a educação, percebia claramente essa dualidade e espantava-se com suas declarações:
"Se não pensarmos no homem, não alcançaremos o desenvolvimento: não se distribui renda entre analfabetos, só esmolas. E aqui se incluem os analfabetos funcionais, que sabem ler e escrever, mas não sabem para que isso lhes serve".
(www.estadao.com.br/ciência/noticias/2000/dez)
Com essas palavras, Ariosto criou um terrível paradoxo entre o falar e o pensar; ou seja, de um lado defendendo brilhantemente a educação e criticando o analfabetismo como um grande mal social e, de outro, pedindo ao seu povo que elegesse um analfabeto para administrar o município.
Ainda juntos, Dilmar e Paulão continuavam encenando para o povo um relacionamento de cordialidade, mas, intimamente, o que acontecia era uma desconfiança tão recíproca quanto a falsa impressão de uma amizade concreta.
Em meio às discussões que tratariam da escolha do sucessor de Ademar, os dois não se entendiam, e essa falta de harmonia nos entendimentos culminou em algo “inacreditável”: o rompimento entre eles.
O divórcio político entre Paulo Duarte e Dilmar poderia ter causado estranheza se não fosse de praxe os políticos limoeirenses viverem entre “tapas e beijos”, numa constante disputa pelo poder.
O impasse surgiu em virtude de Dilmar não abrir mão de sua candidatura sob qualquer hipótese, mesmo com a discordância irredutível de Paulão. Este, por sua vez, tencionava repetir a dose da eleição passada, quando fez todos engolirem goela abaixo o nome de Ademar.
Estando Paulo Duarte certo de que Dilmar não abriria mão da condição de candidato, começou a tramar o seu jogo político, iniciando uma aproximação com o Careca, com conversações no sentido de apoiá-lo na candidatura para prefeito.
Dentro desse contexto, convém analisar que cada um dos protagonistas daquele momento político se julgava mais astuto que os demais. Como o "bolo" estava cada vez mais fragmentado, sua divisão tornava-se mais complexa, visto que a parcela destinada a cada grupo não possuía peso ou "ingredientes" suficientes para vencer uma eleição de forma isolada. Eles dependiam, assim, de fatores externos — como a viabilização de candidaturas que facilitassem ou possibilitassem a vitória de terceiros. Foi o caso da eleição de Ademar, que só ocorreu graças ao rompimento entre Pedro Julião e Careca no pleito anterior (1992), fator que dividiu os votos e sem o qual sua eleição seria improvável.
De maneira semelhante ao que fez em 1982, quando se uniu a Manuel de Castro, Gladstone Bandeira esqueceu tudo o que havia dito nos palanques e partiu para uma negociata com Paulo Duarte. Após diversas conversas e conchavos nas madrugadas, a população assistiu estupefata, na histórica e memorável noite de 1996, no pátio interno do Hotel Municipal (hoje Secretaria Municipal de Educação Básica), à aliança pública entre Careca e Paulo Duarte, em uma solenidade que reuniu adeptos de ambos os lados. Em meio a clamores e aplausos, os dois deram as mãos como velhos amigos, como que pedindo ao povo que esquecesse as difamações trocadas durante a campanha para deputado.
Naquele momento, ambos se mereciam; compartilhavam o mesmo estratagema político de subestimar e desdenhar da consciência popular. Vale lembrar que as desavenças entre Julião e Careca durante a eleição passada abriram uma fenda na família Bandeira. A situação se agravou quando Careca, insensível ao rompimento de seu próprio clã — mesmo tendo sido o principal causador da crise —, não hesitou em unir-se a Paulo Duarte, movido unicamente pela ambição de voltar a ser eleito prefeito.
Seu irmão, Nauto Bandeira, até então um dos seus sustentáculos políticos, não gostou dessa atitude e, magoado, rompeu com ele. Acusou-o de ter passado por cima inclusive dos laços familiares, desconsiderando a todos e deixando de ser solidário ao próprio Nauto, que sofreu fortes perseguições políticas por parte de Paulo Duarte. Mas Careca, obcecado pelo poder, optou por satisfazer sua ambição pessoal. Se assim agiu, foi porque sabia que, sendo eleito, todos aqueles que se haviam afastado dele — inclusive os próprios familiares — viriam, sem dúvidas, ao seu encontro. A propósito, certa vez Careca foi flagrado conversando escorado no balcão de um amigo, comerciante e permissionário de um dos quartos do mercado público. Ele dizia: “Eu não me preocupo com quem tá brigado comigo agora, mesmo sendo meus parentes, pois, quando eu for o prefeito, todos vêm pro meu lado”.
Para custear a campanha, acredita-se que a dupla tenha chegado a uma conclusão bastante irresponsável: conseguir de Ademar que atrasasse a folha de pagamento dos servidores públicos municipais. A partir de agosto de 1996, a prefeitura deixou de pagar os salários, exceto a alguns cargos de confiança.
Tão grande era a ambição do Careca de chegar novamente à prefeitura, que não se importou em concordar com o atraso da folha de pagamento, mesmo sabendo que, se eleito, os salários atrasados cairiam sob a sua responsabilidade. Movido pela cega ambição de conquistar o poder e demonstrando total indiferença, ele não atentou ao fato de que estava tirando de muitos pais de família a única fonte de sobrevivência e de sustento dos filhos, tudo isso para realizar o seu desejo de voltar ao executivo municipal.
O palanque do Careca, montado com dinheiro público, era o mais “enfeitado” de todos. Lá estava o Dr. Ariosto Holanda defendendo e pedindo voto para um analfabeto. Também Paulo Duarte distorcia o discurso em um engenhoso trocadilho para fazer elogios ao Careca, inteiramente “esquecido” do que falara dele em campanhas passadas quando, em vez de elogios, dirigia-lhe injúrias e difamações. Por último, o Careca, totalmente desmemoriado, perdoava Paulo Duarte pelos adjetivos ditos quando estavam em palanques diferentes e disparava o seu desconexo linguajar contra os “adversários”.
Dilmar também entrou na disputa apostando no “carisma” e na popularidade do seu nome, certo de que o povo o reconheceria como um verdadeiro “líder”. Com a extrema confiança que tinha na aceitação de sua imagem, deu pouca importância ao rompimento com Paulo Duarte. Isso implicou a perda do apoio logístico e financeiro da prefeitura, questão que seria superada através dos malabarismos do Dr. Maílson para conseguir o dinheiro que custearia a campanha.
Muito comedido quando se tratava de falar de alguém, sendo essa uma das suas muitas facetas, Dilmar não difamava os “adversários” para passar aos eleitores a imagem de que era diferente dos outros. Por outro lado, os seus asseclas encarregavam-se de divulgar para a população quem era realmente Paulo Duarte: segundo eles, um mentiroso que nunca cumpria com nada que prometia. Mauro Costa, por exemplo, foi um desses competentes divulgadores, dizendo-se altamente decepcionado com Paulão, a quem Dilmar havia feito das tripas coração para eleger deputado. Teve quem o visse sentado no fio de pedra do calçamento próximo ao BNB, com os olhos marejados e fitos no céu, dizendo: “Tenho fé em Deus que, se minha mão tiver vergonha, nunca mais há de votar em Paulão”.

A terceira candidatura surgiu com Pedro Julião, que estava ressentido com a determinação de Gladstone em não abrir mão de sua postulação e por ter feito um conchavo com Paulo Duarte. Aproveitando-se da insatisfação no seio da família, Julião conseguiu incluir em sua chapa, como candidato a vice, o próprio Nauto Bandeira, o que desencadeou uma disputa acirrada entre os parentes. Sabendo ser quase impossível eleger-se, o objetivo principal de Pedro Julião era aumentar seu patrimônio político para negociá-lo em pleitos vindouros, como habitualmente fazia. Nesse aspecto, os partidários do "Careca" acertaram ao considerá-lo um “candidato laranja” — isto é, aquele que, sem chances de vitória, lança seu nome apenas para ocupar espaço e obter votos suficientes para barganhas futuras.
Sobre esse cenário, Gomide Lima Oeriô, o poeta “Amigo de Limoeiro”, escreveu uma estrofe que marcaria a história do município ao retratar um político que nunca vencia, mas jamais desistia de estar na disputa para manter seu eleitorado:
Um outro só faz perder,
Mas não arreda do eito.
Candidato ele vai ser
A deputado ou prefeito.
Seja por bem ou por mal
Vai mantendo o capital
Pra investir noutro pleito.
Outra candidatura nascida da insatisfação — desta vez por não obter o apoio da prefeitura — foi a do então vice-prefeito, Dr. Reuber. Ele recebeu o respaldo do PT, confirmando sua constante disposição para firmar acordos e alianças a cada eleição.
Em meio aos quatro nomes lançados como candidatos a prefeito, eis que surge o quinto: Lauro Rebouças Filho, o “Laurinho”, que se colocou como uma opção diferente de todas as outras apresentadas naquele momento. Criticando o papel dos demais candidatos, que em vez de se unirem em torno de um projeto novo seguiram cada um seu caminho, ele argumentava que nenhum estava realmente pensando no município e no povo, mas sim em defender interesses pessoais. Alegando essa falta de respeito para com o eleitor, Laurinho lançou sua candidatura propondo dar ao limoeirense o direito de escolher algo novo. Ele pedia a mesma oportunidade que todos os outros já tinham tido, sem quase nada fazer, enquanto continuavam com a briga infernal pelo poder. Todavia, lembremos que Laurinho, embora com um perfil mais sério, não deixava de fazer parte do mesmo sistema político, tendo sido um dos grandes responsáveis pela eleição do Careca em 1982.
Uma sexta candidatura apareceu, mesmo sem nenhuma expressão política ou qualquer chance de vitória: tratava-se do agrônomo Arnaldo Araújo. Como tudo parecia desorganizado, qualquer um poderia se candidatar, ainda que isso não passasse de um deboche perante o povo.
Terminada a eleição, o Careca foi eleito, convencendo-se mais uma vez de que, sem o apoio da máquina administrativa, seria praticamente impossível chegar à prefeitura.
  • José de Oliveira Bandeira (eleito) - 7.621 votos - 29,94%
  • João Dilmar da Silva - 6.431 votos - 25,27%
  • Pedro Julião Bandeira Regis - 4.832 votos - 18,99%
  • Lauro Rebouças Filho - 3.267 votos - 12,84%
  • Reuber Tadeu Vieira e Silva - 3.088 votos - 12,13%
  • José Arnaldo Araújo - 212 votos - 0,86% 
    (https://apps.tre-ce.jus.br/tre/eleicoes/resultados/Resultado_das_Eleicoes_1996.pdf_
A Câmara de Vereadores ficou composta pelos seguintes representantes:
  1. Antônio Cicero Viana de Lima Junior
  2. Antônio Conrado Maia
  3. Benedito Mendes Cabral
  4. Elias Correia Lima
  5. Flavio Araújo de Almeida
  6. Francisco Gilmar de Castro
  7. João Neudes Saraiva Chaves
  8. José Carneiro da Silva
  9. José Cirineu Maia
  10. José Gilton Nunes Alves
  11. José Gilvan de Moura
  12. José Gladis de Lima Bandeira
  13. José Maria de Andrade
  14. José Valdir da Silva
  15. Lucia Baltazar Costa
  16. Raimundo Nonato
  17. Raimundo Nonato da Costa
  18. Raimundo Valdi Chaves
  19. Rute Gomes de Meneses Maia
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Com o quadro desenhado na campanha de 1996, assistiu-se a uma dança grotesca dos políticos limoeirenses em busca de um lugar ao sol. Nem é preciso observar atentamente para descobrir que quase todos representavam um mesmo grupo político, embora estivessem em palanques distintos, intencionalmente montados a fim de mostrar quem tinha mais força naquele momento. Aquele que fosse eleito alcançaria superioridade sobre os outros, garantindo melhores condições para abocanhar a maior fatia do poder.
Foi de estarrecer os eleitores a forma como eles se dividiram. Senão vejamos os nomes dos candidatos: Dilmar, que foi vice-prefeito de Careca e se tornou prefeito em 1988 com o seu apoio; Julião, que foi vice-prefeito de Dilmar, indicado por Careca; Dr. Reuber, que era o vice de Ademar; e o próprio Careca, que recebeu o apoio de Paulo Duarte — que, por sua vez, já havia sido aliado de Dilmar.
Os políticos fizeram isso porque sabiam — e sabem — que o povo não participa dos fatos políticos como deveria, ficando praticamente alheio ao processo. Pouco importa para as massas quem seja o eleito. Políticos assim não se preocupam em ser classificados como “farinha do mesmo saco”; para eles, é preferível que assim sejam chamados a agir com honestidade para com o povo.
Aquele que, em 1982, chegou ao poder através de conchavos e acordos com Manuel de Castro, repetiu a dose em 1996, quando teve que costurar novos arranjos, desta vez com Paulo Duarte. Trata-se da conclusão lógica de que a sua popularidade nunca passou de uma ilusão. Para comprovar essa obviedade, basta notar que, quando tentou por duas vezes se eleger sem utilizar a máquina administrativa — ou seja, o dinheiro do povo —, não obteve êxito, o que evidencia que nunca teve votos suficientes para chegar à prefeitura. Já nas duas ocasiões em que se elegeu prefeito, juntou-se aos próprios “inimigos” e, com eles, engendrou os acordos necessários à revelia da população. Se olharmos por esse ângulo (no meu entender, o mais verdadeiro), constatamos que a ânsia obstinada do Careca em ser prefeito nada teve a ver com os anseios e as necessidades do povo; os acordos, tendo o dinheiro público como patrocinador maior, foram sua única forma de chegar ao poder.
Ora, já que ele se considerava um grande líder — aliás, o maior de todos, como ele mesmo se autodenominava —, por que necessitou usar meios tão indignos a um homem público para se eleger? Concluímos que, se realmente possuísse a liderança primorosamente alardeada, teria sido eleito sem precisar descer a tais níveis, como ocorreu nas duas vezes em que chegou à prefeitura.
A propósito, o Careca celebrizou uma frase que marcou a sua conduta política para justificar as duas eleições que o fizeram prefeito. Dizia aos amigos que “eleição se ganha através de conchavos e dinheiro e nada mais”, confirmando assim que ele foi o mais hábil de todos na arte de costurar acordos para chegar à prefeitura.
Dos candidatos que disputaram o pleito em 1996, Laurinho e Arnaldo eram um pouco diferentes dos demais. Do primeiro, não se pode omitir a origem política: sendo irmão de José Hamilton de Oliveira, não há dúvidas de que foi partidário de Manuel de Castro. Ele ainda foi um dos homens fortes na campanha de 1982, que elegeu o Careca, período em que sua esposa, a professora Rita de Cássia Freitas Peixoto, foi eleita vereadora com expressiva votação.
Já Arnaldo era o único que não tinha origem política no mesmo grupo surgido a partir de 1982 — grupo que implodiu naquele ano de 1996, mas que já estivera unido no mesmo palanque em uma troca mútua de elogios. O mais interessante é que aquela não era a primeira vez que brigavam e, em algumas ocasiões, também em palanques diferentes, em vez de elogios trocaram palavrões.
Extremamente desconfiados entre si, exageradamente nepotistas e assistencialistas, além de afeitos às rotineiras fofocas e intrigas políticas e pessoais, as “célebres lideranças limoeirenses” sempre agiram conforme as conveniências. Em momento algum demonstraram qualquer tipo de escrúpulo em estarem brigados em uma eleição e unidos em outra, pois o que contava eram os interesses individuais de cada um e a possibilidade de preservá-los.
O revezamento constante que promoviam era uma forma de sobrevivência política. Como bem afirmou em conversas informais com o autor o ilustre limoeirense Padre Francisco de Assis Pitombeira, referindo-se às frequentes trocas de posições a cada eleição: “eles se dividem para se unirem”.
Preocupado com esse vai e vem de todos eles — ora brigando, ora se abraçando —, mais uma vez o poeta Gomide Lima Oeriô, o “Amigo de Limoeiro”, escreveu a seguinte estrofe:
E agora em desafio
Vou lhe fazer uma pergunta:
Por que é que o mesmo trio
Ora briga, ora se junta?
É por amor à cidade?
Ou é só por vaidade?
Ou é mesmo fome muita?
O rodízio dos políticos integrantes do grupo que se iniciou em 1982, com a primeira eleição de Gladstone, e suas danças para alcançarem o poder tornaram-se fatos corriqueiros nas campanhas eleitorais. Esse cenário provocou sucessivas e desastrosas administrações montadas em cima de demagogia e de corrupção, através de uma política populista barata e mal engendrada, com interesses voltados para fins meramente pessoais e eleitoreiros.
O mais intrigante — e o que mais demonstrava a ausência de ideologia, a incoerência política e a ambição pessoal de cada um — era a facilidade com que se aviltavam e se digladiavam, aliada à mesma facilidade com que esqueciam as agressões e se juntavam novamente, como se nada tivesse acontecido. Em todas as vezes que estiveram no poder, manipularam as opiniões e violaram o voto da maioria dos cidadãos como se fosse uma ação relativamente simples. Isso garantiu a cada um deles a possibilidade de se apresentar como uma opção que apontava o melhor caminho para o município.
As atitudes encenadas pelos chamados pseudopolíticos, naquele momento, buscavam justificativa na famosa máxima mineira atribuída a Magalhães Pinto: "Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou". Isso significava que, em uma eleição, o que foi dito ontem perde o valor hoje, assim como os acordos do presente nada valem para o amanhã. O mais interessante é que essas ações, se não fossem tão prejudiciais, chegariam a ser folclóricas, como se fizessem parte natural da vida do povo e da política. Na verdade, contudo, isso traduz apenas uma profunda falta de coerência e de respeito para com o eleitor.
Um resultado digno de nota naquela eleição de 1996 foi a votação obtida por Laurinho. Com uma estrutura financeira muito aquém dos concorrentes e sem nenhuma figura de expressão apoiando sua candidatura, ele conquistou 12,84% do total de votos em um universo de seis candidatos — pleito no qual Careca foi eleito com 29,94%.
Podemos considerar, então, que os votos obtidos por Laurinho representaram uma parcela da população altamente consciente da necessidade de mudança. Se esse grupo não se manifestou antes, foi justamente por falta de opção. Para ter essa certeza, basta analisar os candidatos de todas as eleições passadas — mesmo antes de 1982: todos, sem exceção, sempre pertenceram ao mesmo grupo político, alternando-se entre rivalidades em um pleito e alianças no outro. A vitória de Careca deixou uma grande lição para Dilmar: ele não teve votos suficientes para consolidar uma maioria expressiva. Sua representação entre os eleitores não chegou a 30%, demonstrando que seu tão alardeado carisma não era tão forte quanto se imaginava.

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